Chelsea já tentou tirar Henry do Arsenal com valor recorde e usou almoço para sondar estrelas de rival

O Arsenal era tudo que o Chelsea queria ser naquela primavera de 2003. Ainda engatinhando na vida de "novo rico" da Europa, nos primeiros meses nas mãos de Roman Abramovich, o clube de Stamford Bridge olhava o rival do norte de Londres com misto de admiração e inveja, a ponto de cobiçar as estrelas que, meses mais tarde, conquistariam a Premier League de forma invicta.

O desejo de emular o sucesso dos Gunners no futebol inglês ficou bastante claro em um almoço arranjado entre executivos do Chelsea, sem Abramovich, e David Dein, vice-presidente do Arsenal. Foi quando os Blues sondaram a situação de praticamente todo o elenco do rival e ainda sugeriram um valor estratosférico para contratar Thierry Henry, grande estrela daquele time.

Dezessete anos depois, horas antes de mais um Arsenal x Chelsea com transmissão exclusiva da ESPN Brasil e do ESPN App neste sábado, às 14h30 (de Brasília), o ESPN.com.br relembra a história. Ela faz parte do livro "A Liga", escrito pelos jornalistas ingleses Joshua Robinson e Jonathan Clegg e traduzido no Brasil pela editora Versal.

O almoço arranjado entre executivos de Arsenal e Chelsea aconteceu em um restaurante chique na região de Piccadilly, em Londres. Abramovich não foi, mas deixou clara a missão de seus executivos: perguntar – casualmente e sem formalizar qualquer proposta oficial – a situação de praticamente todos os jogadores do esquadrão de Arsene Wenger.

Assim transcorreu o encontro. Sobre o time de Sol Campbell, Patrick Vieira, Robert Pires e Dennis Bergkamp, quase todos os nomes foram jogados à mesa, sempre com respostas negativas de David Dein. "Não, você não pode tê-lo" ou "Ele não está à venda" foram as frases mais ouvidas naquela mesa de canto.

Um jogador, porém, estava "fora da mesa". Era Thierry Henry, craque francês e principal estrela do Arsenal, obviamente alvo de interesse do Chelsea. Os executivos do clube não acabariam aquela refeição sem saber por quanto os Gunners venderiam o camisa 14 e passaram a jogar valores ao vento.

30. 35. 40. 45 milhões de libras esterlinas. Valores absurdos para a época em que o então jogador mais caro do mundo, Zinedine Zidane, custara 46 milhões de libras ao Real Madrid, no verão de 2001. O vice-presidente do Arsenal negou tudo, até que o Chelsea jogou a cartada final.

"Que tal 49,999 milhões".

Tanto dinheiro deixou David Dein boquiaberto, em silêncio. Inconformado com a soma, que era 35% do valor que Abramovich pagara para comprar o Chelsea inteiro meses antes, o cartola do Arsenal perguntou: "Por que você não comprou logo o clube inteiro?".

Foi então que o chefão do Arsenal descobriu que era até a vontade do bilionário russo. Antes de investir no Chelsea, Abramovich encomendou um estudo de um banço da Suíça para descobrir a situação dos principais times da Premier League e saber qual era o melhor negócio. De acordo com o documento, o Arsenal não estava à venda.

Ouvir isso foi demais para David Dein, que, segundo presentes na reunião, esmurrou a mesa tão forte que até derramou sopa em volta. Ele, como vice-presidente do Arsenal, tinha certeza que os donos topariam a venda se houvesse uma proposta, que nunca aconteceu.

Abramovich ainda tentou "roubar" Henry uma última vez, meses depois daquele almoço, mas agora pessoalmente, no camarote da diretoria do Arsenal em Highbury, antes de um clássico entre as equipes pelo Campeonato Inglês. A resposta, novamente, foi não.

Mas havia um jogador que o Arsenal estava disposto a negociar com o Chelsea: Francis Jeffers, atacante de 22 anos que lhe custou 15 milhões de euros, pagos ao Everton. Ele jamais teve a carreira que Wenger imaginava e acabou a vida de jogador com passagens por nanicos como Newcastle Jets (Austrália), Motherwell (Escócia), Floriana (Malta) e Accrington Stanley (terceira divisão inglesa).

Mas este foi o Chelsea que não quis saber.

Meses depois do encontro, Henry conduziu o Arsenal à maior campanha de sua história, conquistando a Premier League sem nenhuma derrota. Foi o último título inglês dos Gunners e de Wenger, ainda que o técnico tenha ficado no cargo até 2018. A partir da temporada 2004-2005, já com José Mourinho, o Chelsea assumiu o protagonismo e passou a colecionar troféus, não tão frequentes nos últimos anos no Emirates Stadium.