No dia 13 de outubro de 2005, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro, um clássico Santos x Corinthians na Vila Belmiro terminou em uma enorme confusão. Após a vitória do Timão por 3 a 2, com direito a pênalti polêmico, a arbitragem comandada por Cléber Wellington Abade teve de sair de campo e voltar para São Paulo escoltada pela polícia militar.
Isso tudo por causa de um pênalti marcado por Abade, de Zé Elias em Nilmar, aos 41 minutos do segundo tempo, com placar empatado em 2 a 2. Carlos Alberto cobrou e marcou o gol da vitória, o que fez a torcida da casa invadir o campo e o vestiário da arbitragem.
Um dos membros da equipe de arbitragem da partida, uma das 11 remarcadas por desdobramentos da chamada "Máfia do Apito", o ex-juiz Rodrigo Braghetto relatou os momentos de tensão vividos na Vila Belmiro. "Eu falei: 'os caras vão matar a gente aqui hoje. Ferrou'", relatou Braghetto ao canal Peleja.
"Quando o Abade acaba o jogo, ali onde são os vestiários já pulam três. A gente tem um sinal... Quando o árbitro quer chamar o policiamento, a gente faz tipo uma manivela (com o braço) e os policiais com os escudos correm para o meio-campo. E a gente tem que se aglomerar".
"Eu queria correr para o vestiário, eu não queria correr para o meio. Eu estou vendo, pularam três no fundo, quatro do outro lado, eu falei 'os caras vão matar a gente aqui hoje. Ferrou', recordou o ex-árbitro.
Braghetto relatou uma tentativa de agressão de um torcedor com uma voadora em direção à equipe de arbitragem, mas que não acabou bem.
"Um cara deu uma voadora tipo Matrix, veio correndo e ia pegar nas costas do Abade ou em mim. Eu só empurrei o abade para frente, fui para trás e o cara passou. Quando o cara caiu no chão, tinha um policial que parecia o (Evander) Holyfield. Pegou o cara no chão e porrada, cacetete".
Ele também afirmou que a equipe de arbitragem não pôde ir ao vestiário, que acabou invadido pela torcida.
"Já com tudo um pouco mais calmo, os policiais nem nos levam para o nosso vestiário porque ali a torcida estava quebrando tudo. Nos levam para o túnel do Corinthians. Arrombaram a portinha do nosso vestiário e acabaram com tudo nosso. O árbitro ia de terno e gravata, rasgaram nossos ternos. Pegaram nossos negócios e enfiaram na privada. Acabaram com tudo".
Mesmo após o apito final e com o público na Vila Belmiro já contido, a volta para São Paulo foi um problema.
"O chefe do policiamento falou 'vocês estão com motorista, não é? Vocês não vão poder ir embora sozinhos porque os caras estão ameaçando pegar vocês na Anchieta ou na Imigrantes'. Aí a gente sobe na van do Choque, com dois caras com uma 12 de cada lado, e nem vai no vestiário para pegar as coisas".
A partida em questão foi uma das 11 anuladas por conta da 'Máfia do Apito', esquema de manipulação de resultados no Campeonato Brasileiro de 2005. No jogo original, apitado pelo ex-árbitro Edilson Pereira de Carvalho, o Santos havia vencido por 4 a 2. A repetição do jogo irritou os santistas antes mesmo de a bola rolar.
Naquele ano, o Corinthians de Carlitos Tévez e Nilmar foi campeão brasileiro com 81 pontos, três de vantagem para o vice-líder Internacional. O Santos foi o 10º colocado com 59 pontos.
