Quando o Santos entrar em campo nesta terça-feira, contra o Deportivo Lara, pela Conmebol Libertadores, Yeferson Soteldo poderá voltar no tempo. Foi na Venezuela que o camisa 10 começou sua carreira no futebol, mas ali também guarda algumas de suas piores lembranças.
Deportivo Lara x Santos terá transmissão, ao vivo, do FOX Sports às 19h15 (de Brasília) e acompanhamento, em tempo real e com vídeos, do ESPN.com.br. Na partida de ida, a equipe brasileira venceu por 2 a 1 e joga na Venezuela por um empate para se classificar.
Soteldo é natural de Acarigua, cidade a mais de 300 quilômetros de Caracas, capital venezuelana e palco da partida desta terça. Seu bairro era o “El Muertico” (algo como o “mortinho” em tradução livre), descrito por ele mesmo como de “ruas pequenas e com muita delinquência”. Até os 13 anos, inclusive, acreditava que seria esse seu caminho.
“Cresci com uns amigos, quer dizer, pessoas que chamava de amigos nesse momento, com os quais me juntei desde os seis anos e que, aos 11, começaram a dar passos ruins e, aos 12, já roubavam. Os via com muitas coisas, eu sem nada, então fui por ali. Mas aos 13, mataram um, e ali disse: 'O que estou fazendo aqui?'”, disse Soteldo, em entrevista ao site da Fifa.
Soteldo sabia, porém, que tinha algo que o diferenciava dos amigos. O futebol não é o esporte mais popular da Venezuela, mas a bola sempre foi sua grande paixão – o pai foi o responsável por lhe dar sua primeira. Aos nove anos, o hoje meia do Santos já enfrentava garotos mais velhos. Até os 12, seu foco, apesar das más amizades, era o futsal.
A grande oportunidade de sua vida apareceu em jogo de bairro onde estaria um olheiro do Caracas. Soteldo, sem chuteiras, decidiu que não entraria em campo.
“No dia do jogo, estavam perdendo e vieram me buscar. 'Te emprestamos chuteiras'. E eu fui. Perdiam por 2 a 0, me deram a 10 e viramos com dois gols e uma assistência minhas. Ali surgiu a oportunidade de ir ao Caracas. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, descreveu.
“Se não tivesse sido pelo futebol, teria terminado mal, talvez morto. Tenho que agradecer ao futebol, que me tirou dali”, completou Soteldo, ao jornal chileno “La Tercera”, em 2017.
O Caracas, é verdade, marcou o início da carreira de Soteldo no futebol. Mas ainda não o fim de seus problemas fora de campo: ainda com “más companhias”, como ele descreve, acabou dispensado. Daqueles tempos, ele não gosta de lembrar nem do apelido, “Manzanita”.
“Me chamavam assim, mas tive que pedir aos jornalistas na Venezuela que por favor não usassem, porque me traz uma lembrança ruim da minha infância, de meus tempos em Caracas. Não gosto da pessoa que me colocou”, explicou ele, também em 2017.
Depois dali, se encontrou no Zamora, também da Venezuela, seu último clube em seu país, antes de se destacar por Huachipato e Universidad de Chile, até chegar ao Santos.
“No Caracas, me dispensaram por indisciplina, algo que ganhei pela minha conduta, não nego, porque ainda não tinha me livrado das influências ruins. Quando cheguei ao Zamora, o treinador me disse que tinha muito talento, me fez entender, e o agradeço.”
’Esqueça o futebol’
A infância difícil não foi a única questão que Soteldo teve que superar para se destacar no futebol. A estatura, de 1,60m, também foi barreira.
“Aconteceram várias coisas, fui dispensado do Caracas e tentava recomeçar do zero. Foi uma prova que me sai bem, mas um senhor me disse que não ficava pela minha altura, e que esquecesse o futebol. Se fosse fraco de cabeça, talvez abandonasse, e quase fiz isso. Mas não era fraco, e entendi que não devia me deixar levar por essas palavras.”
Uma das inspirações de Soteldo? Lionel Messi, um “baixinho” por quem Soteldo tem tanta admiração que batizou seu primeiro filho com uma junção dos dois nomes dos filhos do argentino.
“Sim, o via pequeno e dizia, 'se um dos melhores do mundo chegou, por que não eu?'. Além disso, tínhamos estilos parecidos. Sentia que, talvez, não ia ser o melhor, mas ao menos podia me superar como ele. O meu primeiro filho, que tive com 18 anos, coloquei o nome de Thiago Mateo por Messi...”
Hoje, Soteldo veste a camisa 10 do Santos que já foi de Pelé. Mais do que isso: em sua volta a Venezuela, de tantas lembranças difíceis, o meia recebeu uma placa e uma camisa autografada pelo Rei do Futebol, em homenagem a seus 100 jogos pelo clube alvinegro.
“É um grande privilégio completar essa marca e ainda receber essa homenagem em meu país. São poucos que conseguem esse feito em um time tão grande como é o Santos, com uma história linda. Estou desfrutando demais desse momento que sonhei desde criança. Já é o segundo autógrafo que ganho do Pelé. É um presente especial demais. Muito obrigado, Rei.”
