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Douglas, campeão brasileiro pelo Santos, largou aposentadoria após 4 anos; hoje, é máquina de gols na Ásia

Campeão brasileiro pelo Santos em 2002, Douglas já tinha pendurado as chuteiras há mais de quatro temporadas e estava focado na carreira de treinador. Aos 39 anos, porém, recebeu um convite inusitado que o fez retornar aos gramados. Mesmo em uma idade avançada, o brasileiro vem fazendo bonito na segunda divisão tailandesa: em 13 jogos, são 8 gols e 4 assistências pelo Siam Navy.

Revelado na mesma geração de "meninos da Vila" que Diego Ribas, Robinho e Alex, o jogador começou no Silvicultura e passou pela Portuguesa antes de chegar à base clube santista.

"Em 2002, o Santos estava numa condição financeira precária porque tinha feito um timaço que não venceu nada no anterior. Subiram Diego, Robinho, Bruno Moraes, William e muitos outros. Lembro que o [técnico Celso] Roth viu um jogo nosso contra o Bahia, que fui bem e fiz um gol. Ele falou: ‘Quero aquele atacante doido que briga com todo mundo ali na frente’. O doido era eu (risos). Foi um sonho realizado porque sou torcedor do Santos desde a infância", contou o jogador, ao ESPN.com.br.

Após se profissionalizar, Douglas foi mantido no elenco para o Brasileirão mesmo com a chegada do técnico Émerson Leão.

"Ele achou no começo que iríamos brigar para não cair. Mas nos treinos viu que tínhamos entrosamento e muita intensidade. O Leão resolveu marcar um amistoso contra o Corinthians, que tinha vencido a Copa do Brasil e o Rio-São Paulo no primeiro semestre, para ver se a molecada era tudo isso. E a gente venceu", recordou.

Depois de altos e baixos na primeira fase do Nacional, Santos classificou-se - no sufoco - em oitavo. Depois, eliminou os favoritos São Paulo e Grêmio nos mata-matas antes de enfrentar o Corinthians nas finais.

"Aconteceu uma história muito engraçada na semana antes do segundo jogo da decisão. Estávamos entediados depois do almoço, quando o Diego falou para darmos um 'rolê' de cavalo até uma cachoeira. A gente estava tomando banho lá quando apareceu o Leão gritando: ‘O que vocês tão fazendo aí, seus juvenis?’ Ele mandou a gente deixar os cavalos por lá e voltar a pé para o hotel (risos). Para você ver como a gente não tinha noção da importância daquela final", recordou.

O Santos derrotou o rival nas duas partidas e sagrou-se campeão brasileiro.

"Os mais experientes ajudaram demais a controlar a ansiedade da molecada. Nosso time era excelente, foi uma geração que marcou história no Santos. A criançada voltou a amar o Santos e a torcer pelo clube. O Santos sempre revelou jogadores e acreditou na molecada. Depois da geração de 2002, a procura pela base aumentou muito", contou.

Em 2003, Douglas fez parte do elenco que foi vice-campeão da Conmebol Libertadores.

"A gente estava perdendo o segundo jogo da final para o Boca, e eu entrei com muita determinação, mas não conseguimos vencer. O time deles era muito experiente e forte. Foi muito marcante por ter participado, apesar de não termos sido campeões. Estava ao lado de lendas do futebol", disse.

Contra o Guarani, ele marcou o milésimo gol do Santos na história do Campeonato Brasileiro. "Entrei no segundo tempo e fiz o gol de cabeça. Recebi uma placa por isso. É algo que esqueço até hoje".

Após ser emprestado ao Goiás em 2004, Douglas voltou no ano seguinte ao Santos.

"Nós vencemos o Goiás no Brasileiro por 4 a 3 e fiz dois golaços. Fui eleito o melhor atacante da rodada. Pude jogar ao lado Giovanni, o Messias, que era meu ídolo de moleque. Eu olhava a forma como ele dominava a bola no peito e tentava imitá-lo. De tanto olhar acabei aprendendo a fazer igual", contou.

Aventura na Europa e ida à Tailândia

O atacante foi vendido no fim do ano para o Chiasso, da segunda divisão da Suíça. Ele ainda passou por Widzew Lodz-POL e Elche-ESP.

"Não me adaptei muito na Espanha porque meu time tinham alguns jogadores espanhóis que eram vaidosos. O treinador que me contratou foi demitido antes de eu estrear. O técnico que chegou não consegui jogar", lamentou.

Em 2009, ele voltou ao Brasil e jogou por Americana-SP, Atlético Sorocaba-SP e Uberaba-MG, no qual se destacou no Estadual de 2010. "Fiz gols contra Atlético-MG e Cruzeiro. Nisso, houve interesse do Buriram-TAI, que é o melhor time da Tailândia", contou.

A ida ao futebol tailandês mudou a vida de Douglas.

"Ganhei muita moral lá porque tiramos o time da sétima colocação e o levamos ao vice-campeonato na primeira temporada. Fiz muitos gols e fui titular. No ano seguinte, fui jogar a Série B porque a vaga do nosso time era alugada! Nós fomos campeões e fui artilheiro da equipe", contou.

O brasileiro defendeu depois o Ratchaburi-TAI, Saraburi-TAI, Rayong-TAI e Bangkok FC. Em 2017, ele não recebeu boas propostas de clubes tailandeses e aceitou um convite para ser treinador da base do Ratchaburi-TAI. "Consegui várias vitórias antes de ser chamado para ser auxiliar técnico do profissional".

Volta depois de quatro anos

Em dezembro de 2020, Douglas estudava para tirar a licença b de treinador quando recebeu um inusitado convite de um colega de curso que era diretor do Siam Navy.

"Ele me viu treinando durante o curso e disse: ‘Douglas, você está melhor que os meus atacantes. Você não quer jogar pelo meu time?’ Eu disse: ‘Estou feliz nesse trabalho como auxiliar e focado na carreira’. Achei que ele estava brincando. Mas no outro dia ele disse para eu fazer uma proposta porque queria contar comigo pelo meu futebol e pela minha liderança. Ele disse que ia encaixar bem no time. A gente acertou os detalhes e voltei a jogar depois de ter ficado quatro anos parado, acredita?", contou.

Com o sucesso, ele já tem ofertas para continuar jogando até os 40 anos.

"Eu tenho me sentido super bem. Me sinto como um garoto! Tenho jogado as partidas completas e dando piques até o fim. Se fosse para passar vergonha dentro de campo, eu seria o primeiro a sair. Não queria jogar fora tudo que construí nos anos que joguei aqui", afirmou.

"Tem clubes interessados em me contratar para a próxima temporada, que começa no fim de julho. Estou muito feliz por tudo que aconteceu. Sou o maior artilheiro do meu time. Não faço planos para parar de jogar".

Após mais de uma década na Ásia, Douglas não pensa em voltar agora ao Brasil.

"Meus filhos gêmeos, Yasmin e Maicon, estudam aqui e jogam futebol na escolinha do Bayern de Munique. Eles se destacam demais no futebol e já participaram de um programa de televisão muito famoso. A criançada do país toda conhece os meus filhos. Eu amo o Brasil, mas a Tailândia é a minha segunda casa. Se eles quiserem jogar pela seleção tailandesa seria uma honra também. Não tenho planos de voltar tão cedo ao Brasil".