Quase negociado com o Inhulets, meia brasileiro Iago Siqueira viajaria a Kiev para atuar pelo clube ucraniano, mas tensão militar com a Rússia causou reviravolta
Um dos centros na Europa que mais recebe jogadores brasileiros, a Ucrânia vive dias tensos com a iminência de um conflito militar com a Rússia. Com cerca de 41 atletas atuando pelas divisões do futebol ucraniano, o país poderia ter mais um: Iago Siqueira. O meia tinha acordo para reforçar o Inhulets, e deveria ter viajado a Kiev na véspera da primeira investida russa.
Após um período de treinamentos com o elenco em Antalya, na Turquia, o brasileiro tinha um acerto encaminhado com a equipe ucraniana para reforçar o time na sequência da temporada.
Com a oportunidade em mãos, Iago seguiria para Portugal, país onde defendia o Alvarenga. A parada deveria ser rápida, apenas para resolver pendências e encaminhar a mudança para a Ucrânia. E foi assim que o meia se despediu daqueles que seriam seus novos companheiros e permaneceu na Turquia para acertar sua 'burocracia'.
Foi justamente após a chegada do elenco do Inhulets a Kiev que o exército russo avançou pela primeira vez contra solo ucraniano.
“Foram as 24h mais tensas da minha vida. Já estava praticamente tudo acertado, a parte contratual com o clube já estava tudo certo também. Eu precisava ir para Portugal assinar alguns papeis, até a parte da mudança mesmo. Tinha que acertar esses detalhes e depois iria para a Ucrânia. Eu vejo como um livramento mesmo. Se tivesse ido, eu ia estar naquela situação. Por coisa de um dia eu escapei daquela guerra”, disse Iago em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.
“Mas por outro lado estou triste, tenho amigos lá. Agora você vê todos esses brasileiros, não só jogadores, que vivem lá na Ucrânia com essa preocupação de voltar para casa”.
Iago seria o segundo brasileiro no elenco do Inhulets, que embarcou para a Ucrânia com outro jogador do país: o zagueiro William, que acertou com clube após deixar o Rukh Brest, da Bielorrússia.
“Tive contato com amigos. O clube, infelizmente, está em um hotel em Kiev mesmo. Não tenho uma noção se é muito perto dos ataques que foram feitos lá. Falei com um jogador que é muito meu amigo, um brasileiro. O clube está fornecendo todo o suporte para ele. Mas não se sabe o que vai acontecer. Eles estão nessa situação de esperar para ver o que vai ser”, disse Iago, que relembrou uma conversa com William sobre a situação na Ucrânia.
“Eu tive uma conversa antes com ele, a gente sabia dessa situação [chance de guerra]. E ele disse: 'Eu vou lá, a gente vê como está. Dependendo da situação, a gente volta'. Eles viajaram ontem. Na madrugada ele me contou que acordou assustado, todo mundo em pânico no hotel. Ele falou que foi bastante tenso. A gente sabia da situação da guerra, mas não sabia quando a situação ia se intensificar. Foi a primeira coisa que ele me falou: 'Eu vou, mas se estiver muito tenso eu pego minhas coisas e venho embora'. Mas infelizmente agora a situação está muito complicada, fronteiras e aeroportos fechados. Eu me coloco na situação deles, poderia estar lá. A gente sabe por cima, mas só quem está lá sabe do sofrimento. Me coloco no lugar do meu amigo”.
Aos 21 anos e defendendo o Alvarenga desde 2021, Iago está há três anos em Portugal. Uma transferência para o futebol ucraniano era visto pelo meia como uma grande oportunidade de estar em um centro com muitos brasileiros.
Mesmo admitindo que acompanhava a crescente tensão entre Ucrânia e Rússia, o brasileiro decidiu encarar o desafio por uma chance melhor na carreira.
“Na minha vida eu sempre fui um cara de coragem. Eu tenho 21 anos, mas na luta por algo bom, que no caso iria acontecer agora, faz muito tempo. Eu sabia de tudo isso, mas essa era uma oportunidade que eu estava procurando faz tempo. Estou há três anos em Portugal e apareceu essa oportunidade”
“O clube gostou de mim e fez um convite para passar um mês aqui com eles, fazer pré-temporada. Estava tudo praticamente certo do contrato. Eu sabia de tudo isso, mas vim na esperança de que iria dar tudo certo, que eu tinha que enfrentar esse problema e encarar a oportunidade. Poderia ser uma oportunidade muito boa para mim. Eu estou há muito tempo na luta, e às vezes a gente coloca as coisas na mão de Deus. Eu vejo isso com um livramento, mas ao mesmo tempo eu sinto muito pelas pessoas que estão envolvidas lá. Não só brasileiros como também os ucranianos. É difícil você estar no seu país e acontecer uma situação dessa”.
E agora?
Com a suspensão do Campeonato Ucraniano e o estado de lei marcial decretado por Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia (leis e autoridades civis estão suspensas. A partir de agora, passam a valer leis militares e as decisões são tomadas pelos chefes das Forças Armadas), a transferência de Iago para o Inhulets está cancelada.
O meia brasileiro retornará a Portugal e terminará a temporada com o Alvarenga, equipe que disputa a terceira divisão nacional. O Inhulets é o 14º colocado no Campeonato Ucraniano, que é liderado pelo Shakhtar Donetsk.
