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O dia em que Flamengo e Vasco pararam para aplaudir Pelé e 'Os Trapalhões' no Maracanã

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Diante de 121 mil pessoas no Maracanã, o dia em que o Rei do Futebol viveu Nascimento, misto de jornalista e goleiro, no intervalo de Flamengo x Vasco para gravar um filme com Os Trapalhões


Palco de grandes jogos, casa de shows e até local de demonstração de fé, o Maracanã também teve um dia de circo na sua história. Foi em 1986, quando recebeu “Os Trapalhões”, então o grupo de humor de maior sucesso no país, para gravar um novo filme.

Ao lado deles, estava o melhor jogador de todos os tempos: Pelé, morto nesta quinta-feira (29), aos 82 anos, em decorrência de complicações de um câncer que teve origem no cólon (parte do intestino grosso) e se espalhou em metástase por fígado, um dos pulmões e restante do intestino.

No “Maior do Mundo”, eles filmaram algumas cenas de "Os Trapalhões e o Rei do Futebol" diante de 121 mil pessoas, que acompanhavam naquele 20 de abril um confronto entre Flamengo e Vasco da Gama na final da Taça Guanabara. O longa estrearia nos cinemas brasileiros dois meses depois, em 26 de junho.

"Ainda era o Maracanã antigo, tinha a geral... Aquilo estava abarrotado de vascaínos e flamenguistas. Então, anunciaram no luminoso: 'Atenção torcedor: no intervalo vamos gravar uma pequena parte do novo filme de 'Os Trapalhões' com Pelé'. O intervalo foi até um pouco mais longo, uns 20 minutos. Quando entramos em campo foi aquele delírio", relembrou o humorista Renato Aragão, 87, por telefone, ao ESPN.com.br, em 2016.

No longa, o líder de Os Trapalhões e famoso pelo personagem Didi interpreta um roupeiro humilde, cujo nome é Cardeal. Ele acaba sendo nomeado contra a própria vontade técnico interino do Independência, o time dos “mocinhos”.

Já Pelé faz um jornalista esportivo, cujo nome é uma das piadas do roteiro: Nascimento (o nome real do ex-jogador é Edson Arantes do Nascimento). Apesar de ser repórter, ele acaba quebrando um galho como o goleiro da equipe na partida decisiva.

"Foi uma experiência muito boa filmar ao lado d’Os Trapalhões porque, apesar de ter feito vários filmes, foi o primeiro filme cômico que participei na minha vida. Minha inspiração [para fazer o papel de jornalista] foi o Nelson Rodrigues, um grande fã do futebol. Foi ótimo", declarou Pelé, então com 75 anos, especialmente para a reportagem.

A sequência gravada no Maracanã corresponde ao final do filme e foi feita aproveitando as torcidas de Flamengo e Vasco como pano de fundo. Além deles, havia cerca de 3.500 figurantes, segundo consta no livro "O Cinema dos Trapalhões por quem fez e por quem viu" (do autor Rafael Spaca, lançado pela editora Laços).

"Os torcedores aplaudiram muito a nossa entrada no campo. Eles nem queriam saber se eu era vascaíno, flamenguista ou qualquer outra coisa. Eles queriam ver Os Trapalhões e o Rei do Futebol. Foi muito emocionante. Para mim foi uma realização pessoal: entrar no Maracanã lotado ao lado do Pelé", disse Aragão.

Apesar de o humorista afirmar que a gravação ocorreu no intervalo do duelo, uma reportagem da revista "Placar" em abril daquele ano dizia que as filmagens foram feitas durante a preliminar entre Vasco e Flamengo, com muita festa.

Já na partida fictícia o Independência está perdendo por 3 a 0 para o Gavião a dez minutos do fim, com um jogador expulso e tendo de virar o placar. É neste momento que Cardeal deixa o posto de técnico e ingressa em campo como atacante ao lado de Nascimento, que assume como goleiro. Ambos pisam no gramado juntos, subindo os antigos túneis dos vestiários do Maracanã, com a torcida do Vasco ao fundo.

Para aumentar a “tensão”, Cardeal acaba marcando um gol contra assim que entra no jogo. "Nem me lembrava disso", disse Aragão, aos risos. Depois marca quatro vezes, empatando o duelo e deixando para Nascimento fazer o gol da vitória.

"Tinham jogadas engraçadas. Lembro que eu batia um escanteio que eu mesmo faço o gol. Tem outra que o Pelé defende um pênalti, ele era o goleiro, não é? Na emoção, fui dar um abraço nele e peguei a bola das mãos dele. Aí ele fala 'Não, Cardeal, não pega a bola, não'. E o juiz dá pênalti de novo", relembrou Aragão. "Depois eu sei que ele faz um gol de tiro de meta. Nossa Senhora, aquilo foi muito bonito".

"Para mim foi maravilhoso voltar ao Maracanã com todo aquele público presente, sem ter a responsabilidade de fazer um gol ou ganhar uma partida", disse Pelé.

Se na ficção o time de Cardeal e Nascimento é campeão de maneira surreal com uma virada por 5 a 4, na realidade o vencedor na Taça Guanabara foi o Vasco, que na época tinha os jovens Romário e Mazinho, além do já veterano Roberto Dinamite. O Flamengo, por sua vez, contava com Andrade, Jorginho e Bebeto.


Pelé e peladas

Com uma longa cinematografia, Renato Aragão foi o dono da ideia de fazer um filme d’Os Trapalhões atrelado ao futebol. Garantiu que o projeto nada teve a ver com a Copa do Mundo do México, realizada naquele mês, na qual a equipe de Telê Santana foi eliminada pela França nas quartas de final em uma melancólica decisão por pênaltis.

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"O futebol é uma paixão nacional. Eu acho que o futebol mexe com todas as idades e não tem classe social. Vamos fazer uma pelada e vão jogar todos. Aí todos se nivelam. Não tem rico nem pobre nem branco nem preto. Entendeu? Futebol é uma atração nacional. Por isso futebol é bom [tema para um filme]", disse Aragão.

O primeiro passo dado por ele foi contratar o experiente diretor Carlos Manga para comandar o longa. Famoso por dirigir diversas “chanchadas” com Oscarito, Grande Otelo, José Lewgoy (que participa do filme de 1986), ele estava afastado há 11 anos das telonas e vinha se dedicando à televisão. Mas topou a missão. O passo seguinte foi batalhar para incluir Pelé no filme, missão dada para Manga.

"Um filme sobre futebol só poderia ter como ator principal o Pelé. Foi difícil. Pelé estava em um vai e vem. Como vamos conseguir? Eu disse para o Manga: 'Você é o rei disso, é um grande conquistador. Então, você vai trazer o Pelé para a gente fazer o filme. Vamos fazer um filme para arrasar'. O Manga ficou em pânico, mas fez esse filme com muito carinho e com muita vontade. E conseguiu o Pelé", disse Aragão.

Além de protagonista, o Rei do Futebol também foi produtor do longa por meio da empresa Pelé-Saad Comunicações e Empreendimentos ao lado da RA Produções.

"O Pelé vinha filmar naqueles períodos que podia. Filmava em duas semanas, depois saía para os compromissos dele. Depois voltava. Fazia tudo sem dormir. Eu nunca vi um profissional tão perfeito como Pelé. Ele chegava zero de sono. A gente arranjava um camarim para ele, onde a gente estivesse, e ele descansava um pouco. Gravava, filmava. Fiquei ainda mais admirador do Pelé", declarou Renato Aragão.

Aos 45 anos e a nove aposentado do futebol, Pelé tinha um grande status e era o brasileiro mais famoso no mundo. Mesmo assim o ex-camisa 10 do Santos e da seleção brasileira impressionou seus colegas de filmagem pela humildade.

"Uma recordação maravilhosa que tenho daquela gravação é a convivência com a simplicidade do Pelé. Uma pessoa muito simples, demais. Lembro que ele não exigia nada. Tinha um trailer só para ele, mas ele nem usava. Fazia questão de ficar com a gente. Um ídolo", relembrou Dedé, 80, por telefone, à ESPN.

Apesar de mais reservado, os dois “trapalhões” recordaram que o Rei do Futebol costumava contar histórias da época em que foi jogador, de 1956 a 1977.

"Fomos gravar a primeira parte do filme no Maracanã sem público. A gente jogava de um lado, onde a câmera batesse. No intervalo [das gravações], a gente sentava no gramado e perguntava para o Pelé curiosidades de fã. E ele falava: 'Renato, nós estamos sentados aqui [a gente estava fora da área, pra lá da meia lua] e eu chutava daqui, eu e o Gérson, mas a gente não chutava para dentro do gol. A gente chutava na baliza, para acertar ela em cima'. Ele me disse que tanto ele como o Gérson eram os únicos que não erravam uma única vez. Eu dizia para ele: 'Poxa, se eu fosse chutar daqui, eu levaria três anos para acertar naquela baliza ali' [risos]. Ele era descontraído, mas muito fechado. Não se abria muito, não. A gente que perguntava."

Também era comum rolarem partidas de futebol entre a equipe de filmagem e os atores/humoristas do filme após as gravações independentemente das locações usadas, que incluíram destinos como Guaratiba, Barra da Tijuca, Floresta Country Clube, Marapendi e o clube social do Vasco. Tanto Renato Aragão como o Rei do Futebol eram figuras presentes nesses duelos amistosos.

"O Renato Aragão sempre foi muito fã de futebol. Jogava muito bem, era bom de bola mesmo. Acho que ele até jogou em um clube do Ceará na juventude. Eu não jogava porque estava machucado. Uma curiosidade é que ele não usou dublês no filme nem na cena em que ele faz um gol de bicicleta no Maracanã", assegurou Dedé.


Críticas ao futebol

Apesar de ser um filme de humor, “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” satiriza algumas situações do mundo da bola, como por exemplo os dirigentes gananciosos.

A ideia de nomear Cardeal (Aragão) como técnico do Independência surge após o presidente interino do time assumir. Ele decide escolher alguém pouco capacitado para o cargo para evitar que o time tenha sucesso, inibindo assim o retorno do antecessor.

O jornalista Nascimento é um dos que se opõe ao mandatário interino. Chega a declarar apoio a Cardeal como técnico e até sugere que o roupeiro vire o presidente se o Independência for campeão. Em uma das cenas, ele recebe por telefone uma oferta de suborno de um dirigente do Independência para “pegar leve” nas críticas. Recusa e estampa como manchete do jornal a seguinte frase: "Vamos acabar com a corrupção".

"Os meus filmes tocavam o dedo na ferida, mas muito leve. Eu dava uma pincelada no assunto e saia fora dele. Não esfregava na cara aquele problema, não. Foi assim na Serra Pelada ['Os Trapalhões na Serra Pelada']. Eu queria levar mais entretenimento ao público", explicou para a reportagem Renato Aragão.

O filme levou oito semanas para ser finalizado. Lançado em 26 de junho de 1986, o longo ainda trazia a modelo Luiza Brunet, aos 24 anos, como “mocinha” e atraiu 3.616.696 expectadores, sendo a 31ª maior bilheteria nacional e a 15ª maior de toda a filmografia de 'Os Trapalhões'.


Algumas frases do filme

"Presidente tem de ser eleito. O senhor foi nomeado. Para mim não está com nada!"

Frase do jornalista Nascimento [Pelé] ao presidente interino do Independência

[Quer dizer que a imprensa vai me negar apoio?]. Eu não posso falar pela imprensa. Mas quanto a mim eu não lhe dou apoio nenhum!"

Frase do jornalista Nascimento [Pelé] ao presidente interino do Independência

"O senhor não é o presidente interino do clube? Se vira. O próximo jogo é domingo, não é?"

Frase do jornalista Nascimento [Pelé] ao presidente interino do Independência após ele demitir o técnico e consultar quem deveria nomear para o cargo

"Vamos acabar com a corrupção"

Nascimento escreve isso para o jornal que trabalha após uma oferta de suborno

"Brasileiro é assim mesmo. Gosta de levar vantagem em tudo, certo?"

Cardeal após ser acertado por uma pedrada por um menino de quem acabara de tomar o estilingue (a frase brinca uma propaganda de cigarro feita pelo ex-jogador Gérson)

"Cardeal, você fez o gol que Pelé não fez"

Nascimento diz isso para Cardeal, que marcou um gol do meio de campo


*Publicada originalmente em junho de 2016