Como as crises dos maiores clubes do país afetam a seleção da Espanha?
Os recentes problemas alarmantes que Barcelona e Real Madrid enfrentam, em termos nacionais e continentais, não são causados por situações que serão imediatamente resolvidas pelas demissões de Ronald Koeman ou Carlo Ancelotti.
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O Barcelona, entre os dois, é mais prejudicado por seu treinador. A equipe continua sendo de alto nível, capaz de competir por troféus nesta temporada, e a insistência de Koeman em jogar com formações e estilos de futebol que não se adequam aos atletas do clube não está ajudando.
Se Xavi, ou um substituto menos badalado como o português Paulo Sousa, caísse de paraquedas para assumir o clube ainda nesta semana, existem todas as chances de que uma perspectiva mais clara e firme sobre como jogar bem no 4-3-3 possa fazer uma diferença perceptível rapidamente. Mas o novo treinador não seria capaz de chegar à verdadeira origem do problema sem tempo, recursos e uma grande reformulação. Voltamos nesse ponto daqui a pouco.
O Real Madrid, de modo geral, está em melhor momento. Por mais preocupado que o presidente Florentino Pérez inevitavelmente esteja agora, não existem rumores sobre a saída de Ancelotti mesmo depois das consecutivas derrotas contra o Sherrif (quem poderia prever isso?) e Espanyol (apenas a segunda vitória em LaLiga sobre os merengues em 14 anos).
Mas o Real é afetado pelas mesmas deficiências sistemáticas que o Barcelona. São deficiências que podem, agora, se tornar um calcanhar de Aquiles para a seleção espanhola, que busca se vingar da derrota nas semifinais da Euro 2020 contra a Itália nesta quarta-feira (6), pela Nations League.
A questão preocupante é que a Espanha não consegue pressionar. O país que reinventou o futebol de pressão, de posicionamento, de troca de passes, não apenas corre o risco de ser ofuscado – ele corre o risco de ser superado.
Se você for um estudioso do futebol, vai entender que não há nada de novo sob o sol. Minha primeira ideia de pressão foi quando a Holanda, treinada por Rinus Michels, se empenhou em campo durante a Copa do Mundo de 1974, algo como 11 filhotes de cachorro de camisa laranja correndo atrás de uma bola de tênis.
Mesmo tendo um elenco cheio de jogadores absolutamente técnicos, capazes de trocar passes, finalizar e lutar por grandes conquistas, Michels fez com que eles se posicionassem na linha mais alta e com a pressão mais impressionante que eu já havia visto em minha juventude.
Pelo que parecia uma eternidade, as equipes então jogavam em grande parte no 4-4-2 ou 4-5-1, bem recuadas, rezando por um erro do adversário, um contra-ataque, uma boa jogada ou, o pior de tudo, um empate por 0 a 0. Era uma época terrível, em que qualquer coisa além de uma vitória por 1 a 0 era visto como algo para os ingênuos e idiotas.
Aos poucos, o Milan de Arrigo Sacchi, a Juventus de Marcello Lippi e o Ajax de Louis van Gaal nos devolveram o 4-3-3, nos devolveram a pressão. Eles nos devolveram a atitude de 'estamos vindo para jogar na sua metade do campo e, se você não for tecnicamente excelente e não pensar rapidamente, nós vamos simplesmente destruí-lo'. Foi sensacional.
Assim, pressionar seu adversário quando não estiver com a posse da bola e aumentar o campo com posicionamento ousado porque você troca passes, com precisão e emoção muito rapidamente, não foi inventado em 2008/09 por Pep Guardiola e pelo Barcelona. Mas consegue se lembrar do impacto? Você se lembra da maneira como jogadores de alto nível, como Andrés Iniesta, Xavi, Samuel Eto'o e Lionel Messi, pareciam controlar literalmente as partidas e vencer quando queriam?
Não satisfeitos em roubar a bola de seus adversários com uma pressão elevada que humilhava, eles deram um nome à tática: "a pressão de seis segundos". Nas raras ocasiões em que o Barcelona perdia a bola, o time aplicava muita pressão, facilitada pela insistência de Guardiola em que a equipe nunca perdesse a distância "correta" entre cada um de seus jogadores e entre cada linha do time.
Corretamente posicionados, eles não perdiam tempo para se agrupar nessas zonas de pressão. Eles investiam um máximo de seis segundos para atacar a posse dos adversários e tentar espantá-los ou testar suas decisões para que a bola fosse recuperada em lugares onde os rivais ficassem desordenados e em pânico.
Jogando assim, o Barça e a seleção da Espanha passaram a dominar o futebol europeu, que foi tomado com voracidade, agressividade e pelo sucesso do Real Madrid. Um domínio que, na verdade, está apenas diminuindo.
Na temporada 2020/21, o Villarreal venceu a Europa League e conseguiu um empate em 1 a 1 contra o Chelsea, campeão da Champions League, durante 120 minutos na Supercopa da Uefa. A Espanha terminou como semifinalista da Euro 2020, sendo derrotada nos pênaltis pela campeã Itália, ganhou a prata olímpica e também foi semifinalista da Euro na categoria sub-21.
Para alguns países, isso teria sido suficiente para uma semana de feriados nacionais, celebrações e o lançamento de uma moeda comemorativa. Não para a Espanha. Suas qualidades técnicas, suas estrelas, mas acima de tudo suas estratégias superiores – pressão, passes e excelência posicional – significam que desde 2008 os clubes de LaLiga e a seleção espanhola dominaram a arte de levantar troféus de forma implacável.
Desde a temporada 2008/09, clubes da Espanha venceram a Champions League sete vezes em nove finais disputadas. Na Europa League, foram oito conquistas com 100% de aproveitamento nas finais – o único espanhol a perder uma final foi o Athletic Bilbao, em 2011/12, para o conterrâneo Atlético de Madrid. Supercopa da Europa? Nove vitórias em 14 disputas. Nos sete campeonatos europeus sub-21 desde 2008, foram três títulos em quatro finais. Dos 13 Mundiais de Clubes desde 2008, os times espanhóis venceram sete deles.
Em algum lugar em meio a tudo isso, eu me lembro de entrevistar Gines Melendez, responsável pelo desenvolvimento geral da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) e de seus conceitos sólidos, sua capacidade de maximizar o talento e sua mentalidade vencedora. No dia seguinte, ele estava de folga para dar uma palestra no relativamente novo St. George's Park – sede do conselho do futebol inglês.
Eu perguntei a Gines: "me explique por que você vai compartilhar todo o seu conhecimento precioso e arduamente conquistado com um 'inimigo'". Ele me disse: "Porque é saudável garantir que a partilha de conhecimento melhore o futebol e, além disso, quando os ingleses alcançarem, teremos avançado em várias etapas novamente".
Ele estava errado.
Os dois principais clubes da Espanha, em termos europeus, são como o Rei Canuto tentando empurrar a maré para trás - enquanto ela desce a seus pés. Confiando em pura técnica, know-how e ainda em técnicas maravilhosas, eles ainda assim parecem lentos, muito pequenos, muito velhos ou muito jovens, pressionáveis, previsíveis e muito fáceis de superar. Também há sinais disso na seleção espanhola.
Vejam as derrotas recentes: Barcelona em casa para Juventus, contra o Paris Saint-Germain, Liverpool, Bayern de Munique... Em Lisboa contra o Bayern; Real Madrid contra o Sherrif, em Londres contra o Chelsea, em casa e fora contra o Manchester City; a primeira derrota de La Roja nas eliminatórias para a Copa do Mundo em 28 anos!
Existem mais, e eu teria que incluir as dolorosas e pesadas derrotas do Atlético de Madrid para o Chelsea na última temporada, além da derrota do Real Sociedad para o Manchester United em fevereiro.
Os fatores são inúmeros. Os rivais são mais rápidos, mais altos, correm mais, pressionam melhor e passam a bola mais rapidamente. Foi o que aconteceu frequentemente quando a Espanha, clube ou país, enfrentou o norte da Europa.
O que aconteceu nas duas últimas temporadas é que a capacidade do futebol espanhol de passar, majestosamente, pelo futebol ‘citius, altius, fortius’ (‘mais rápido, mais alto, mais forte’), que sempre enfrentaram durante esta era dourada, diminuiu. Agora, na maioria dos casos, o futebol espanhol não consegue superar seus rivais; eles lutam para jogar com a mesma coordenação, uma agressividade precisa e, muitas vezes, trabalhando a jogada mais lentamente uma vez que ela é recuperada de qualquer maneira.
Enquanto isso, o futebol inglês, em particular, misturou muitas influências.
A enxurrada inicial de jogadores brilhantes, que iam para o exterior até o fim de suas carreiras, se tornou uma coleta habitual de jovens talentosos do continente quando estão no final da adolescência ou próximo aos 20 anos de idade. As crianças inglesas estão constantemente passando por categorias de base melhor treinadas e acostumadas a dietas e reabilitação muito melhores – uma poderosa mistura da marca de futebol do Reino Unido, que sempre foi ‘We go to war’ (‘Vamos para a guerra’), com a técnica, estratégia e inteligência às quais eles cresceram assistindo quando os times espanhóis passavam na televisão.
Agora existe uma geração dos melhores treinadores transmitindo suas ideias e táticas, compartilhando sua ciência e garantindo que o futebol inglês seja um híbrido: o melhor da Inglaterra e o melhor deles. É empolgante e intoxicante.
O futebol espanhol continua a produzir grandeza - ou pelo menos forma grandes jogadores - mas agora, com muita frequência, eles são jovens. O futebol italiano pegou Brahim Díaz, Pablo Rodríguez e Fabian Ruiz; o futebol inglês, para citar apenas alguns dos mais importantes, pegou Sergio Reguilón, Bryan Gil, Ferran Torres, Pablo Fornals e Robert Sánchez antes de qualquer um deles ter conseguido alguma relevância em seu país de origem; a Alemanha tem Dani Olmo, Mateu Morey e Marc Roca. Estas são tendências observadas em toda a Europa.
De volta a LaLiga, podemos celebrar o surgimento de Ansu Fati, Pedri, Gavi, Nico, Daniel Vivian, Oihan Sancet, Unai Vencedor, Antonio Blanco, Miguel Gutierrez e Martín Zubimendi. Estes são jovens que estão mais do que bem. Mas, ao contrário de Sergio Ramos, Xabi Alonso, Sergio Busquets, Carles Puyol, David Silva, David Villa e Fernando Torres – além de Xavi e Iniesta – estes jovens estão ingressando no futebol espanhol em um momento em que é necessária uma grande reestruturação.
Os times do país precisam recuperar o status de perigosos no futebol com posicionamento preciso e ‘segurando a bola’, tirando o ímpeto de adversários mais rápidos, altos e agressivos, ou, como Sevilla, Villarreal e Atlético de Madrid, apontar para um híbrido de inteligência e técnica misturada com defesa ultra rigorosa em todo o campo.
Quanto à seleção, ela se encontra em um momento de reconstrução.
As lesões tiraram a Espanha de uma posição em que era temida por vários que teriam começado no San Siro contra a Itália, mas eles são treinados por um homem que é um crente total e absoluto em todas as filosofias que foram centrais para os últimos 13 anos de sucesso: passes, pressão, futebol posicional e tentativa ser o protagonista de cada partida disputada.
A Itália, em Milão, pode ser um time muito melhor que a seleção espanhola neste momento – veremos. Mas com Luis Enrique, que é um dos poucos que não perdeu de vista o que fez de La Roja uma potência dominante do futebol mundial nos últimos 13 anos.
