<
>

Dorival Jr: 'No Brasil, o processo de Klopp no Liverpool teria três ou quatro treinadores'

play
Dorival lamenta falta de sequência no Flamengo, conta que já pensava em Gabigol e fala sobre momento do clube (0:52)

Treinador foi o conviddo de André Plihal no Resenha Digital dessa semana (0:52)

Conhecidamente adepto a um futebol mais propositivo, Dorival Jr busca manter suas ideias independentemente do contexto em que está inserido.

Com passagens por grandes clubes do futebol nacional, como Flamengo, São Paulo, Santos e Palmeiras, e expressivos títulos conquistados, a exemplo de Copa do Brasil e Recopa Sul-Americana, o treinador acena para equipes de outros continentes.

Sem clube desde agosto de 2020, quando fora demitido pelo Athletico-PR, aguarda por uma oportunidade. Ele chegou a conversar com o Sport após a demissão de Jair Ventura, mas as negociações não avançaram. Agora, ele espera uma possibilidade no exterior.

"Caso não venha a acontecer até o final deste mês, provavelmente eu retorne ao mercado aguardando por uma oportunidade", afirmou Dorival.

Em entrevista concedida à ESPN Brasil na última segunda-feira (10/05), o treinador pôde falar, dentre os assuntos abordados, sobre a pandemia, a organização do futebol brasileiro como um todo e o estudo do jogo por parte da imprensa.

Pandemia: 'Equipes com elencos mais completos acabaram tirando um proveito muito grande'

No intervalo entre 26 de fevereiro de 2020, quando Luiz Henrique Mandetta, então ministro da Saúde, anunciou o primeiro caso de coronavírus no país, e 15 de março, data em que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) decidiu suspender suas competições por prazo indeterminado, soube-se que a pandemia estava apenas começando.

À época comandante do Athletico-PR, Dorival definiu os últimos dois anos, justamente acometidos pela pandemia, como "atípicos", além de uma "situação inusitada".

"Nós começamos a ter uma demanda que não existia, a ver que teríamos um acúmulo excessivo de jogos", relatou.

Se o investimento efetivo no elenco e a boa utilização das categorias de base já eram de suma importância para os clubes, intensificou-se com o calendário ainda mais apertado ao longo da temporada.

"Aquelas equipes que tinham os seus elencos um pouco mais completos acabaram tirando um proveito muito grande, porque a resposta que é dada por jogadores que estão em um nível muito próximo é maior do que aquelas equipes que ainda estejam em formação e montagem".

play
0:36

'Você tem que rezar muito... Se acontecer alguma m****, você vai embora amanhã': Dorival revela papo com Marquinhos após vermelho na final do Paulistão

Treinador foi o conviddo de André Plihal no Resenha Digital dessa semana

Característica ofensiva: 'Nossos jogadores querem a bola nos pés'

Ao olhar para as equipes de Dorival, é preciso pouco para notar que, mais além de um futebol propositivo, o técnico implanta mecanismos que se aproximam ao Jogo de Posição.

No Brasil, porém, muitos técnicos adeptos à filosofia percebem a dificuldade de o jogador sul-americano em se adaptar.

"A nossa escola é um pouco diferente. Os nossos jogadores vão atrás da bola, não vão atrás do espaço. Tanto é que os espaços aparecem nos jogos e os nossos jogadores não têm aquela obsessão pelo ataque ao espaço, eles não percebem que é o que desequilibra o seu adversário, que faz com que haja uma movimentação no sistema defensivo", analisa.

"Os nossos jogadores, em grande maioria, querem a bola nos pés. Se não chega essa bola no primeiro ou no segundo lance, já no terceiro ele busca uma movimentação que encontrem a bola, e não fazer com que a bola os encontre".

Ainda sobre o campo, nota-se um crescimento, principalmente na atual temporada, no debate sobre a utilização de três zagueiros. Embora digam que se trata de um esquema puramente defensivo, Dorival Junior discorda: "Quando se generaliza, é justamente porque falta conteúdo".

"Em muitos momentos, quando se joga com três zagueiros, é para que você dê um pouco mais de tranquilidade aos homens de meio e frente, usando muito mais os seus laterais, ora por apoio, ora por infiltração, um pouco mais adiantados. Você preenche muito mais o campo do adversário", entende.

play
2:17

Dorival detalha como se curou de câncer e faz apelo para homens se cuidarem

Treinador foi o conviddo de André Plihal no Resenha Digital dessa semana

Papel da imprensa na análise do jogo: 'Os últimos 25 anos foram muito tranquilos, porque as pessoas não precisaram se desenvolver'

Juntamente com novos termos e o uso de estatísticas avançadas, tornou-se comum o estudo do jogo por parte de jornalistas e analistas que compõem a imprensa nacional.

No entanto, nem sempre foi assim, opina Dorival.

"Quando nós falamos na busca de um conhecimento, acho que cabe a todos nós. Não estou tirando as nossas responsabilidades. Nós, realmente, deixamos de lado a nossa formação porque nunca foi exigida. E, queira ou não, uma leitura malfeita de uma partida começa a projetar uma situação diferente daquilo que a realidade apresenta".

"Os últimos 20, 25 anos”, continua, "foram muito tranquilos, porque as pessoas não precisaram se desenvolver, as coisas eram sempre jogadas nas costas de um ou de outro. Isso faz com que você entre em uma situação de conforto, e nós precisamos de uma evolução, porque não se aceita mais passar ao torcedor uma leitura mentirosa ou uma leitura irreal daquilo que esteja acontecendo dentro das quatro linhas".

Quando foi treinador do Santos, entre 2015 e 2017, uma questão bastante debatida era o uso de seus laterais. Dorival fez com que eles atacassem por dentro, para gerar superioridade numérica no corredor central, o que causou dúvidas por todos os lados.

"Eu jogava com os dois laterais por dentro, como laterais de armação, e boa parte da imprensa dizia que os meus laterais afunilavam o jogo, que eles não davam amplitude para o nosso time, sendo que a gente tinha o Gabigol de um lado do campo e Geuvânio no outro lado, ou o Marquinhos Gabriel. Passei quase que 1 ano tentando explicar que os meus laterais eram volantes porque tinham essa característica", relembra.

play
0:45

Dorival lembra quando morava no prédio de Mádson, via festas sem ser convidado e até era 'cobrado' pela mãe do atleta

Treinador foi o conviddo de André Plihal no Resenha Digital dessa semana

Organização do futebol brasileiro: 'Está na hora de haver uma responsabilidade maior por parte dos gestores'

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, no início do mês, Daniel Alves definiu o Brasil como um "cemitério de treinadores e jogadores". No entendimento do treinador, o atleta do São Paulo tem razão.

"Se em dois ou três meses o treinador não estiver conseguindo fazer as coisas andarem, ele é automaticamente mudado. Isso interfere diretamente na maneira como nossas equipes jogam, atuam, porque você acaba tendo uma equipe com três treinadores por ano. A grande maioria trabalha dessa forma. As pessoas falam que é uma cultura do futebol brasileiro e eu procuro dizer que é uma falta de cultura do futebol brasileiro".

"Isso acontece com qualquer um de nós, tanto é que esse mesmo processo que o (Jürgen) Klopp, por exemplo, vivenciou, de quatro temporadas para que pudesse atingir uma Liga dos Campeões, no Brasil, esse mesmo Liverpool teria, com certeza, três ou quatro treinadores".

Para a 1ª e 2ª divisão do Campeonato Brasileiro, a CBF determinou, em 24 de março, o limite de duas trocas de técnicos a partir desta temporada.

Dorival, atualmente sem clube, achou uma "atitude boa, desde que os clubes se preparem um pouco mais para as suas contratações".

"Está na hora de haver uma responsabilidade e uma responsabilização maior por parte dos gestores, para que eles tenham paciência, tranquilidade e equilíbrio no momento da contratação de um profissional. E, contratando esse profissional, acreditem no trabalho dele, porque futebol você não queima etapas".

Após encerrar conversas com o Sport para substituir Jair Ventura há pouco mais de um mês, Dorival aguarda por um contato do mercado externo.

Segundo ele, a proposta esteve "nas mãos" – as conversas, contudo, ainda não foram finalizadas.

"Caso não venha acontecer até o final deste mês, provavelmente eu retorne ao mercado aguardando por uma oportunidade".