<
>

Italiano: Por que Napoli resolveu fabricar seus próprios uniformes em parceria com grife Armani?

Neste domingo, o Napoli faz sua estreia na nova temporada do Campeonato Italiano contra o Venezia, às 15h45 (de Brasília), no estádio Diego Armando Maradona, em Nápoles.

Além do novo técnico, Luciano Spalletti, o tradicional clube do sul da Itália tem outra grande novidade para 2021/22: seus uniformes.

Com o fim do contrato da Kappa, que foi fornecedora do Napoli por muitos anos, a diretoria da equipe celeste resolveu inovar e buscar uma alternativa que coloque mais dinheiro no caixa.

Ao invés de ir ao mercado a procurar um novo fornecedor, foi decidido que o clube passaria a fabricar seus próprios uniformes, cuidando também da rede de distribuição e vendas (atualmente feita através da Amazon).

O desenho das peças, por sua vez, ficou a cargo do estilista Giorgio Armani e da EA7, uma das subdivisões do império de uma das mais famosas grifes do mundo da moda.

O popstar ficou responsável tanto pelo design dos uniformes quanto dos outros itens do enxoval, como casacos, gorros e bonés, além das vestimentas formais de viagem.

As novas camisas foram lançadas na última quinta e ficaram assim:

Inicialmente, a parceria entre Napoli e EA7 será válida apenas para a temporada 2021/22.

Dependendo dos resultados, o presidente Aurelio De Laurentiis optará por renovar ou voltará aos "velhos tempos" e buscará um fornecedor a partir de 2022/23.

Vale ressaltar, porém, que Giorgio Armani não é novato no mundo da moda esportiva.

Afinal, o estilista é o responsável pelo desenho dos uniformes do Comitê Olímpico Italiano e também do Olimpia Milano, uma das mais tradicionais equipes do basquete europeu.

Em comunicado divulgado em seu site oficial, o Napoli ainda informou que parte do dinheiro arrecadado com as camisas será destinado para ajudar projetos beneficentes em comunidades carentes de Nápoles.

"A colaboração confirma a ligação entre Giorgio Armani e o mundo do futebol. Um diálogo em continua evolução, que se expressa através da criação das roupas formais e do material esportivo, e que nasce essencialmente com os valores de lealdade, compromisso e trabalho em equipe", escreveu o time do sul da Itália.

Mas a estratégia funciona?

A fabricação própria de camisas não é uma estratégia nova. No Brasil, ela é usada com enorme sucesso por clubes como Bahia, Fortaleza e Ceará, além de várias outras equipes de divisões menores.

Mas será que o que o Napoli está fazendo tem espaço no futebol europeu? Será que vale a pena?

Para responder essas dúvidas, o ESPN.com.br ouviu Vinicius Lordello, especialista em comunicação no esporte, que comentou a parceria entre o time italiano e a grife de Giorgio Armani.

ESPN.com.br: Como você enxerga a ideia do Napoli para a temporada 2021/22? Ela cabe no futebol europeu, a exemplo do que ocorre com sucesso no Brasil em vários clubes?
Vinicius Lordello: Espaço há, sem dúvidas. Mas são dois desafios importantes que devem ser enfrentados de imediato. O primeiro recai sobre a identidade do clube e o quanto isso conversará com os desenhos feitos pela Armani. Claro que a grife terá esse cuidado, como teve na coleção lançada na quinta-feira, mas estamos falando de um clube, dentro da Itália, que não tem seus torcedores compreendidos, em sua maioria, dentro da elite econômica do país. A Armani passa a desenhar para um público que, historicamente, não é seu alvo prioritário. Mas esse desafio é superado, como como na primeira coleção, com boas reuniões de briefing. O desafio maior recairá sobre a capacidade de comercialização, a capilaridade de distribuição e entrega que o clube deverá ter para suprir o apoio logístico que uma marca mais consolidada consegue entregar. Esse é um desafio na Itália, também, mesmo o país sendo menor que o Brasil geograficamente. Precisamos ainda entender como será essa distribuição e comercialização do clube além dos limites de fronteira do país. Nos demais países europeus conseguirá a tal capilaridade? E além da Europa? São dificuldades novas em um ramo consolidado. No Brasil, vejo a ideia com empolgação, mas os clubes citados tem um desafio menor de internacionalização e são fortíssimos regionalmente, onde suas vendas estão concentradas. Embora, claro, tenham torcedores e vendas Brasil afora.

ESPN.com.br: Quais os prós e contras da estratégia do Napoli? O dinheiro que entra direto no cofre do clube, ao invés de ser pago em porcentagem de royalties por alguma fornecedora, compensa?
VL: Como citei, os principais desafios estão da logística e capilaridade. Qualidade de material não deve ser um problema. O Napoli, agora, passa a flexibilizar sua estratégia comercial e institucional com os uniformes. O fenômeno da pirataria de camisas não é exclusivo do Brasil. Na Itália, como aqui, os clubes perdem dinheiro para uniforme pirateados. Tendo marca própria, será possível lançar alguns produtos mais populares. Mas é importante observar que ser possível é diferente de efetivamente acontecer. Também por ter justamente a Armani desenhando. Além disso, claro, os percentuais de venda com marca própria são bem maiores, com custos de produção que anteriormente não existiam. Talvez o Napoli tenha observado que suas vendas, diferentemente de outros concorrentes europeus, estejam concentradas no próprio país, o que diminui o tamanho do desafio diante do possível aumento de margem de lucro.

ESPN.com.br: No aspecto das vendas, como essa estratégia muda a vida de um clube? Afinal, a equipe não terá a rede de distribuição gigantes de marcas como Nike, Adidas ou Puma, por exemplo. No caso do Napoli, o time usa a Amazon para comercializar uniformes. Acha uma boa estratégia?
VL: Não se pode desprezar a Amazon como parceira em nenhuma hipótese. Entendem de logística como poucas marcas no mundo. Mas é inegável que o know-how e experiência de marcas esportivas que já estão no esporte e que tem alcance mundial é um ponto a ser considerado. O grade ponto dessa estratégia é a definição do tamanho do Napoli no cenário mundial. Fosse a Juventus, Manchester United, Barcelona, certamente seria um movimento pra se desconfiar. O Napoli hoje está em uma prateleira abaixo e justamente por isso vale entender a decisão como ousada mas legítima. Pensando no Brasil, com enorme respeito, muito mais fácil funcionar com clubes cujo apelo de torcida estão mais concentrados que os top 5 de em número de torcedores.