Quando deixou a França, por sugestão de Michel Platini, Eric Cantona não tinha Manchester em mente. A cidade do clube em que ele se tornou um semideus, aliás, foi o terceiro destino do francês na margem "de lá" do Canal da Mancha.
Neste domingo, Cantona, verá Leeds United e Manchester United, seus dois ex-times e rivais históricos, duelarem na Premier League pela primeira vez desde 21 de fevereiro de 2004. Naquele ano, eles empataram em 1 a 1 na campanha que derrubaria os Whites para a Championship e os colocaria numa espiral de insucessos.
A ESPN e o ESPN App transmitem o jogo ao vivo, direto de Old Traford, a partir das 13h15, neste domingo (20). O ESPN.com.br faz o acompanhamento em Tempo Real de lances e gols.
Assim como no Manchester United, Cantona foi adorado pela torcida no curto período em que vestiu o branco do Leeds, na metade final da temporada 1991-92, e na metade inicial da seguinte.
Mas foi mesmo nos Red Devils, sob Alex Ferguson, que o atacante ascendeu ao Olimpo futebolístico e saiu de um rodapé para os lugares de maior destaque na história recente do futebol de clubes. E sua ida para o clube em que se consagrou aconteceu por causa de dois telefonemas, além de incluir uma mentira revelada há pouco tempo.
Cantona ajudou o Manchester United a encerrar 26 anos de jejum de conquistas no Campeonato Inglês da 1ª divisão, justamente no ano em que ele se converteu na Premier League, mudando seu patamar.
Se é verdade que Cantona foi salvo pelos Red Devils, que lhe deram um porto seguro e uma torcida para chamar de sua, em Old Trafford, também é fato que o francês foi, em campo, a mola propulsora inicial dos períodos de glória do clube.
Valor ridículo
A despeito do moral que tinha com as arquibancadas, o treinador do Leeds na época, Howard Wilkinson, já não era assim tão fã daquele jovem com o mesmo talento para a bola e para a a controvérsia.
Cheios de si pelo título da 1ª divisão de 91-92, os dirigentes do Leeds acataram a posição do técnico e aceitaram que aquele incorrigível francês, por melhor que fosse, não era fundamental para a equipe. Afinal, o Leeds fora campeão com ele chegando só no meio do campeonato na temporada anterior.
Ainda mais porque rumores de que Eric flertava, para ser suave, com esposas de colegas, eram frequentes - em especial com a atriz de TV Leslie Ash, mulher de Lee Chapman, o artilheiro da equipe.
Metódico, o técnico Wilkinson apostava na disciplina dentro do vestiário e num jogo solidário em campo - duas características que não casavam muito bem com Cantona. Que, para piorar, não se esforçava para entender os colegas e se fazer entender.
O francês saiu para o United por um valor declarado ridículo, mesmo para os padrões da época: 1,2 milhão de libras.
O que veio a ser descoberto mais recentemente, em livros como King Eric: Portrait Of The Artist Who Changed English Football ("Rei Eric: Retrato do Artista que Mudou o Futebol Inglês", em tradução livre), de Wayne Barton, é que o valor verdadeiro foi ainda mais irrisório: 1 milhão de libras.
"Oh... Ah... Cantona!"
Cantona já tinha mostrado seu potencial para confusão no futebol francês. Tanto que Bernard Tapie, presidente do Olympique de Marselha, o liberou para o Nimes, seu sexto time, depois de se desentender com ele em 1991.
Esse foi o ano em que Cantona se aposentou pela primeira vez após ser suspenso por dois meses. Na verdade, a suspensão por jogar a bola em um juiz era de quatro jogos. Mas ao ouvir a sentença, o jogador foi no ouvido de cada membro do juri que o condenou para dizer "idiota", tendo a pena aumentada na hora - e se aposentando.
Mas o técnico da seleção da França, nada menos que Michel Platini, adorava Eric - que também o via como mentor.
O treinador sugeriu então que o jovem atacante fosse para o futebol inglês, começar do zero, em vez de parar. E Eric acatou, indo primeiro ao Sheffield, mas sem poder ir ao campo por causa da neve, o que o descontentou muito. Assim, quando o Leeds lhe ofereceu uma vaga, ele logo aceitou.
Na campanha do título, Cantona fez pouco mais que uma participação especial: em 11 jogos, anotou dois gols. Mas a torcida se encantou com aquele jovem alto, forte e brigador de 24 anos, um francês talhado para o futebol inglês.
"Oh... Ah... Cantona", entoavam os torcedores em Elland Road.
Eric começa também a temporada 92-93 pelo Leeds, a primeira Premier League da história, e vai cada vez mais sendo adorado pelos torcedores. Mas, no elenco e nos corredores do clube, o clima não era tão bom.
Rumores quanto ao affair com a esposa de Lee Chapman - e não só com ela - foram ganhando força e desestabilizando o grupo campeão. Justo Chapmam, o único do grupo fluente em francês.
Atuações memoráveis, como um hat-trick sobre o Tottenham em agosto, pela Liga, e outro sobre o Liverpool, na conquista do Community Shield (4-3), a Supercopa da Inglaterra, não bastaram. Tampouco a brilhante atuação pela Uefa Champions League contra o Stuttgart, na vitória por 4 a 1.
"Você pode dizer o que você quiser"
A história da saída de Cantona de Leeds foi contada de muitos modos. Os dois mais notórios envolvem telefonemas.
Na versão anteriormente mais aceita, Alex Ferguson teria ligado para Wilkinson, técnico de Leeds, interessado na contratação de Lee Chapman.
Recebeu um não, mas também um sinal verde por Cantona, por 1,8 milhão de libras.
Na versão mais recente, confirmada pelo diretor do Leeds Bill Fotherby, no livro King Eric, a primeira ligação foi feito por ele para Martin Edwards, diretor em Manchester.
A ideia era tentar a recontratação de Dennis Irwin, jovem promissor que iniciara carreira no Leeds. Edwards disse que não havia hipótese, mas Fotherby insistiu para que ele falasse com Alex Ferguson, técnico do United.
Horas depois, ele retornou oferecendo um jogador que não interessava ao Leeds. E, como quem não queria nada, perguntou: "E o Cantona?"
Fotherby, de bate-pronto, respondeu que não. Mas que conversaria com o técnico Howard Wilkinson, por desencargo de consiciência. E, para seu espanto, Wilkinson decidiu que liberaria o francês.
Edwards, o diretor do Manchester United acreditava ter ganhado a loteria. E quando perguntou a Alex Ferguson se ele queria o jogador, o treinador só faltou dar cambalhotas - o que para um escocês equivale a esboçar um sorriso.
Mas havia a questão do pagamento. Cuja negociação, no livro King Eric, é contada assim pelos personagens que dela fizeram parte:
"Edwards (Manchester): Quanto você quer por ele?
Fotherby (Leeds): 1,6 milhão de libras
Edwards: Isso nós não vamos pagar. Mas, por 1 milhão, eu tiro ele das suas mãos.
Fotherby: Eu não posso aceitar 1 milhão! Eles vão me matar, eu vou ser linchado! Eu não posso aceitar nada menos que 1,2 milhão de libras!
Edwards: Bill, eu te dou 1 milhão.
Fotherby: Bom, e eu posso dizer que foi 1,2 milhão de libras?
Edwards: Você pode dizer o que você quiser", finalizou o dirigente vermelho.
E assim, Cantona foi parar no Manchester United, onde anotou 81 gols e 68 assistências em 180 jogos. Conquistou quatro campeonatos ingleses, duas Copas da Inglaterra e seis Supecopas Inglesas.
Mas em Leeds, onde fez 13 gols em 30 jogos e venceu um Campeonato Inglês - o último conquistado pelo clube, aliás - ele ainda é visto como um traidor.
Guerra dos Tronos
A rivalidade entre Leeds e Manchester é mais antiga que o futebol, e remonta ao século XV.
Nessa época, a Casa de York (rosa branca em seu brasão de armas) e Casa de Lancaster (rosa vermelha) duelaram pelo trono inglês na Guerra das Rosas.
O confronto de mais de 30 anose terminou com um casamento entre Henrique VII, um Lancaster, e Elizabeth de York. A união das duas casas deu origem a Casa de Tudor. Que, numa dessas voltas que o sangue real dá, viria também a ocupar justamente o trono francês algum tempo depois.
A rixa entre as cidades voltou a ganhar força durante a Revolução Industrial , cresceu com o surgimento e o recrudescimento do futebol e atingiu seu ápice nos anos 1970, com o hooliganismo.
A despeito dos muitos anos que o Leeds passou longe da elite, a rivalidade entre os dois Uniteds ainda é muito grande.
Assim, a transferência de Cantona veio só colocar pimenta num caldo que já vinha entornando há séculos.
Mas uma pimenta das mais picantes.
