Em meio a problemas ligados ao futebol, como o transfer ban vigente na Fifa pela dívida em relação à aquisição do zagueiro equatoriano Felix Torres, o Corinthians ainda vê avançarem as investigações em relação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP) sobre o possível uso indevido de cartões corporativos.
O órgão formalizou no último dia 21 de agosto um pedido à Justiça para o afastamento de Andrés Sanchez, Duilio Monteiro Alves e Augusto Melo, últimos três presidentes do clube, de todas as funções no Conselhos Deliberativo e de Orientação.
A solicitação foi feita pelo promotor Cássio Roberto Conserino, da 6ª Promotoria de Justiça Criminal.
Além da possibilidade do uso irregular de cartões corporativos, o Ministério Público de São Paulo apura ainda possíveis notas frias. Reportagem do portal ge divulgada em julho indicou, através de notas e cupons fiscais, compras de serviços e produtos sem relação com o dia a dia clube durante a gestão Duilio Monteiro Alves. A relação conta com gastos com itens como cerveja, cigarro e até remédio para disfunção erétil.
A reportagem indica 176 compras realizadas longo dos 36 dias prestados nos documentos (26 de setembro de 2023 a 31 de outubro de 2023), totalizando R$ 86.524,62.
De acordo com a apuração, R$ 80 mil do valor teria sido adiantado à presidência, sendo que restante teria sido repassado em espécie: R$ 30 mil em 2 de outubro; R$ 20 mil no dia 16; R$ 30 mil no dia 30.
Outro ponto da matéria indicou um total de R$ 32.580 entre os dias 18 e 31 de outubro, com sete notas ficais diferentes, em um estabelecimento de nome “Oliveira Minimercado”, localizado no Jardim Ângela, na Zona Sul de São Paulo. Mas segundo a reportagem, moradores do local teriam negado negada a existência estabelecimento com fins comerciais nos últimos anos.
“Há provas bastante contundentes em relação a um deles [ex-presidentes do Corinthians], e eu preciso caminhar [na investigação]. Daqui a 30 dias, se nós tivermos a mesma conversa com o eventual deferimento dessa documentação, a gente pode mudar o cenário. Hoje, eu tenho algumas provas contundentes de utilização de nota fiscal fria. Isso eu posso afirmar, posso afiançar. Está na investigação”, disse o promotor em entrevista à Rádio Bandeirantes.
“Tem três, quatro empresas que foram alçadas a essa condição. Uma delas disse o seguinte, e não me recordo o nome da empresa, mas realmente admitiu a emissão da nota fiscal. Ponto. O prestador de serviço admite a emissão da nota fiscal. Eu fiz um caminho reverso. Admitiu? Então é válido. E, dizendo o seguinte: ‘Por se tratar de um cliente novo, nós emitimos a nota fiscal, só que não foi pago o serviço e, portanto, o serviço não foi executado’. Entretanto, nós temos documentação que foi reconhecida por todos, de que realmente é do Sport Club Corinthians Paulista, de que naquele mês, aquela nota fiscal, especificamente, entre outras, teve o seu reembolso. Trocando em miúdos: apresentaram uma nota fiscal que não foi paga, mas apresentaram para a entidade aquele valor e obtiveram o reembolso”.
Torcedor do Corinthians, Cássio Conserino admitiu que o momento conturbado do clube gera tristeza.
“Como torcedor eu fico absolutamente triste. Não é possível que um clube com 30 milhões de torcedores, talvez mais, não tenho aqui esse número específico, deva R$ 2 bilhões e 600 milhões...atolado em dívida, atolado em escândalo”, disse o promotor, citando a entrevista em que Andrés Sanchez, ex-presidente do clube, admite o uso do cartão corporativo do clube para pagamento de despesas particulares em um hotel no Rio Grande do Norte.
“O que nós temos aqui é a assunção em vídeo, em rede social, e a ausência de negativa da altura desse vídeo de uso de cartão corporativo para fins particulares. Ora, qualquer um sabe que o cartão corporativo é corporativo, é da empresa. Quem paga aquilo é o clube. O dinheiro não sai da sua conta corrente. É lamentável que estejamos atuando numa situação dessa”.
“O que mais me entristece além dessa questão é a ausência de comprometimento. É a ausência de comprometimento. Estou lá no meu gabinete e recebo a representação. Como promotor e por dever de ofício, instaurei procedimento investigatório criminal porque eu sou corintiano. Mas é triste. É triste demais ter de lidar com essa situação, considerando que o Corinthians é patrimônio cultural. O Corinthians é muito mais do que os dirigentes que estão lá agora. O Corinthians precisa ser preservado”.
Entenda o caso
O Procedimento Investigatório Criminal (PIC) foi instaurado pelo Ministério Público em meados de junho deste ano.
À época, o órgão também agendou oitivas com o atual presidente, Osmar Stabile, o vice Armando Mendonça e o presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, a fim de entender o funcionamento dos cartões corporativos do Corinthians.
Inicialmente, a apuração do MP iria abranger somente o período das gestões de Andrés Sanchez (2018 a 2020) e Duilio (2021 a 2023). Porém, após ouvir alguns depoimentos, o órgão decidiu investigar também o mandato de Augusto Melo.
Além de uma suposta apropriação indébita, são apurados também os possíveis crimes de estelionato, furto qualificado, falsidade ideológica e associação criminosa.
O caso veio à tona no início do mês de julho, quando Andrés admitiu ter utilizado o cartão de forma indevida para pagamento de despesas pessoais em Tibau do Sul, Rio Grande do Norte, no fim de seu último mandato, em 2020.
Dias após a revelação dos gastos, ele ressarciu o Corinthians com juros e correção monetária. O ex-presidente, no entanto, responderá a um processo disciplinar na Comissão de Ética e Disciplina do clube. Os torcedores pedem punições e até a expulsão de Andrés.
Houve, também, uma acusação de supostos gastos pessoais durante a gestão de Duilio Monteiro Alves. As despesas, contudo, não estão necessariamente ligadas ao ex-presidente.
Ele não reconhece as faturas e registrou uma notícia-crime na Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade/Dope), solicitando a inclusão desta no inquérito policial já em andamento, que denuncia a circulação de documentos falsos e manipulados.
