Brasileiro Etto deu entrevista ao ESPN.com.br e lembrou convivência com craques da seleção da Croácia
Poucas pessoas conhecem tão bem os craques da Croácia, adversária do Brasil nas quartas da Copa do Mundo, nesta sexta-feira (9), às 12h (de Brasília), quanto o baiano Oélilton Araújo dos Santos.
Mais conhecido como Etto, o ex-lateral-direito defendeu o Dínamo Zagreb por quase seis temporadas e viu surgiu diversos nomes de peso, que formaram a chamada "geração de ouro" da seleção xadrez.
"Da geração que foi vice-campeã da Copa-2018 eu joguei com vários: Modric, Kovacic, Kramaric, Mandzukic, Corluka...", listou Etto, em entrevista ao ESPN.com.br.
Em longa conversa com a reportagem, o "brazuca", que se naturalizou croata e vive no país europeu até hoje com a família, contou grandes resenhas dos ex-colegas de equipe, com quem mantém amizade até hoje.
Modric e Corluka "traíras" na balada
Etto chegou ao Dínamo Zagreb em 2005/06 e fez amizade com o jovem Luka Modric, de apenas 20 anos, que havia acabado de voltar de empréstimo do pequeno Inter Zapresic.
"Quando cheguei ao Dínamo, o Modric tinha acabado de voltar de empréstimo. Começamos juntos na pré-temporada, mas ele quase não tinha jogado no Dínamo, pois tinha uma molecada muito boa. Na época já dava para ver a qualidade do Luka, que era diferenciado, mas não imaginei que faria uma carreira fantástica como fez", contou.
"O Modric já tinha essa categoria de hoje desde moleque, fazia as jogadas de trivela desde aquela época. Eu mostro os lances dele nesse tempo e a maioria era passe de três dedos. Jogar com ele era muito fácil, e até hoje falam no Dínamo que foi o clube que ele mais deixou saudade", salientou.
"Ele sempre jogou como meia, porque nossa equipe tinha dois volantes. O bom de jogar com o Luka é que ele nem precisava olhar para mim, já sabia onde eu ia estar para lançar. Toda bola dele, quando virava o corpo, eu sabia que ele não ia errar. É o cara que nunca se esconde dos jogos, seja contra quem for atua da mesma forma. Sempre jogou com a bola no pé e é o cara que pensa o jogo em campo, faz ficar mais rápido", elogiou.
"Fico muito feliz por ele de ver tudo o que conquistou. Todo verão que ele está com a família na Croácia a gente se encontra em uma cidade perto de onde ele mora. A gente senta, conversa sobre a época de Dínamo e dá muita risada", relatou.
Na época de Dínamo Zagreb, Luka gostou tanto do brasileiro que ajudou a integrá-lo ao grupo de croatas, inclusive "carregando" o baiano para as baladas de Zagreb.
"Nesse tempo a gente era solteiro, e, como o (atacante brasileiro naturalizado croata) Eduardo da Silva era casado, eu saía para a noite com os croatas. Eu me virava como podia na balada, porque não sabia inglês. Saía com um dicionário de português-croata debaixo do braço (risos). Imagina como era falar com uma menina? Tinha que abrir o dicionário, achar as palavras e ir juntando... Era uma dificuldade da p*** (risos)", gargalhou.
"E os croatas traíras ficavam rindo de mim. O Modric falava: 'Brasileiro não sabe falar nada!', e eu respondia: 'Falar como? No Brasil a gente não tem aula de inglês na escola igual vocês (risos)'", divertiu-se.
"Mas eles me ajudaram muito, sempre me chamavam para sair e nunca fizeram 'panela' ou criaram problema. Os caras me ajudaram demais na adaptação. A gente saía para a noite depois dos jogos com vitória e ia a galera toda, era show de bola. A gente era um grupo muito jovem e feliz", lembrou, saudoso.
O "problema" é que Modric também gostava de aprontar algumas com o colega brasileiro...
"Uma vez estávamos na noite e o Modric me ensinou uma frase em croata para eu dizer para uma menina. Eu perguntei: 'É sério isso?', e ele falou: 'É sério, pode confiar!'. Eu fui lá e falei, mas a menina fez cara feia, virou as costas e foi embora. Ele e o Corluka se acabaram de rir", rememorou.
"Aí fui nos caras e perguntei: 'O que eu acabei de falar para ela?', mas eles não quiseram responder. Aí fui na menina de novo e ela arranhava um espanhol. A menina perguntou: 'Você sabe o que me falou?', e eu disse que não, que era o Luka que tinha me ensinado. E só aí ela me contou que eu tinha dito que ela estava muito mal vestida (risos)", divertiu-se.
Os "parças" jogaram juntos até 2007/08, quando Modric foi vendido ao Tottenham.
"Para de correr e toca a bola"
No Dínamo Zagreb, Etto jogou com outro "estandarte" da seleção da Croácia: o volante Kovacic, atualmente no Chelsea. Eles se conheceram quando o meio-campista ainda era criança, aliás.
"Tem essa história curiosa! Eu joguei uma final de Copa da Croácia contra o Hajduk Split e tem uma foto em que estou ao lado do troféu com duas crianças: uma com camisa do Split e outra com uniforme do Dínamo, que era o Kovacic. Depois, a gente viria a jogar junto quando ele foi promovido ao profissional do Dínamo", contou.
O nome de Kovacic, inclusive, já era muito comentado nos bastidores do clube de Zagreb desde a base, o que levou os atletas do profissional a assistirem aos treinos das canteras para ver o fenômeno de perto.
"Ele sempre jogou muito bem. Quando a gente ia treinar no clube, gostávamos de ver a molecada treinando antes. Desde sempre falavam que o Kovacic era um garoto que jogava muito, então a gente ia mais cedo e ficava vendo os trabalhos dele na base. De cara dava para ver a qualidade superior e a diferença que ele tinha para os outros meninos", lembrou.
"Depois, ele foi crescendo e veio jogar conosco. Eu brincava muito com ele, dava cascudo e o fazia buscar água para mim (risos). É igual na escola: quando sobe alguém da base para o profissional, ele tem que cumprimentar e respeitar os mais velhos (risos). Mas sempre foi um moleque gente fina demais, de família muito boa e extremamente educado", ressaltou.
Kovacic, no entanto, tomou várias broncas de seus companheiros mais velhos por ser um tanto "fominha".
"A gente brincava para ele soltar a bola: 'P***, Kova, pelo amor de Deus, para de correr e toca a bola (risos)!'. Mas olha como ele joga até hoje: pega a bola e leva para a frente, mas hoje com muito mais cautela, porque é mais experiente", observou.
"Mas imagine quando ele era mais moleque... Só queria correr! A gente queria tocar bola e segurar um pouco, mas o menino queria correr o tempo todo. Era muito agudo, até porque tecnicamente sempre foi muito bom", complementou.
"Fiquem um ano no Brasil e vocês nunca vão querer voltar"
Etto também conhece há muitos anos três outros emblemas da seleção croata: o zagueiro Lovren e o atacante Kramaric, que ainda defendem a equipe, e o defensor Corluka, que se destacou bastante na campanha do vice na Copa-2018.
"O Corluka, que está na comissão técnica da seleção agora, era muito fã do Lúcio, zagueiro do Penta. Ele me perguntava muito sobre ele e falava que queria visitar o Brasil. Eu sempre falava para os croatas: 'Fiquem um ano no Brasil e vocês nunca mais vão querer voltar' (risos)", lembrou.
"Eu falava: 'Vejam o exemplo do Petkovic, que até hoje é ídolo lá!'. Todos os croatas sabiam da história do Pet e que ele é tratado como rei no Brasil", acrescentou.
Sobre Lovren e Kramaric, o baiano só tem elogios.
"O Lovren era um zagueiro muito jovem, que chegou ao Dínamo por empréstimo de um time pequeno. Desde sempre era o mesmo zagueiro de hoje: calmo, duro, forte e viciado em treinar", relatou.
"Ele ficou pouco tempo com a gente e logo foi vendido ao Lyon. Na época de Dínamo, ele revezava um pouco entre titular e banco, mas a qualidade era a mesma de hoje", seguiu.
"Já o Kramaric era o maior artilheiro da base do Dínamo, tinha uns 500 gols. Uma máquina! Até hoje você vê que ele tem uma jogada que ninguém pega, que é o corte. Nos treinos, era a mesma coisa: você sabia que ele ia fazer isso, mas não conseguia desarmar", rememorou.
"É incrível, porque sempre dava certo. Não sei como ele consegue fazer até hoje esse movimento e enganar os defensores. Mas no Dínamo acabou que ele jogou pouco, porque tinha o Eduardo da Silva numa fase absurda, daí ele acabou sendo emprestado e depois foi vendido", ressaltou.
As aventuras europeias com o Dínamo
Etto começou a carreira no Fluminense de Feira de Santana e depois passou pelo Bahia, sendo inclusive companheiro de equipe de Daniel Alves em 2002.
Em seguida, rodou por Criciúma, Paraná e Athletico-PR antes de ir para a Europa através de um empresário de Zagreb que levava atletas para o futebol croata.
"Era para eu ir para a Inter de Milão, mas eles tiveram um problema e não podiam contratar atletas por causa de uma punição. O empresário perguntou se eu queria ir para o Dínamo, que era bem organizado, e eu topei. Por sorte cheguei na época do calor na Croácia, e foi mais fácil me adaptar até chegar o frio", relembrou.
Na equipe de Zagreb, o brasileiro faturou um "caminhão" de taças e teve a oportunidade de jogar competições internacionais, como Champions League e Copa da Uefa, duelando contra diversos craques de renome ao longo dos anos.
"Nessa época a gente deu azar, porque o Coeficiente Uefa da Croácia era baixo, então a gente só pegava pedreira nos playoffs da Champions. Jogamos, por exemplo, contra o Ajax de Luis Suárez e Huntelaar, Arsenal de Henry e Fábregas... Hoje está mais fácil para o Dínamo, porque eles pegam umas equipes mais tranquilas", explicou.
"O Suárez foi um dos caras mais difíceis de marcar, porque era muito brigão e xingava todo mundo (risos). Ele te tirava do sério muito rápido se você não tivesse controle emocional. Perdemos a ida do Ajax por 2 a 0 em casa e os jornalistas ficaram falando que a gente ia passear na Holanda na semana seguinte, mas vencemos a volta por 3 a 1 e os eliminamos na Liga Europa. Foi uma festa incrível na volta do aeroporto", celebrou.
"Também pegamos o Werder Bremen, da Alemanha, que tinha o Diego Ribas jogando o fino da bola. Ele nessa época foi um dos melhores que já vi. Era muito inteligente e não tinha medo de jogar", exaltou.
E, em um duelo contra o Arsenal, Etto foi decisivo para fazer o atacante e amigo Eduardo da Silva dar um salto na carreira.
"Contra o Arsenal, a gente levou 3 a 0 em casa. O pessoal tinha medo de enfrentar os grandes times, e eu ficava agoniado, porque queria ir bem nesses jogos grandes. Eu corria muito e chamava o tempo todo o Eduardo para tabelar comigo", recordou.
"Na volta, no Emirates, eu atuei como ponta esquerda. Dei uma assistência linda para o Eduardo aos 12 do 1º tempo e a gente saiu na frente. Acabou que perdemos por 2 a 1, mas, pouco tempo depois, o Eduardo foi contratado pelo Arsenal. Até hoje eu brinco com ele que ele só foi para lá por minha causa (risos)", gargalhou.
Cinco filhos croatas
Etto ficou tanto tempo na Croácia que se naturalizou pelo país. No entanto, ao contrário de outros brasileiros, como Eduardo da Silva e o meia Sammir, ele nunca teve chances na seleção, já que disputada posição contra um dos maiores ídolos da história do futebol croata.
"Eu me naturalizei, mas nunca fui chamado pela seleção porque o lateral-direito titular era o Srna, que também era o capitão. Além disso, o treinador da época era de Split, e nunca me chamaria, por causa da rivalidade com o Dínamo", apontou.
O baiano atuou por quase seis temporadas em Zagreb antes de passar por PAOK, da Grécia, e Baku FK, do Azerbaijão, e decidir pendurar as chuteiras.
"No fim da carreira, eu estava cansado e resolvi aposentar depois de fazer um tratamento. Estava muito cansado, porque tinha corrido demais a vida inteira e precisava me recuperar. Eu ainda ia jogar pelo Lokomotiv da Croácia, mas não consegui me adaptar bem e optei por parar", disse.
"Voltei ao Brasil com a família e ficamos um ano morando na Bahia, mas depois voltamos para a Croácia. Hoje, eu e minha esposa temos uma loja de roupas de academia brasileira para mulheres. E eu tenho um projeto de futebol com crianças na Bahia, tem inclusive dois jovens que eu trouxe para cá e ficaram. Por fim, comeceu agora o curso de treinador na Croácia", contou.
Segundo Etto, crotas e brasileiros são muito parecidos no jeito de ser.
"O pessoal daqui tem o Brasil como segunda seleção, pelo nosso futebol e pela alegria que sempre teve. Até vi essa entrevista do Roy Keane e fiquei pensando... O Brasil é conhecido pelo quê? Carnaval, festa, futebol... O cara quer mudar a nossa cultura por causa do que ele pensa? Cada um comemora os gols da forma que quer, oras. Não tem desrespeito. Fica procurando picuinha para falar dos outros?", questionou.
O baiano tem cinco filhos, todos nascidos na Croácia, e admite que ficará com o coração um pouco dividido na hora do jogo contra o Brasil nas quartas da Copa.
"Todos os rádios e jornais da Croácia me ligaram para falar sobre esse jogo. O Brasil é um dos maiores favoritos da Copa, e me perguntaram muito para quem vou torcer e como fica meu coração. Meus cinco filhos nasceram na Croácia, mas os meninos torcem pelo Brasil, inclusive tem um que joga na base do Dínamo. Eles adoram o Neymar", relatou.
"Acho que o fato deles estarem longe do Brasil aumentou a paixão deles pelo país. Se o Brasil passar é bom, mas acho que se a Croácia passar eles também vão curtir, porque são croatas de nascimento", seguiu.
"É claro que eu torço para o Brasil, por ser minha raiz. Preferia até que esse duelo fosse a final (risos)... Tenho muito tempo aqui de Croácia, criei raízes aqui e os torcedores todos me respeitam e gostam de mim. Sempre me trataram como se eu fosse daqui. Eu fico dividido, mas, no final, acabo puxando para o Brasil", finalizou.
