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Por que a Fifa vetou a braçadeira OneLove na Copa do Mundo e como o caso ainda pode gerar debate; veja os bastidores

Braçadeira ''One Love'' foi proibida pela Fifa de ser usada na Copa do Mundo do Qatar Piaras Ó Mídheach/Sportsfile via Getty Images

ESPN detalha o passo a passo dos debates que resultaram no veto da Fifa à braçadeira OneLove durante a rodada de abertura da Copa do Mundo no Qatar


Antes da Copa do Mundo, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, aconselhou as 32 seleções com destino ao Qatar a 'deixar o futebol ocupar o centro dos holofotes' e 'focar no esporte'. Mas apenas alguns dias depois do início do torneio, esse desejo não foi exatamente atendido.

Primeiro, houve a proibição de última hora da comercialização de do álcool dentro e ao redor dos estádios. Então, as dezenas de lugares desocupados no estádio que sediou a abertura do Mundial, quando o Qatar, país anfitrião, perdeu por 2 a 0 para o Equador.

Na segunda-feira, uma intensa disputa entre a Fifa e sete seleções europeias terminou com os países abandonando os planos de seus capitães usarem uma braçadeira anti-discriminação especial no último minuto.

Pouco mais de três horas antes de a Inglaterra jogar contra o Irã, na estreia do grupo B, sete seleções (Inglaterra, País de Gales, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca e Suíça) emitiram um comunicado conjunto confirmando que não usariam a braçadeira OneLove depois de saber que cada capitão receberia um cartão amarelo no início do jogo.

A Fifa insistiu que a sanção do cartão amarelo foi comunicada como possível consequência há 48 horas.

Mas independentemente do que se possa dizer, um torneio atolado em polêmica por anos na preparação continua sendo ofuscado por problemas fora do campo, mesmo após o início das partidas.

O que é a braçadeira OneLove?

Em meio à preocupação sobre direitos humanos do Qatar, vários países europeus debateram sobre se um acordo poderia ser encontrado para um gesto coletivo durante as partidas.

Lideradas pela Associação Holandesa de Futebol (KNVB), fontes disseram à ESPN que dez nações estavam em contato (Noruega, Suécia e França além das sete mencionadas acima).

Em setembro, nove nações (sem a França) anunciaram a criação da braçadeira OneLove, projetada para 'usar o poder do futebol para promover a inclusão e enviar uma mensagem contra a discriminação de qualquer tipo, enquanto os olhos do mundo se voltam ao futebol', como anunciado à imprensa na época.

Em resposta, a Uefa confirmou em comunicado que 'apoia totalmente' a campanha OneLove.

A Uefa tende a rejeitar qualquer coisa dos países membros que possa ser interpretada como uma declaração política. Significativamente, essa rápida aprovação indicou que não houve discussões detalhadas sobre possíveis repercussões quando esse mesmo plano foi aplicado à Copa do Mundo, um torneio organizado por Fifa.

Fontes disseram à ESPN que os regulamentos para uma Eurocopa, por exemplo, são bastante amplos e a Uefa teria fornecido orientação sobre questões relacionadas a uso de 'equipamento especial', que é como as braçadeiras são classificadas.

Por que isso foi um problema na Copa do Mundo?

O Comitê Supremo do Qatar e a Fifa insistiram repetidamente que 'todos são bem-vindos' em meio a preocupações com o tratamento de pessoas LGBTQIA+. As relações entre pessoas do mesmo sexo são ilegais no país e, em alguns casos, puníveis com a morte, tornando o uso de uma braçadeira de arco-íris um assunto extremamente delicado.

A explicação do KNVB de como as cores do coração OneLove foram decididas: vermelho/preto/verde eram para todos, independentemente de origem, e rosa/amarelo/azul foram usados para refletir todos os gêneros e identidades sexuais.

As sete nações envolvidas que se classificaram para o Qatar (Noruega e Suécia ficaram fora) deixaram claro muito antes do torneio que planejavam usar a braçadeira no Qatar, e parecia que a única consequência era uma multa da Fifa que as federações indicaram que estavam dispostas a pagar.

No entanto, quando as equipes chegaram ao Qatar, começaram a circular rumores da possível sanção de cartão amarelo para todos os capitães. Assim corriam os boatos, se optassem por usar a braçadeira, entrariam em campo para o início do jogo e, no apito inicial, receberiam o cartão amarelo. A Fifa não confirmou publicamente o fato até o início da manhã de segunda-feira, apesar dos repetidos pedidos de comentários, o que deixou pouco tempo para discussão entre as nações participantes.

O goleiro alemão Manuel Neuer, cuja posição em campo torna o risco de um cartão amarelo mínimo, insistiu que usaria a braçadeira de qualquer forma.

No domingo, o capitão da seleção holandesa, Virgil van Dijk, estava menos entusiasmado em discutir a situação mais uma vez, mas reiterou seu apoio. O técnico da Inglaterra, Gareth Southgate, acreditava em particular que a questão estava resolvida e, algumas horas depois, Harry Kane confirmou sua intenção de usar a braçadeira.

Fontes disseram à ESPN que a federação inglesa estava em diálogo constante com a Fifa, mas não houve menção sobre Kane poder ser punido pelo adereço até a noite de domingo. Assim, quando as conversas continuaram na manhã de segunda-feira, a Fifa confirmou que capitães seriam sancionados.

Ficou claro que a punição esportiva era um risco muito grande.

Em teoria, cada capitão pode ser suspenso duas vezes durante a Copa do Mundo se receber cartão amarelo em todas as sete partidas, e isso sem considerar a óbvia corda bamba disciplinar que estariam nos jogos para evitar cometer outra infração passível de amarelo.

Pelas regras da Fifa, um jogador com cartão amarelo nas duas primeiras partidas da fase de grupos perderia o terceiro jogo da chave. Ele então estaria qualificado para retornar para as oitavas de final, mas cartões amarelos nessa fase e nas quartas de final significariam que um jogador perderia a semifinal (se seu time avançasse), preparando o terreno para seu retorno na final.

O que isso significa para o resto do torneio e o cenário atual?

A reviravolta de segunda-feira serve apenas para aumentar suspeitas persistentes de que a Fifa e o Qatar só estão dispostos a promover a diversidade e a inclusão se for em seus termos. Apenas um dia antes do torneio, a entidade anunciou sua própria versão de braçadeiras em uma campanha 'Sem discriminação'. Na segunda-feira, também ordenaram que a Bélgica removesse a mensagem 'amor' da gola de suas camisas, sem espaço para discussão.

Várias nações não estão felizes. O chefe da federação alemã, Bernd Neuendorf, descreveu a ameaça da Fifa de sanções esportivas como uma 'demonstração de poder sem precedentes', uma visão que fontes sugerem ser refletida por várias entidades. No entanto, a Fifa insiste que essas nações não deveriam ter se surpreendido.

O Artigo 13.8.1 do Regulamento de Equipamentos da Fifa declara: “Para as Competições Finais da Fifa, o capitão de cada equipe deve usar a braçadeira de capitão fornecida pela Fifa”.

Um comunicado à imprensa acrescentou: “A Fifa é uma organização inclusiva que quer colocar o futebol em benefício da sociedade, apoiando causas boas e legítimas, mas isso deve ser feito dentro da estrutura dos regulamentos da competição que são conhecidos por todos”.

Independentemente disso, é outro problema fora do campo que destaca as tensões de longa data entre os valores típicos de uma Copa do Mundo e a cultura do Qatar. Em suas declarações conjuntas, as sete nações disseram: “Nossos jogadores e treinadores estão desapontados. Eles são fortes defensores da inclusão e mostrarão apoio de outras maneiras”.

Este caso pode não ter terminado ainda.