Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, atacante Luvannor, do Cruzeiro, relembrou a sua trajetória no futebol
De Campo Maior, no Piauí, a Tiráspol, capital da república independente da Transnístria, na Moldávia. Este foi o longo caminho percorrido pelo atacante Luvannor, que recentemente ficou mais conhecido pelo apelido de 'Luva do Cruzeiro', depois de ser anunciado como reforço do clube mineiro, em abril, para a disputa da temporada 2022.
Membro de uma família de jogadores, ele se inspirou no pai, que jogou no Comercial de Campo Maior até o início dos anos 1990, para seguir a carreira como atleta. E seus irmãos, Klysman e Boniek, seguiram o mesmo caminho. Quando ainda tinha 20 anos, Luvannor deixou o Brasil rumo a uma aventura na Europa Oriental, que o fez viver diferentes experiências, incluindo atuar por uma outra seleção.
Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, Luvannor lembrou dos primeiros passos da carreira, antes mesmo de se profissionalizar no futebol, e inclusive revelou algumas curiosidades sobre a sua vida. O que inclui a origem inusitada de seu nome.
"Meu pai é apaixonado pelo futebol, jogou o profissional no Piauí, em 1989, 1990, deixou de jogar profissionalmente quando foi para Brasília a trabalho, largou o futebol porque na época não pagava tão bem e ele decidiu trabalhar, foi para Brasília trabalhar como frentista de posto. Ele continua jogando futebol amador, chegou a receber convites, mas preferiu trabalhar e jogar futebol aos domingos. Ele sempre me levava para os campos, passava o dia todinho com ele, com a galera do futebol, com a resenha. A paixão foi crescendo dentro de mim, desde pequeno, com uns 3,4 anos, já fui crescendo no meio do futebol. Nos intervalos chutava a bola, chutava a bola com o filho de outros jogadores. Foi daí que surgiu (a paixão pelo futebol), veio do meu pai, pela paixão que ele teve, estar sempre jogando futebol também, me levando nos campos, nos estádios, isso me fez amar muito futebol", começou por dizer.
Além da paixão pelo futebol, seu pai também foi o responsável por escolher o seu nome. Para isso, ele selecionou cinco diferentes nomes, todos eles referências a outros jogadores que gostava, e os sorteou dentro de um boné. Luvannor, uma homenagem ao ex-meia do Goiás e Flamengo, foi sorteado três vezes.
"O meu pai, como amante do futebol, fez um sorteio. Escolheu cinco nomes e colocou em um boné para escolher. Eu me lembro que ele me contou que tinha Luvannor, Sorato, entre outros, mas foi através de um sorteio dos (nomes dos) jogadores que ele gostava, que ele tinha como favoritos. Aí ele tirou Luvannor três vezes. Na primeira, tirou e falou 'vamos tentar mais uma vez', na segunda tirou Luvannor outra vez, 'vamos tentar a última', aí quando saiu a terceira ele falou 'tem que ser Luvannor mesmo e acabou' (risos)", revelou, contando ainda que o seu pai até hoje, apesar de aposentado, conta os gols que marca nas 'peladas'.
"O meu pai é 'boleirão', ele conta os gols dele até hoje, fala que tem mais de 6.019 gols. Passou até uma época aqui comigo em Belo Horizonte, estava agoniado, estava há três semanas sem fazer gol (risos). Quando estamos juntos, eu, meu pai, meus irmãos, a resenha é garantida e é só futebol, futebol o dia todo", disse.
E foi em Paranoá, no Distrito Federal, que Luvannor teve a primeira oportunidade como profissional, no clube local em 2009. Mas antes disso acontecer, chegou a trabalhar como frentista, ajudande de eletricista e até mesmo vendendo picolé para ajudar a família.
"Joguei em Brasília, joguei no amador, os campeonatos quando tinha idade juvenil, juniores, até chegar ao profissional, quando eu me profissionalizei pelo Paranoá, time da cidade onde eu cresci e jogava nos campos de terra. Eu tentava ajudar a família de todas as formas, trabalhava ali, vigiava carro, vendia picolé, fazia alguns bicos. Quando eu me profissionalizei, eu estava trabalhando em uma empresa como ajudante de eletricista, daí surgiu a oportunidade de me profissionalizar", contou.
Experiência na Moldávia e chance na seleção do país
Depois de passar pelo Paranoá, Luvannor foi para o Morrinhos, do estado vizinho, Goiás, e após se destacar pelo clube recebeu a oportunidade de se transferir para o Sheriff Tiraspol, da Moldávia, em 2011, e aceitou o desafio. Em poucos meses, aprendeu a se comunicar na língua local - na Transnístria se fala russo - e a partir daí começou a se tornar um ídolo do time.
"O meu começo lá, na questão de idioma, foi tranquilo. Quando cheguei lá já tinha dois jogadores brasileiros, eles me ajudaram muito na questão de adaptação, um jogador que já tinha muito tempo lá, que se chama Fred Nélson, e me ajudou bastante na primeira temporada, questão do idioma, conhecer a cidade, o dia a dia do clube. Assim que eu cheguei, cheguei com muita vontade de, além de jogar, mostrar minha melhor qualidade e também de aprender um idioma a mais, que para mim era muito importante. Todo dia eu aprendia, botava na cabeça para aprender cinco palavras, anotava em um caderninho, ele vivia comigo. O que eu escutava eu pedia para as pessoas escreverem para mim, aí eu escrevia do jeito que iria falar e pronto. Depois fui só anotando as palavras, e já estava criando uma frase, parecia um robô (risos)", disse.
No ano seguinte à chegada na Moldávia, depois de se destacar pelo Sheriff, o atacante recebeu o convite de se naturalizar moldávio e atuar pela seleção do país. E ele, mais uma vez, se envolveu em uma aventura na carreira.
"Na seleção, sim (era o único brasileiro). Assim que eu casei em 2012, já surgiu essa possibilidade, então passado um ano, um ano e meio, nasceu a minha filha, foi uma temporada que eu estava evoluindo muito bem, estava em uma crescente muito boa, e assim que a minha filha nasceu eles me ofereceram essa oportunidade de jogar pela seleção. Me procuraram e perguntaram se eu tinha o interesse, eu falei claro que sim, e o clube também tinha interesse de ter eu como um local na equipe e abrir uma vaga a mais para um estrangeiro. Foi muito parte do clube, do país também, de me dar o passaporte para eu poder atuar como local, para o clube e também como jogador da seleção", revelou.
Pela seleção da Moldávia, foram apenas quatro jogos, mas Luvannor marcou dois gols. E ele ainda teve a oportunidade de enfrentar seleções como Suécia e Noruega. Contra os suecos, ele inclusive viveu a expectativa de jogar contra Zlatan Ibrahimovic, mas o atacante não esteve em campo no confronto.
"A gente nunca imagina que vamos jogar futebol e um dia defender outras cores de outras seleções. O que aconteceu comigo foi uma coisa que eu queria que estivesse acontecendo até hoje, eu queria estar jogando pela seleção da Moldávia. Meu primeiro jogo foi contra a Lituânia, na capital, eu fiz uma boa estreia, conseguimos empatar por 1 a 1. Nas férias, eles fizeram três amistosos em Abu Dhabi, daí me convocaram. Jogamos contra a Noruega e a Suécia, e o terceiro jogo era contra a Polônia, só que o terceiro jogo o Sheriff não permitiu que eu jogasse por estar de férias, eles com medo de acontecer alguma lesão. Contra a Suécia, estava naquela expectativa de talvez poder jogar contra o Ibrahimovic, mas somente ele não esteve presente no amistoso. E fazer um gol, foi um gol muito lindo, foi um dos que eu destaco como um dos gols mais bonitos que eu já fiz, consegui chapar de fora da área. Nos amistosos que eu fiz tive uma performance muito boa, e aí atraiu clubes árabes também, seis meses depois eu me transferi para os Emirados Árabes. Acho que a minha atuação em Abu Dhabi foi muito boa", disse Luvannor, sobre a sua ida para o Shabab Dubai, em 2014.
Quase jogou a Champions League após classificar o Sheriff
Na última temporada europeia, o Sheriff Tiraspol disputou pela primeira vez na história a fase de grupos da Champions League, inclusive vencendo o atual campeão, Real Madrid, em pleno Santiago Bernabéu, por 2 a 1. E Luvannor estava no time durante a disputa dos playoffs, inclusive marcando quatro gols e dando uma assistência em sete partidas.
O atacante ajudou a classificar o Sheriff, mas por conta de uma proposta bastante generosa do Al Taawon, da Arábia Saudita, deixou o time antes da estreia na fase de grupos da Liga dos Campeões.
"No verão, eu sempre vou para a Moldávia, eu fico um tempo no Brasil e depois o resto das férias na Moldávia. Ali eu tenho a porta aberta, eles me disponibilizam o CT, às vezes me deixam treinar com o Sheriff 2, às vezes com o Sheriff mesmo só para entrar no ritmo também. Esse ano foi muito engraçado porque foi a primeira vez que estava perto de terminar o contrato, ia ficar livre depois de um mês. Aí o presidente me fez o convite para que eu ficasse para poder ajudar eles a chegar o mais longe o possível nos playoffs porque, até então, o objetivo do dono do Sheriff sempre foi jogar uma Champions League. Eu também estava sem clube no momento, tinha algumas propostas e eu aceitei o convite, claro, tenho uma boa relação com o clube", disse.
"Dali foi um jogo atrás do outro, cada jogo uma história diferente, uma emoção diferente. Foi indo e, nisso tudo, eu estava recebendo ofertas para sair, eu tenho um bom mercado no Mundo Árabe, e no momento eu só pensava 'se entrar na Champions eu não vou sair de jeito nenhum'. Fomos jogar o jogo contra o Dínamo de Zagreb, uma equipe muito forte nesses playoffs, sempre jogam Champions, Europa League, daí no primeiro jogo fomos muito bem, fizemos um bom resultado, ganhamos de 3 a 0 em casa, e ali ficou o gostinho que já estávamos com um pé na fase de grupos, e eu já estava planejando que não iria para lugar nenhum e, felizmente, por um lado foi muito bom", prosseguiu.
"Chegou uma oferta que eu não pude recusar, sentei com a minha família, tomei a decisão, e era muito difícil recusar a proposta que tinha recebido da Arábia Saudita, e aí pensei pensei muito bem, eu já com uma certa idade, garantir o futuro das crianças do que depois só ficar com história para contar (risos). Eu preferi ir mesmo assim, por questão financeira, que era muito boa, mas depois eu vi os jogos, cada jogo na fase de grupos eu estava ali com a rapaziada toda, trocando mensagem no grupo, e eles fazendo história. Claro que dá aquele gostinho 'queria estar ali', mas também estava feliz pela decisão que eu tinha tomado", finalizou.
'Luva do Cruzeiro'
Depois de mais de uma década no exterior, Luvannor recebeu a oportunidade voltar ao Brasil depois de receber uma proposta do Cruzeiro, que havia vendido há pouco tempo 90% das ações da sua SAF (Sociedade Anônima do Futebol) para Ronaldo 'Fenômeno'. E Luva não pensou duas vezes antes de aceitar.
"Quem me passou a notícia foi o meu empresário, falou que pessoas do Cruzeiro procuraram ele. Quando chegou do Cruzeiro, é o Cruzeiro né, uma equipe com muita história no futebol brasileiro, um clube muito grande. Hoje, o Ronaldo à frente do clube, com um projeto ambicioso como é, fica difícil recusar. Mesmo jogando fora, não tem um jogador brasileiro que não tenha aquela vontade de jogar no Brasil, ainda mais em um clube grande com o Cruzeiro. O que eu estou vivendo hoje, os jogos no Mineirão, aquela torcida ali, é uma coisa que eu sempre sonhei, essa é a maior verdade. É uma oportunidade que sempre esperei e hoje o Cruzeiro abriu as portas para mim, eu sou muito grato por isso, por estar vivendo isso, um momento maravilhoso desse, ter a oportunidade de fazer história junto com o grupo que é muitp bom, que não tem muita vaidade, um grupo de jogadores que estão com muita fome para vencer mesmo, isso só tem a ganhar, não tem explicação em palavras para descrever essa emoção toda", revelou.
E a sua apresentação na Raposa foi cheia de criatividade. Por conta de seu apelido ser Luva, o clube mineiro anunciou a contratação do atacante ao estilo 'Luva de Pedreiro', uma referência a Iran Ferreira, celebridade da internet que faz sucesso nas redes sociais com seus vídeos e o bordão 'receba'. Luvannor não só gostou da ideia, como também mandou um recado para o seu 'homônimo'.
RECEEEEBA! É o Luva do Cruzeiro, graças a Deus, pai! 🧤#FechadoComOCruzeiro pic.twitter.com/Z9ZIbRJ8zS
— Cruzeiro 🦊 (@Cruzeiro) April 18, 2022
"Eu já vinha acompanhando o Luva de Pedreiro nas redes sociais, mesmo quando estava lá fora. Até o meu cunhado chegou a mandar um vídeo para mim no Instagram, e o meu cunhado é da Moldávia. Falou 'lá no Brasil está famoso outro Luva'. Aí eu expliquei para ele o que ele fazia, então quando eu vim para o Brasil, com a oportunidade de ir para o Cruzeiro, aí já começaram nas redes sociais com o 'Luva do Cruzeiro', e eu sabia que isso ia pegar. Quando eu cheguei, a assessoria (do Cruzeiro) já falou 'vamos fazer a apresentação comemorando igual ao Luva de Pedreiro' (risos). Foi muito bacana, divertido a forma que foi", disse.
"É um garoto muito humilde, merece o que está vivendo hoje, é muito bacana, quero ver ele feliz, buscando o espaço dele, acho que é um dos maiores sonhos que ele tem, que ele possa ser feliz e continuar contagiando a gente com a alegria dele aí. Só tenho a desejar coisas boas para ele, merece tudo de bom", finalizou.
