Um dos trabalhos que mais chamou a atenção no futebol brasileiro em 2021 foi o de António Oliveira no Athletico-PR. Depois de um início de sucesso no Campeonato Brasileiro e atingir as semifinais da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana, o português colocou seu nome no mapa de treinadores do país.
Aos 38 anos, foi o treinador mais novo da elite brasileira na temporada e se destacou por seu estilo de jogo ofensivo, algo que ele não abre mão, segundo dito pelo próprio em entrevista ao ESPN.com.br.
“Há uma característica que eu gosto muito em minhas equipes que é as que gostam de ter a bola, gostam de jogar, que propõe o jogo. E gosto, evidentemente, de lidar com jogadores que me deem esse talento. Isso é inegociável para mim, apesar de ser evidente que gosto de equipes competitivas, que, independentemente das circunstâncias, joguem sempre para ganhar”, disse.
Agora sem clube, o treinador tem aproveitado para assistir o máximo de futebol que pode, com destaque para os trabalhos de outros portugueses em grandes ligas da Europa.
“Eu passo meus dias, praticamente todos, a não ser quando levo meus filhos à escola ou ao treino de futebol, vendo jogos de futebol. Como eu disse até na minha apresentação, tenho duas paixões, minha família e o futebol. Se meus filhos estão na escola, vejo o futebol. Agora, vejo com mais atenção por ter mais tempo a liga portuguesa, jogos dos treinadores portugueses das cinco grandes ligas”, revelou.
O comandante, porém, não larga mão de seguir acompanhando o Brasileirão. “É um campeonato em que a densidade competitiva que se gera, torna mais desafiante. Muitas das vezes, gostaria que houvesse mais qualidade no jogo. Porque o pouco tempo de trabalho gera essa ausência, muitas vezes, de qualidade. É desafiante, é muito agressivo esse calendário mas não há coisas difíceis, há desafiantes. E é por isso que eu aceitei, porque se fosse fácil não era para a gente”, completou.
A saída do Athletico
No último mês de setembro, após a eliminação no Campeonato Paranaense e com uma série de desfalques em seu time, António pediu demissão do Athletico-PR, mesmo com o sucesso ao longo da temporada, surpreendendo a muitas pessoas. O motivo, porém, foi além das quatro linhas.
“Há um conjunto de fatores e razões que motivaram que acontecesse. Mas eu prefiro olhar mais para os aspectos positivos e levar isso como um aprendizado para vitórias futuras. É evidente que no futebol não existem ambientes perfeitos. Mas existem, na minha opinião, limites para tudo. Foi nessa perspectiva que eu decidi tomar essa opção. Foi uma decisão pensada, ainda havia uma temporada a terminar, e eu queria terminar. Mas foram razões fortes para eu tomar essa iniciativa”.
A relação com os atletas
Um dos pontos de destaque do trabalho de António no Athletico foi sua boa relação com os jogadores, que elogiavam a forma que o português os tratava de igual para igual. Para ele, o respeito e a honestidade são os pilares para essa relação saudável.
“Acima de tudo, era sempre de muito respeito, de grande honestidade. Não consigo esconder aquilo que sou, não consigo mascarar. Muitas vezes, nós percebemos que o treinador é um ator. Mas eu não consigo esconder minhas emoções e meus sentimentos. Digo aquilo que penso e, acima de tudo, olha para eles como um ser humano que tem uma família e que, muitas vezes transporta o que vem de fora para dentro”.
“Um treinador é, muitas vezes, além daquilo que ocorre nos treinos, um gestor de recursos humanos dos próprios jogadores, porque são eles que representam aquilo que nós queremos, mas que precisam ter um equilíbrio emocional muito forte para poderem jogar da forma que nós queremos. Portanto, acima de tudo, aquilo que me releva mais é o respeito que tínhamos. Existia sempre uma liberdade, eles sabem que eu gosto de brincar, mas existe também o momento da responsabilidade. Porque não consigo criar uma barreira enorme entre mim e os jogadores”, avaliou.
Brincadeira do pai
António Oliveira é filho de Toni, ex-jogador e ídolo do Benfica, que também foi seu ‘colega’ como treinador, enquanto ele atuava como seu assistente. Perguntado se o pai fazia algum tipo de aconselhamento a ele, o técnico revelou que ele não via seus jogos por tensão.
“É normal que isso aconteça. Pai é pai, vai defender sempre os filhos, assim como eu defendo os meus. E é evidente que alguém que é tão intitulado como o meu pai e é meu eterno amigo e conselheiro, nunca taparei meus ouvidos a algo que ele diga, porque a experiência também é um posto”, disse.
“E ele sofre mais agora com meus jogos do que no tempo em que era treinador. Ele nem via os meus jogos, ele saía de casa e só voltava no final do jogo. Nunca me passou na cabeça que lhe acontecesse esse tipo de comportamento. Pai sofre”, completou.
O sucesso dos treinadores portugueses
O futuro de António Oliveira
Agora sem clube, António se prepara para voltar a trabalhar em 2022. O treinador português deseja um clube que lhe dê condições de se sagrar campeão, algo que ele tinha se desafiado a fazer quando assumiu o Athletico. E ele não descarta um retorno ao Brasil.
“Foi uma das situações que se especulou na minha saída, que eu tinha alguma coisa melhor ou queria ir para a Europa, o que me motivou a sair não tinha nada a ver com projetos. Um dos meus objetivos eram terminar essa temporada, mas havia limites. Há um conjunto de situações possíveis e uma delas é, com todo prazer, retornar ao Brasil. É evidente que gostei do país, das pessoas. As pessoas me receberam muito bem, tratam muito bem a mim e a minha família. O campeonato é difícil, uma competitividade difícil, um calendário e um contexto difícil. Mais do que difícil, para mim, há coisas desafiantes”, afirmou.
“É o que me motiva. Acima de tudo, o que me motiva mais era aquilo que me motivou quando cheguei ao Athletico com 16 pontos e, na minha apresentação aos jogadores, disse que vinha para ganhar títulos. E, naquela perspectiva, acharam que eu era maluco. E, hoje, vivemos uma realidade em que estamos, talvez, a um mês de um título. Nessa perspectiva que eu quero voltar ao Brasil e terminar aquilo que me propus, que é ganhar títulos. Tenho essa ambição, muitas vezes, escondida, mas eu acredito muito no meu trabalho e nas pessoas que me acompanham”, finalizou.
