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Ex-Grêmio foi de vender churrasco em ponto de ônibus à Champions League após quase largar carreira

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Torcida do Ferencvaros lota estádio e faz festa incrível em comemoração de título (0:08)

Clube foi campeão na Hungria e a torcida usou sinalizadores para comemorar - via @scespn (0:08)

Meia do Ferencváros-HUN, que enfrentará contra o Molde-NOR nesta terça-feira (29) valendo vaga na fase de grupos da Champions League, Isael Barbosa não poderia imaginar que um dia teria a chance de jogar o maior torneio de clubes do mundo.

Enquanto vendia à noite os churrasquinhos feitos pela própria mãe em um ponto de ônibus no Jardim Damasceno, zona Norte de São Paulo, o adolescente tinha o futebol como um sonho distante.

“No começo, eu tinha vergonha para caramba de vender, mas precisava ajudar em casa. Eu era uma criança muito tímida, mas isso me ajudou a perder a timidez”, disse ao ESPN.com.br.

Enquanto a carreira não decolou, ele ajudou o pai em um bar e trabalhou como servente de pedreiro aos finais de semana. Além disso, fez bico em uma gráfica do pai de um amigo como entregador.

Morador de uma comunidade, Isael começou no futsal antes de ir para times amadores no campo por conselho de um tio. O meia atuou pelo Matsubara-PR por sete meses, mas foi dispensado. Depois, defendeu o Arapongas-PR, pelo qual chegou a jogar profissionalmente por pouco tempo.

“Decidi ir embora porque não estava recebendo salário. Ainda passei pela Portuguesa Londrinense-PR antes de jogar a Copa São Paulo de 2007 pelo União Rondonópolis-MT”, recordou.

No Grêmio

Com o destaque na fase de grupos da competição, ele foi cobiçado por Corinthians e Grêmio, mas optou pelo clube gaúcho.

“Meu tio falou para eu ir para o Sul porque se ficasse em São Paulo poderia me desfocar”, recordou.

Em 2008, porém, Isael não foi chamado para o Torneio de Dossena, na Itália, e foi treinar separado do restante do elenco sub-20. Faltavam apenas quatro meses para o fim de contrato.

“Era meu último ano de juniores e queria ir embora porque não estava jogando. Um dia, fui chamado para completar os treinos dos profissionais. O [técnico] Celso Roth gostou de mim, passei a ficar com o time de cima e renovei meu contrato por mais três anos”, contou.

Apesar de receber muita confiança do treinador, Isael não entrava em campo. A situação piorou quando Roth foi demitido, já que o meia foi afastado do time.

“Já estava procurando outro clube, mas chegou o Paulo Autuori e minha vida mudou. Ele me colocou para treinar e para jogar contra o Sport, na Ilha do Retiro. Entrei no intervalo na vaga do Douglas Costa”, afirmou.

Ao chegar a Porto Alegre, soube que o time rubro-negro queria contratá-lo. “Queria sair e ter mais chances de jogar, mas o Autuori não queria me liberar.”

Isael jogou mais uma partida pelo Grêmio antes de ser emprestado por um ano para o Sport.

“Não me arrependo de ter saído, mas se tivesse ficado teria tido mais oportunidades e teria trabalhado mais tempo com o Autuori, que é o melhor treinador que já tive”, contou.

Queria largar o futebol

Apesar de ter sido campeão do Pernambucano em 2010, o meia não teve muitas chances na Ilha do Retiro. Logo em seguida, passou seis meses na segunda divisão turca, mas retornou ao Brasil por não receber salários.

“Quando passou três meses que estava treinando afastado no Grêmio, eu falei para a minha esposa: ‘Vou pegar o que a gente têm e montar um bar. No final de semana vou jogar amador e desistir do futebol’. Ela falou: ‘Você está louco? Ainda tem mais dois anos de contrato.’ Eu respondi que não adiantava nada porque estava treinando por conta [própria]”, desabafou.

Pouco antes de largar tudo, ele assinou contrato com o Coritiba por meio de uma indicação de um grande amigo: o lateral-direito Jonas. Como o elenco estava fechado, ele foi emprestado ao Fortaleza.

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#10yearschallenge

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“O clube não vinha bem e joguei fora de posição. O treinador não foi legal comigo quando a minha esposa estava grávida e eu fui jogar o Paulistão de 2012 pelo São Caetano”, disse.

Com o destaque na equipe do ABC, ele foi comprado pelo Nacional, de Portugal.

“Eu brinquei com o presidente do Nacional dizendo que seria vendido em seis meses. Ele riu e falou que eu iria cumprir o contrato. Joguei apenas 14 partidas e fui para o Krasnodar [da Rússia] no meio de 2013”, falou.

Isael jogou ao lado de vários jogadores da seleção russa, mas presenciou alguns casos de racismo.

“Foi uma experiência bacana, mas o idioma e a cultura são muito diferentes. Uma vizinha não entrava no elevador comigo, mas nunca deixei isso me afetar.”

Ídolo no Cazaquistão

Em 2014, Isael deixou o Krasnodar e foi indicado pelo técnico Vladimir Weiss para o Kairat, do Cazaquistão. Apesar de sua família ser contra a mudança, o meia aceitou o desafio.

“Quando cheguei ao clube, o presidente me falou: ‘Eu não queria você aqui. Não gosto de brasileiros porque vocês têm a fama de não gostarem de trabalhar’. Respondi que comigo seria diferent.e”

Em cinco temporadas na equipe, Isael venceu duas vezes a Copa do Cazaquistão e a Supercopa.

“O Kairat mudou a minha vida e fiz uma história muito legal. Chegamos a jogar eliminatórias da Liga Europa e atuei com o Arshavin e o Tymoshchuk.”

Mesmo com as diferenças culturais, o meia adorou morar no país muçulmano. “Uma vez um policial me parou na rua e perguntou se as minhas tatuagens não saíam. Ninguém tinha isso lá”, recordou.

Além disso, virou ídolo do Kairat e amigo do presidente até hoje. “Quando fui embora, o pessoal até chorou”, contou.

No time húngaro

Em 2018, Isael saiu do Kairat e chegou a conversar com algumas equipes, mas não fechou negócio. Nisso, recebeu uma oferta do Ferencváros, maior clube da Hungria, que empolgou sua esposa e o fez mudar de ideia. Depois de pegar informações sobre a equipe, ele foi fechar acordo.

“Quando cheguei ao país já estava no jornal que eu era jogador do Ferencváros (risos). Minha esposa falou para eu ir para Hungria porque eles me queriam muito”, contou.

Em dois dias, o brasileiro assinou o contrato e passou a jogar pelo clube húngaro.

“É uma loucura! Temos torcedores em todo o país e sempre jogamos com estádio lotado. Sou reconhecido nas ruas. É um clube bem organizado e está crescendo muito. Estou muito feliz” contou.

Logo na primeira temporada, Isael ajudou o Ferencváros a vencer o Campeonato Húngaro pela 30ª vez na história.

“Em frente ao nosso estádio tem uma estátua. Toda vez que ganhamos um título temos que ir até lá, colocar a faixa de campeão e tirar uma foto com ela.”

Agora, o brasileiro vive a expectativa de levar o clube húngaro para a fase de grupos da Champions pela primeira vez em 25 anos.

“Fui levar meu filho ao futebol, e o pai de um dos meninos me disse: ‘Vocês estão próximos de fazer história. Eu fui num jogo da Champions em 95 e será uma honra ver o jogo com meu filho’ Isso nos dá um ânimo a mais.”

No jogo de ida, o Ferencváros empatou fora de casa com o Molde, da Noruega, por 3 a 3.

“A expectativa está gigante e todo mundo fica ansioso! Falta só um jogo e está todo mundo animado. É o jogo do ano! Se a gente se classificar não quero bem ver a festa que farão”, finalizou.