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O legado de Jorge Sampaoli

Você pode não gostar do Jorge Sampaoli (e ele dá motivos para isso), mas é inquestionável: o argentino, que está partindo rumo à Europa, vai, mas deixa um legado. Ganhou, é verdade, apenas um modesto Campeonato Mineiro com o Atlético-MG, mas não é de resultado que falo, falo do amor pela bola de futebol.

Vamos voltar no tempo...

Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Jogo foi Itália 3 x 2 Brasil, no Estádio Sarriá. Esse maldito e inesquecível revés fez a muitos chorar. Impactou não apenas nossos corações, mas também as nossas mentes. Pior, envenenou o intelecto dos nossos treinadores e da mídia nacional.

Telê Santana, comandante do time brasileiro naquele Mundial, pensava como hoje pensam Sampaoli, Jorge Jesus, Abel Ferreira, Marcelo 'El Loco' Bielsa, Pep Guardiola, Jurgen Klopp, Hansi Flick, Thomas Tuchel. Que futebol se joga pra frente, é espetáculo! Tenham a bola e deem vazão à criatividade. Pinte, cante, escreva, chute! Pense.

Mas aquela doída derrota para a Itália - que aconteceu em um jogo, mísero jogo de um torneio mata-mata - valeu críticas ferozes ao treinador brasileiro. Se Telê tivesse se preocupado em se defender, o Brasil não teria sido batido pelos italianos.

E a partir daquele 'acidente', a comunidade do futebol brasileiro (inclui-se aí mídia, torcida, treinadores e os obtusos dirigentes) passou a olhar o espetáculo da bola de couro de maneira diametralmente oposta ao que era visto. E um novo estilo passou a carimbar nossas tardes de domingo.

O made in Brazil mergulhou nas trevas

Nosso jeito de jogar, que tinha o selo da qualidade ofensiva, do espetáculo, do gol, da magia, da alegria, da arte, que era requisitado em todo o mundo, foi sugado pela mediocridade. O futebol made in Brazil, reconhecido e admirado por sua criatividade, beleza plástica, onde Mané transformava marcadores em Joões e Pelé os fazia buscar bolas nas redes em mil partes desiguais, mas todas encantadoras, mergulhou nas trevas do defensivismo.

Para usar termos da moda, deixamos de propor o jogo para reagir à ação inimiga, quando historicamente sempre aconteceu o contrário. Ver um brasileiro com a bola nos pés era o mesmo que contemplar um quadro de Van Gogh.

Aquela derrota cruel para os italianos transformou-se em terreno fértil para a propagação da erva daninha do futebol defensivo. Foi o start para décadas de castidade.

Até que Sampaoli desembarcou no Brasil no início de 2019...

Voltemos ao presente.

Ao chegar aqui, o argentino o fez imitando Charles Miller. Veio com uma bola debaixo do braço.

Sim, acreditem, Sampaoli nos colocou novamente em contato com nossa velha paixão: a bola. Sim, a bola, que nós, desde criança, a queremos ao nosso lado, não subjugada, mas cúmplice das nossas peraltices desde que acordamos até a hora em que vamos dormir.

Esfera amada, objeto do desejo, que às últimas gerações foi ensinado repugná-la e não a admirá-la. Que passou de objeto de desejo à repulsa. Tudo por causa do ocorrido no Sarriá.

A bola nunca foi nossa inimiga, minha gente. A bola sempre foi nossa amiga, um apêndice do nosso corpo. E foi isso que Sampaoli nos fez ver novamente.

Amar uma bola

Este é o legado que Sampaoli deixa aqui: amar uma bola de futebol.

Os times de Sampaoli (como os de Jorge Jesus, Abel Ferreira, Bielsa, Guardiola, Klopp, Flick, Tuchel) gostam de jogar bola. E jogar bola significa criar; e para se criar é preciso tê-la sob poder. É preciso amar esse objeto redondo do desejo.

Hoje, começamos a ver treinadores brasileiros amando novamente. Vemos a mídia apaixonada.

A história que eu queria contar - e contei - é simples, não é mesmo? Mas, saibam, grandes ensinamentos estão contidos nos aforismos.