Agredido por Neymar em 2019, após a final da Copa da França, Nelson Douard relatou drama e diz que foi perseguido; PSG nega acusação de promover 'exército digital'
Líder isolado do Campeonato Francês e perto de avançar às oitavas da Champions League, o Paris Saint-Germain ainda segue protagonizando polêmicas fora dos gramados. Desta vez as atenções da imprensa europeia estão voltadas aos desdobramentos da reportagem divulgada pelo portal Mediapart, de que o clube teria procurado serviços de uma agência para a criação de perfis falsos nas redes sociais para atacar pessoas tidas como opositoras ou hostis.
A publicação da reportagem reacendeu uma crise atravessada pelo PSG em 2019, quando foi vice-campeão da Copa da França após ser superado nos pênaltis pelo Rennes.
Após a partida, um torcedor foi agredido por Neymar nas arquibancadas enquanto o craque seguia para as tribunas, onde acontecia a premiação.
Identificado como Nelson Douard, o torcedor do Rennes apresentou denúncia na terça-feira (18) ao Ministério Público de Paris alegando ter sido alvo do 'exército digital' promovido pelo Paris Saint-Germain à época.
O clube se manifestou em comunicado na última semana negando tais ação nas redes sociais.
No processo, reproduzido pelo jornal L'Équipe, o torcedor acusa o PSG de “obtenção de dados particulares por meios fraudulentos ou desleais”, “violação de sigilo profissional”, “violência psicológica” e “assédio moral”.
“Francamente, isso me assustou. Ainda estou meio aéreo, não tenho prestado muito atenção no que me dizem, tento não estar muito presente nas redes sociais”, disse Douard, contando como se sentia após a agressão de Neymar em 2019. “Por um bom tempo eu andava olhando ao redor para ver se havia algum detetive. Depois de um tempo eu pensei que era paranoico”.
O torcedor foi ouvido no mês de setembro pela Direção-Geral de Segurança Interna da França (DGSI) sobre as denúncias, quando percebeu que os ataques recebidos poderiam ser parte de um movimento organizado.
“Quando a DGSI me chamou, não sei como dizer...isso me deprimiu”, afirmou Douard durante entrevista ao L'Équipe.
“Não esqueço. Na época da partida estava trabalhando no meu futuro estabelecimento. As pessoas passavam e riam porque o nome do meu restaurante estava nas redes sociais. Alguns buzinavam, outros gritavam ‘Neymar’. Foi humilhante”.
“Quando meu nome, sobrenome e endereço vazaram, entrei em pânico. Me perguntava como sabiam de tudo isso. Várias vezes, à noite, carros passavam pela minha casa e me insultavam buzinando. Achei que eram pessoas perdidas, casos isolados para me assustar”.
Questionado sobre a possibilidade de que os ataques tenham o Paris Saint-Germain como um dos organizadores, Douard revelou que chegou a pensar em Neymar como o ‘mandante’ dos ataques, e disse que foi usado pelo clube para que a imagem do brasileiro fosse 'restaurada' após a agressão sofrida.
“No começo eu pensei que era orquestrado por Neymar. Dois de seus agentes vieram me ver uma ou duas semanas depois que ele me bateu. O objetivo era fazer uma transmissão ao vivo (na TV), para Neymar vir, para eu estar sentado na mesa com ele e tudo ser esquecido. Eles me disseram: ‘Não se preocupe, você vai estar na TV, você vai ter dinheiro. Você vai continuar sua vida’. E a imagem de Neymar seria limpa. A única coisa que os interessava era isso. Eu recusei”.
“Então me ofereceram um acordo financeiro, e disse não novamente. ‘O dinheiro pode ficar com você. Só quero uma coisa: que Neymar peça desculpas cara a cara, com um aperto de mão’. Mas desculpas sem câmera não os interessava. Eu disse a eles: ‘Vocês não entendem. Todo mundo está zombando de mim e vocês estão me oferecendo dinheiro? O que vou fazer com isso? Vou gastá-lo, e depois?’. Quando eles insistiram, comecei a chorar. Não era o único a sofrer com isso. Tinha minha família”.
“Quando me dizem que um exército digital foi montado, eu entendi melhor. Na verdade, fui destruído para restaurar a imagem do Neymar”.
“Não consigo dormir depois que vejo ele (Neymar) na TV. Me faz lembrar de tudo aquilo. Depois dessa história, vendi meu estabelecimento, não aguentava mais. Era um absurdo. Eu tinha trabalhado durante meses para chegar de manhã e ver que cuspiram nas janelas. Quando vendi, fiquei aliviado. Mas não foi suficiente. Então também me mudei. E ainda tenho pesadelos com isso”.
PSG nega ataques
Logo após a reportagem publicada pelo Mediapart, o Paris Saint-Germain emitiu comunicado repudiando com veemência as notícias veiculadas, e negou que tenha contratado a agência Digital Big Brother (DBB), apontada pela mídia francesa como responsável pelo processo de condução dos ataques.
“O PSG desmente com firmeza as acusações de Mediapart. O PSG é uma marca internacional que trabalha com agências de mídias sociais em todos os lugares para promover e festejar os êxitos do clube, de seus empregados e de seus sócios, como qualquer empresa. Nunca foi contratada uma agência para prejudicar ninguém”.
