No dia 6 de julho de 2013, a dinastia de Anderson Silva no UFC chegou ao fim. O brasileiro, que chegou ao Ultimate em 2006, tinha 16 vitórias seguidas naquele momento de sua carreira, sendo que 11 dessas lutas foram disputando o cinturão dos médios (uma conquista e 10 defesas). Era, combate após combate, a história sendo escrita e reescrita. Mas, como tudo, acabou. E o fim veio pelas mãos de Chris Weidman.

Em um momento histórico de extremo destaque do UFC no Brasil, ver Anderson lutar era um evento social. Bares lotados, amigos abrindo suas casas de madrugada, festas com telão... Ninguém poderia perder mais uma luta e mais um nocaute do Spider. Mas dessa vez, todos viram a casa cair.
Talvez a característica mais marcante de Anderson dentro do octógono tenha sido a irreverência. As 'molecagens' do brasileiro encantavam o público e tiravam os rivais do sério: tudo o que ele queria. E foi assim que ele caiu do topo, do mesmo jeito que chegou lá. Falando, provocando, abaixando a guarda e até dançando enquanto encarava rivais sedentos por sua cabeça.
Chris Weidman tirou o cinturão de Anderson, e meses depois o bateu novamente. Após dois anos com o título dos médios, entrou em um momento ruim na carreira e perdeu cinco de suas últimas sete lutas. Agora, visando um renascimento, ele encara Uriah Hall nesse sábado (24). E em conversa exclusiva com o ESPN.com.br, ele abriu detalhes inéditos de seus dois duelos contra o Spider, falou da rivalidade entre eles e como foi viver tudo o que viveu contra um dos maiores de todos os tempos. Vamos voltar no tempo.
"Eu não vou parar de socar até te destruir"
Na primeira luta, em julho de 2013, Chris era um jovem desafiante ao título que, em sua primeira chance de ser campeão, encarava ninguém menos do que o grande Anderson Silva. Em seu auge, o brasileiro elevou o número de brincadeiras, provocações e gracinhas dentro do octógono a outro patamar. E Weidman contou um pouco do que ouviu do Spider naquela fatídica noite.
"É, ele falou várias coisas para mim. Tudo era: "Chris, vamos lá, bata em mim. Fique de pé, pela torcida. Pare de querer ir para o chão... Sem wrestling, fique de pé". E eu ficava: "Ok, ok, ok...". Sabe, ele falava muito, e a única coisa que ele fazia na luta era chutar minha perna. Eu estava acertando mais golpes. Eu tentei ficar calmo. Eu me preparei para isso, eu sabia que ele ficava com as mãos baixas, jogando seu jogo, então eu treinei contra sparrings que faziam a mesma coisa."
Apesar de tentar seguir são, o desafiante não conseguiu. E foi exatamente seu ódio que gerou o famoso nocaute após o brasileiro fazer uma 'dancinha' enquanto levava o primeiro dos golpes que encerrariam a disputa. Anderson conseguiu desestabilizá-lo, como queria, mas dessa vez não teve o resultado esperado.
"Vou te falar, quando você está no octógono, com milhões de pessoas assistindo, e ele fazendo isso para você, você fica: "Eu não consigo acreditar que ele está fazendo isso". Você começa a ficar p***. Normalmente, você quer se manter calmo, focado, mas o nocaute veio após eu pensar: "Estou p***. Já deu, não aguento mais ele falando, provocando...". Aí eu disse: "Eu não vou parar de socar até te destruir". É isso. Todo o planejamento, a preparação para a luta, tudo isso foi jogado pela janela. Eu literalmente fiquei p*** e é por isso que foi um nocaute meio estranho. Eu acertei ele com a parte de trás da mão antes de dar o gancho. Eu só queria acertar a cara dele, e deu certo."
"Ele ficou p*** e frustrado"
A revanche era a escolha óbvia para o UFC, e em 28 de dezembro, cinco meses após o primeiro duelo, os dois se encontraram de novo. A luta ficou marcada na história pela assustadora lesão do brasileiro, que quebrou a perna em dois pedaços. Mas mesmo antes disso, o Spider não vivia grande noite... E Weidman conta que o motivo foi exatamente a mudança para uma postura mais conservadora. Essa era a primeira vez que Anderson lutava após uma derrota desde 22 de abril de 2006.
"Indo para a segunda luta, depois de ser muito criticado por ficar com as mãos baixas na primeira, ele lutou o tempo todo com a guarda alta. E foi tão mais fácil, sem discutir o jeito que a luta acabou. Até aquele momento, em um round e meio, foi tão mais fácil para vencê-lo. Muito mais fácil ver de onde sua mão vinha, as combinações, os chutes... Com as mãos altas e sem falar. Para mim, foi uma luta sem defeitos. Eu detonei ele no primeiro round, estava detonando no segundo. Eu derrubei ele quando a gente estava de pé, estava batendo nele no chão. Acho que ele estava frustrado após ser batido no primeiro round e ter seus chutes defendidos. Aí ele começou a querer destruir minha perna sem se preparar devidamente para isso. E eu meio que vi aquele chute vindo, então me defendi muito bem, e aí quebrou a perna dele. O que aconteceu é que ele ficou mexido. Ele ficou p*** e frustrado. Ele só queria bater na minha perna o mais forte que pudesse. Você não pode fazer isso."
"Ele gritava como se estivesse sendo assassinado. Foi muito difícil sorrir e ficar feliz"
O desfecho desse segundo combate merece um capítulo à parte. Poucas imagens são tão marcantes na história do esporte quanto a de Anderson chutando Weidman e sua perna 'dobrando' no meio. Se você já viu essa imagem uma vez, só de ler essa frase já consegue vê-lá novamente. E como foi para Chris ver isso de dentro do octógono, no calor do momento?
"Assim que eu defendi o chute e ele caiu, eu não vi que tinha quebrado. Tudo que eu vi foi que o Herb Dean parou a luta e eu venci, então comecei a correr, estava feliz. Quando você tem um chute na perna defendido, dói. Então eu achei que ele estava acabado mentalmente e fisicamente, com muita dor e se sentou. Enquanto eu corria em circulos no octógono, pensando na vitória, eu ouvi ele gritando como se estivesse sendo assassinado. Eu olho para ele e vejo que ele está destruído. Eu fiquei assustado, ele não tinha ninguém conhecido ao redor dele, eu chamei seu treinador, a segurança não queria deixar entrar, aí pedi para liberarem. Foi muito difícil sorrir e ficar feliz. Não é o que eu queria."
"É nesse momento que ele é o maior"
Apesar de ter vencido o Spider duas vezes, sendo uma muito marcada pelas provocações de Anderson, Weidman não tem nenhum problema em admitir que o brasileiro é uma lenda tão grande exatamente por essa postura, que acaba com a cabeça do adversário. Nos detalhes, Chris explica como o brasileiro brinca com o psicológico dos rivais e usa isso para vencê-los.
"É nesse momento que ele é o maior. Quando você consegue abaixar suas mãos e fazer as pessoas sentirem que não podem te acertar, ou que não é um problema se te acertarem, porque às vezes ele só deixava as pessoas socarem ele, isso destrói mentalmente o adversário. E aí, quando suas mãos estão baixas, os socos vêm de ângulos que você não está acostumado a defender, então ele é um cara muito perigoso. Nos treinos eu fazia coisas assim, e funciona. Muitos brasileiros acham que ele estava sendo arrogante na primeira luta, mas é a tática mental dele, de frustrar o adversário, fazer ele se sentir sem chances de vencer e aí vencê-lo. Eu entendo o que ele estava fazendo. Era inteligente. Só não deu certo."
"Acho que os brasileiros não gostam de arrogância, eles gostam de pessoas humildes"
Como grande algoz do maior ídolo do MMA brasileiro, é natural imaginar que Weidman não seja muito amado no Brasil, certo? Além de Anderson, ele ainda bateu os compatriotas Demin Maia, Lyoto Machida e Vitor Belfort. Mas ainda assim, Chris conta que em nenhum país do mundo se sente tão amado quanto aqui, e exatamente por ter vencido a primeira luta contra o Spider.
"Eu acho que sou amado no Brasil. Fui para o Brasil várias vezes, e em todas eu fico assustado com o amor e apoio que tenho lá. Acho que quando eu nocauteei o Anderson Silva, quando ele estava fazendo gracinhas... Acho que os brasileiros não gostam de arrogância, eles gostam de pessoas humildes. Acho que sou humilde, não tenho nada além de respeito pelos brasileiros que enfrentei, incluindo Lyoto e Vitor depois. Acho que os brasileiros não me odeiam. Acho que eles estavam p**** com o jeito que o Anderson estava se comportando. Ele fez aquilo em outras lutas e o amavam, mas ele ter sido nocauteado no meio de suas gracinhas é algo que sinto que muitos brasileiros estavam tristes, mas também pensando: "Ele mereceu, não deveria ter sido arrogante". Eu sinto que não existe um país no qual sou mais amado do que no Brasil."
Ao relembrar sua trajetória de sucesso contra brasileiros, Weidman ainda entrou na brincadeira e, às risadas, disse que Ronaldo Jacaré vingou nosso país ao nocauteá-lo em 2018.
