O Brasil goleou o Panamá por 4 a 0 em seu 1º compromisso na Copa do Mundo feminina nesta segunda-feira (24), no Hindmarsh Stadium, em Adelaide, na Austrália. O destaque ficou por conta da estreante Ary Borges: a primeira jogadora a fazer um hat-trick na atual edição da competição.
Em carta publicada pela revista The Players Tribune, a meio-campista do Racing Louisville, dos Estados Unidos, lembrou que sua avó foi determinante para que ela corresse atrás do sonho de ser jogadora de futebol.
''E a minha avó, sábia pra caramba, deu a bênção dela: 'Na vida, as coisas acontecem quando têm que acontecer. Os seus pais já viveram tempo demais longe de você. Tá na hora de ir ficar com eles e correr atrás de seus sonhos lá. Eles vão te ajudar e eu vou ficar bem, não se preocupa'. Pô, rodeada de gente sensacional assim… O que mais eu podia desejar?'', disse a atleta.
Foi então que com apenas 10 anos, Ary deixou São Luís, no Maranhão, sua cidade natal, para se aventurar em São Paulo. Só que a adaptação não foi nada fácil. Na capital paulista, a menina conheceu seus país. E o futebol foi fundamental para criar uma relação de afeto entre eles.
''Chegando em São Paulo eu comecei a me conectar com meu pai por meio do futebol. São-paulino doente, ele queria que eu torcesse pro time do coração dele, aquela coisa bem de pai pra filha. Então a gente passava um tempão juntos falando de futebol, assistindo futebol, respirando futebol. Eu, que já gostava pouco do assunto, né? kkkkk, fiquei ainda mais hipnotizada e encantada com o futebol. Comecei a perceber que aquilo era mais forte do que uma brincadeira de criança, que mais cedo ou mais tarde ia se tornar a minha razão de viver'', escreveu Ary.
Foi seu pai, aliás, que deixou a paixão pelo seu time do coração de lado para levá-la na sede dos Meninos da Vila, escolinha do Santos.
''Em São Paulo eu continuei indo pra escola de manhã e, à tarde, jogava bola numa quadra com os meninos do colégio. Só tinha eu de menina. Um dia meu pai, voltando do trabalho, passou na quadra e me viu jogar pela primeira vez. Mais tarde, na mesa do jantar, ele comentou que tinha me visto e ficou impressionado. 'Acho que tá na hora de buscar algo mais sério pra você'. E foi assim que eu entrei numa escolinha do Santos, a Meninos da Vila'', relembrou.
Ary ainda teve passagem pelo Centro Olímpico, a maior base do futebol feminino no Brasil. Ela entrou no sub-15 com apenas 11 anos.
''O Centro Olímpico foi determinante. Eu tinha 11 anos e treinava em dois horários, na minha categoria e depois com a categoria acima, das meninas mais velhas. Três vezes por semana. Ali, embora fosse uma criança ainda, eu passei a ter uma rotina de atleta. Se era aquilo mesmo que eu queria pra minha vida, teria que seguir alguns padrões mais sérios, tipo: alimentação, sono, compromisso, tudo mais'', diz outro trecho da carta.
Em 2017, a meia foi para o Sport, onde ficou por dois anos até chamar atenção do São Paulo. Depois de uma temporada no clube de seu pai, Ary atuou no Palmeiras, onde foi campeã da Libertadores, até se transferir para o Racing Louisville. No clube americano ela tem um gol em 13 jogos.
Hoje, aos 24 anos, Ary fez história ao entrar para um seleto grupo a marcar três gols pelo Brasil em estreias de Copa. Antes dela, apenas Pretinha (em 1999, contra o México), Sissi (também em 2019, contra o México) e Cristiane (em 2019, contra a Jamaica) fizeram um hat-trick no primeiro jogo de um Mundial.
