A alta cúpula da CBF não aposta em um retorno do presidente afastado Rogério Caboclo ao comando da entidade após a investigação da Comissão de Ética sobre as acusações de assédios sexual e moral feitas por uma funcionária que trabalhava diretamente com o cartola. Segundo dezenas deles ouvidos pelo ESPN.com.br, o caso está praticamente resolvido, apenas aguardando as devidas tramitações.
Na visão de Caboclo, no entanto, o cenário é completamente diferente.
O (ex) mandatário trabalha dia e noite ao lado de sua equipe de advogados para reverter a situação e voltar ao posto mais alto do futebol brasileiro.
Caboclo e seu estafe entendem que absolvição na Comissão de Ética é muito difícil e, por isso, já trabalham em articulações visando o próximo passo do caminho até a decisão final do caso. Como um despacho da comissão precisa ser validado por 80% das federações, o presidente afastado mira acordos com os cartolas dessas entidades para tentar salvar seu mandato.
A principal aposta do momento é um parecer de renomados juristas que endossam a tese dos advogados de Caboclo. Eles afirmam que “seu cliente não cometeu crime de assédio”. De acordo com a defesa, a professora da Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco (USP) Helena Regina Lobo da Costa, o professor catedrático da Universidade de Berlim, Luís Greco, o advogado criminal há mais de 50 anos Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, o ex-procurador da República e professor catedrático da UERJ, Juarez Tavares, e o professor da Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco (USP) Pierpaolo Cruz Bottini emitirão pareceres sobre o caso.
Caboclo e seus advogados não pretendem utilizar o parecer do grupo apenas em petições dos processos e desdobramentos, mas principalmente na tentativa de convencer presidentes de federações de que eles podem se aliar a alguém que “não cometeu crime de assédio”.
Em todos as conversas que movimentam o agitado bastidor da CBF, é ponto comum que os cartolas não comprometeriam suas respectivas imagens votando a favor de alguém punido por assédio.
Caboclo tenta mudar esse entendimento e provar, principalmente no julgamento político dos presidentes de federações, ser inocente.
Por ora, o efeito prático da estratégia é quase nulo. Interlocutores de federações apontadas por Caboclo como aliadas não vislumbram votar para “salvar” o presidente afastado após a aguardada decisão da comissão de ética. Del Nero trabalha por votos para encerrar mandato de Caboclo.
Enquanto Caboclo faz sua parte para tentar salvar o mandato em meio às acusações, outro lado trabalha para jogar a pá de cal no presidente afastado. Mesmo banido do futebol pela Fifa, o ex-presidente da CBF Marco Polo Del Nero mantém enorme influência no tabuleiro político da casa. E para não perder seu poder na entidade, articula por votos de federações para tirar o agora inimigo Rogério de vez.
Após ratificar a queda de Caboclo, a estratégia de Del Nero é trabalhar para manter o presidente em exercício Coronel Nunes no poder. Nunes é seu aliado de primeira hora e não ousa descumprir ordens do chefe que articula nos bastidores direto de sua cobertura na orla da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, a menos de dez quilômetros da sede da CBF.
Sem poder pisar no prédio, é da cobertura – e em ligações telefônicas – que Marco Polo trabalha e despacha com cartolas de federações e dirigentes da confederação que o visitam com cada vez mais frequência. A guerra política cada vez menos silenciosa motiva notas oficiais, comunicados e cartas em um verdadeiro chumbo trocado.
Distante do fogo cruzado, o grupo de vice-presidentes da CBF tenta não estabelecer relações explícitas com Del Nero ou Caboclo enquanto trabalha para suceder o presidente afastado.
