Ao assistir partidas da Uefa Champions League e das principais ligas da Europa recentemente, você deve ter notado algo estranho acontecendo enquanto as equipes se preparam para defender uma cobrança de falta perto da grande área.
Talvez, se você estivesse assistindo à derrota do Arsenal por 2 a 1 para o Everton na Premier League no mês passado, por exemplo, você teria notado que Ainsley Maitland-Niles estava literalmente deitado atrás da barreira para bloquear qualquer tentativa de um chute rasteiro de Gylfi Sigurdsson. Ele é o último jogador a colocar seu corpo em risco para frustrar uma potencial cobrança diferente enquanto seus companheiros de equipe na barreira pulam.
A tática defensiva vem ganhando aceitação na Europa desde 2018, quando o meia da Inter de Milão, Marcelo Brozovic, viralizou ao se deitar em campo em uma partida da fase grupos da Champions League 2018-19 contra o Barcelona. Percebendo que Luis Suárez pretendia chutar rasteiro, Brozovic se jogou no chão para formar uma barreira de emergência - para a diversão de Lionel Messi, que assistia ao lado do uruguaio.
🤣 Leo Messi's reaction
— UEFA Champions League (@ChampionsLeague) October 30, 2018
👏 Marcelo Brozović
👀 A unique way to defend a free-kick...#UCL pic.twitter.com/IIYvcNn2Ua
A ideia de Brozovic provou ser bem-sucedida quando o chute rasteiro de Suárez ricocheteou em seu corpo e não chegou perto do alvo. Na verdade, a manobra provou ser tão eficaz que muitos outros jogadores tentaram replicá-la desde então - mas onde começou a manobra inteligente, embora bastante perigosa?
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A prática de formar uma barreira extra se tornou comum pela primeira vez no nível de elite no Brasil, onde os zagueiros tinham que improvisar uma maneira de neutralizar especialistas em bola parada como Ronaldinho, que tinha uma tendência para cobrar faltas rasteiras para pegar goleiros desprevenidos. Ronaldinho teve muito sucesso com suas cobranças rasteiras, incluindo seu gol na Champions League de 2006-07 contra o Werder Bremen.
🇧🇷 Cheeky Ronaldinho free-kick #OTD in 2006 😏#UCL | @10Ronaldinho | @FCBarcelona pic.twitter.com/xf8GTWi427
— UEFA Champions League (@ChampionsLeague) December 5, 2020
Ronaldinho também teve resultados semelhantes no Brasil com o Flamengo, marcando contra o Santos no Campeonato Brasileiro de 2011 - em uma vitória emocionante por 5 a 4 sobre um time que tinha um jovem Neymar - com outra cobrança rasteira.
O meio-campista Lúcio Flávio, ex-jogador do Paraná Clube, foi outro grande nome da bola parada brasileira que rapidamente ganhou a reputação de cobrar faltas rasteiras em situações de bola parada. Depois de ficar sabendo da estratégia, os jogadores adversários começaram a colocar jogadores atrás da barreira. Infelizmente, como demonstrado durante um empate em 2014 contra a Ponte Preta, assim que ele percebeu o que estava acontecendo, Lúcio Flávio voltou às origens e fez o gol com uma falta “clássica”.
A essa altura, a prática havia se tornado frequente no Brasil, e podemos rastrear dados até uma fatídica partida da Série B de 2013, quando o Figueirense recebeu o Palmeiras. Enquanto o especialista Jorge Valdívia estava ocupado avaliando uma bola parada perigosa na entrada da área, todos os outros estavam olhando intrigados enquanto o meia do Figueirense, Ricardinho, se encarregava de reforçar a barreira ao se deitar dela.
“Eu tenho costume de estudar muito antes dos jogos e vi que antes do jogo contra o Palmeiras, o Valdivia tinha cobrado duas faltas por debaixo da barreira”, disse Ricardinho. Eu pensei que a chance do Valdivia fazer isso era alta. Já tinha visto alguém ajoelhar, mas deitar, nunca”.
Na cobrança de falta, Ricardinho disse ao companheiro de equipe Thiego, zagueiro que faleceu depois na queda do avião da Chapecoense em 2016, para pular o mais alto que pudesse, sabendo que a lacuna abaixo dele seria preenchida.
No final, o corajoso esforço de Ricardinho foi em vão, pois Valdivia optou por uma jogada ensaiada que ficou na barreira. O Palmeiras ainda venceu por 3 a 2 com, ironicamente, Valdivia fazendo o gol da vitória. Mesmo assim, Ricardinho voltou ao vestiário e ouviu alguns elogios, incluindo uma ou duas palavras de seu técnico perplexo, Adilson Batista.
“Quando chegamos no vestiário, o Adilson me perguntou: ‘Caramba, por que você não falou isso para mim antes? ’. No vestiário, a galera ficou louca: ‘Caramba, Ricardinho, você foi bem demais’. Na época passou, não deu tanta repercussão, só um pouco aqui em Florianópolis. Mas depois uns anos vi um Instagram de jogadas históricas e tinha mais de 2 milhões de visualizações (risos)”.
Assistindo do banco de reservas, Adilson não estava tão entusiasmado, mas o ex-zagueiro pelo menos apreciou a teoria por trás do posicionamento incomum de Ricardinho, já que testemunhou em primeira mão os chutes de falta rasteiros de Ronaldinho e Lúcio Flávio.
“Eu como defensor já fazia isso: não saltava ou ficava fora da barreira, tirando essa bola que ia no canto do goleiro”, disse o treinador para a ESPN. “Quando vi Lúcio Flávio e Ronaldinho fazendo isso... eles chutavam por baixo desse segundo, terceiro homem da barreira, porque o normal é ele ter que saltar. Você obriga a ter um cara agora ali.
“A do Ronaldinho, ela passou embaixo do segundo homem da barreira. Se você botar uma perna, você tira a bola. Não precisa fazer aquilo. Não precisa ficar deitado daquele jeito. Vai que o cara salta na barreira e caí em cima de quem está ali deitado”.
Ricardinho insiste que já tinha tudo planejado, até tomando providências para que não fosse pisoteado acidentalmente: “Eu fiquei a uma certa distância para não correr o risco de ser pisado por alguém da barreira. O único problema é a mão, porque você precisa esconder bem no corpo para não bater”.
Adilson acredita que o seu jogador não agiu com seriedade: "Foi mais uma brincadeira do Ricardinho”. Mas, brincadeira ou não, uma inovação nasceu no Brasil e inspirou muitos outros jogadores de diversos países.
A travessia do Atlântico pode ser traçada por mais dois brasileiros que atuam na Europa: Marcelo e Philippe Coutinho.
Durante uma partida pelas eliminatórias da Copa do Mundo contra a Argentina em novembro de 2016, Marcelo se agachou atrás da barreira para defender uma cobrança de falta de Messi, prevendo um chute rasteiro do atacante.
Coutinho jogou ao lado de Marcelo pelo Brasil naquele dia e aplicou a mesma técnica de defesa apenas três meses depois durante o jogo do Liverpool na Premier League contra o Tottenham, quando se ajoelhou atrás de sua própria barreira em Anfield, propositalmente fora da vista de Christian Eriksen enquanto o meia dos Spurs se preparava para a cobrança. Qualquer que seja a rota pela qual entrou na Europa, a tendência logo se espalhou pelo continente e agora você pode vê-la implantada com certa frequência.
Juan Mata (24 de maio de 2017)
A técnica já tinha chegado às competições da Uefa antes de Brozovic viralizar. Mata se abaixou e espiou por entre as pernas de seus companheiros do Manchester United enquanto tentava bloquear uma cobrança de falta durante a final da Liga Europa 2017. Observe que o futuro colega de Mata, Donny van de Beek, também está por ali.
Joshua Kimmich (19 de novembro de 2018)
Kimmich, do Bayern Munich, como um dos jovens defensores mais conceituados do futebol mundial, avançou a causa no futebol europeu quando se deitou atrás da barreira na partida da Alemanha durante um jogo da Liga das Nações contra a Holanda.
Pablo Maffeo (16 de janeiro de 2019)
Formado na base do Manchester City, Maffeo obviamente sabe o que está fazendo. No entanto, o Girona foi o único a beneficiar quando viu o seu jovem lateral tentar bloquear fisicamente uma bola parada durante um jogo da segunda divisão espanhola contra a Extremadura.
Leonardo Spinazzola (6 de dezembro de 2019)
O jogo da Série A entre Roma e Inter acabou sem gols, em parte devido ao esforço de Spinazzola. Esta pode ser a primeira vez que a técnica foi vista em um estádio da primeira divisão italiana.
Azer Aliyev (9 de março de 2020)
A viagem da técnica pela Europa está completa. O Campeonato Russo finalmente recebeu seu primeiro reforço por trás da barreira no início de 2020, quando Aliyev assumiu a posição durante um jogo contra o Zenit - e parecia extremamente relaxado ao fazê-lo.
Oliver Torres (24 de setembro de 2020)
Querendo provar sua coragem no grande palco, o meia do Sevilla sabia que os olhos do mundo estavam sobre ele quando ele foi para o chão para frustrar uma bola parada do Bayern durante a final da Supercopa da Uefa. Surpreendentemente, Thomas Muller não parece muito impressionado com todo o esforço.
Neal Maupay (30 de setembro de 2020)
Enfrentando o Manchester United na Copa da Liga Inglesa, o atacante do Brighton se deitou atrás da barreira para fornecer mais proteção ao gol do seu time.
Douglas Costa (17 de outubro de 2020)
Fazendo a sua reestreia na Bundesliga após retornar de empréstimo da Juventus, Douglas Costa provou que os brasileiros ainda são os melhores na técnica.
Antonee Robinson (7 de novembro de 2020)
O lateral-esquerdo americano claramente decidiu se tornar o especialista interno do Fulham, tendo sido visto adotando a posição várias vezes já nesta temporada. O jovem defensor cruzou os braços e fez um bom trabalho como escudo humano contra o West Ham em novembro, depois de ter feito o mesmo em jogos contra West Brom e Newcastle nas últimas semanas.
Brahim Diaz (3 de dezembro de 2020)
Junto com Maffeo, apresentamos aqui mais uma prova de que a técnica é aplicada em jogadores que vêm da base do Man City. Diaz, também formado nas categorias de base do clube inglês, não pensou duas vezes em se agachar atrás da barreira do Milan durante o jogo da Liga Europa contra o Celtic.
Juan Cuadrado (5 de dezembro de 2020)
Enquanto Cristiano Ronaldo é conhecido por subir além dos limites naturais em bolas aéreas, Cuadrado resolveu se deitar na tentativa de frustrar o especialista de bolas paradas do Torino, Ricardo Rodríguez.
Koke (12 de dezembro de 2020)
Normalmente tenaz em quase todas as circunstâncias, o meia do Atlético nunca pareceu tão nervoso quanto na vez em que foi colocado atrás da barreira durante o dérbi de Madri. Infelizmente, com a braçadeira de capitão vem uma grande responsabilidade.
Donny van de Beek (17 de dezembro de 2020)
Van de Beek deve ter ficado se perguntando por que se deu ao trabalho de assinar com o Manchester United, enquanto estava deitado atrás da barreira na partida contra o Sheffield United.
Denis Cherysev (19 de dezembro de 2020)
Cheryshev, do Valencia, parecia estar simplesmente a desfrutar de uma boa e casual descansada no meio do jogo enquanto esperava uma bola parada do Barcelona.
