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Keno, do Atlético-MG, disputava até seis jogos por fim de semana na várzea antes de virar profissional

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Keno comemora vitória e hat-trick contra o Atlético-GO e valoriza trabalho de Sampaoli (0:41)

Pela 11ª rodada do Campeonato Brasileiro, o Atlético-GO e Atlético-MG fizeram uma partida alucinante em Goiânia. Após o apito final, o Galo saiu vencedor por 4 a 3 (0:41)

Eleito o melhor jogador da 11ª rodada do Campeonato Brasileiro pelo Prêmio ESPN Bola de Prata Sportingbet, Keno não teve um começo de carreira convencional. Autor de três gols na vitória de virada por 4 a 3 do Atlético-MG sobre o Atlético-GO. o atacante demorou para fazer sucesso no futebol.

Durante a adolescência, o baiano teve que correr muito atrás da bola no futebol de várzea para se virar atrás de um dinheirinho salvador.

"Sou de Salvador e tive uma infância muito humilde. Só estudava antes de jogar bola, mas comecei tarde profissionalmente. Eu jogava em escolinhas e em campeonatos amadores na Bahia", lembra Keno, em entrevista ao ESPN.com.br, em 2016.

"Eu jogava em muitos times, todo final de semana atuava em um jogo e logo saía para outro. Fazia uma média de três jogos no sábado e mais três no domingo. Era complicado (risos)", conta o ponteiro.

Os jogos pagavam valores entre R$ 50 e R$ 80. Ou seja: caso desse a sorte de fazer seis partidas pelo valor máximo, ele faturava suados R$ 480 por fim de semana.

"Eu tenho muito fôlego até hoje, mas nessa época era demais (risos). Ainda era garoto e precisava tirar uma grana pra semana e não incomodar meu pai e minha mãe. E eu também precisava correr atrás do meu sonho, que sempre foi ser jogador", relata.

Como costuma ocorrer na várzea, Keno passou por muitas aventuras.

"Rapaz, passei muito apuro nessas partidas. Briga dentro de campo tinha direto, muita confusão, ainda mais em final de campeonato. Também tinha muito pênalti esquisito! Várias vezes quanto jogávamos em outro bairro precisávamos ficar quietos mesmo quando o juiz nos garfava, senão a gente apanhava feio (risos)", diverte-se.

No futebol amador, o atacante fez muitos amigos, alguns que também viraram atletas profissioonais, como o meia Gabriel, ex-Bahia e Flamengo.

"Joguei muito com o Gabriel em Salvador, temos uma história parecida. Foi curioso que tantos anos depois a gente se encontrou no Santa x Flamengo e eu falei bastante com ele. Lembramos muita história do tempo de várzea, foi engraçado", suspira, saudoso.

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Sem categoria de base

Foi na infância que Keno ganhou o apelido que acabaria virando seu nome de boleiro. "Foi meu irmão quem me apelidou assim, porque eu era pequeno, aí para me zoar ele colocou Keno por eu ser baixinho (risos). Pegou e nunca mais saiu. Todo mundo me conhece assim, acho que nem sabem que eu chamo Marcos (risos)! Mas eu gosto muito. E ninguém nunca achou que eu era japonês por esse nome também (risos)", gargalha.

Jogador de várzea, o velocista não chegou a fazer categoria de base em nenhum clube, o que criou dificuldades em seu início de estrada no profissionalismo.

"Geralmente os jogadores começam adolescentes, mas, como eu nunca fiz base, sempre precisei correr atrás para aprender fundamentos que eu não dominava", conta.

A primeira experiência em um time de verdade veio só aos 22 anos.

"Fui indicado por um amigo para ir para Sergipe e jogar pelo América de Propriá, daí botei as caras e fui. Por causa da idade, claro que foi mais complicado, mas tinha muita força de vontade desde moleque. Aquilo era meu sonho e eu não ia parar até conseguir. Quem quer algo, precisa dar tudo de si e ir até o fim. Eu não fui muito bem lá, mas foi meu início. Graças a Deus nunca cheguei a ficar desempregado. No fim, consegui virar jogador", relembra.

A experiência seguinte foi no Botafogo-BA, clube no qual experimentou as agruras de jogar nas equipes das divisões inferiores do futebol brasileiro, apesar de ter sido campeão estadual da 2ª divisão, conquistando o acesso à elite do Baianão. "Esse meu começo foi difícil demais. Eram clubes sem muita condição. Mas quem quer vencer na vida não pode pensar assim, tem que ir pra cima e correr atrás. Consegui tudo com muito esforço para melhorar minha situação e da minha família. E sempre ouvindo que eu não tinha feito base, aí sempre rolava aquela desconfiança comigo", diz.

Mais andanças e o estrelato aos 27

As coisas começaram a melhorar de vez para Keno quando ele foi para o Águia de Marabá, do Pará, em 2013. Foi ali que seu futebol de fato despertou.

"No Águia, fiz uma boa Série C, marquei gols, o que chamou a atenção do Paraná. Aí lá em Curitiba eu estourei e as coisas começaram a dar muito certo pra mim", lembra.

Destaque na Série B de 2014 pelo Paraná, ele acertou com o São José-RS, que o repassou na sequência ao Santa Cruz. Com um bom início no Arruda, ele foi em seguida por empréstimo ao Atlas-MEX.

"Lá foi complicado. No meu time não tinha nenhum jogador brasileiro, e se adaptar sem ter um amigo pra falar português é difícil, ainda mais que eu tive bastante dificuldade pra aprender espanhol. Fiquei só seis meses, nem fui muito tempo, mas tive que superar, levantar a cabeça e tocar em frente", afirma. Na sequência, passagem sem brilho pela Ponte Preta e, no início de 2016, o retorno ao Santa Cruz. Desta vez, ele explodiu no Recife, conquistando o Campeonato Pernambucano e a Copa do Nordeste jogando o fino da bola. No Brasileirão, manteve o nível, apesar do rebaixamento do Santa Cruz, e foi disputado ferozmente por Palmeiras, Flamengo e Santos.

"Não tive muitas oportunidades na Ponte, mas aí apareceu o Santa, que abriu as portas pra mim”, cita Keno, que fez, além de uma ótima parceria no ataque, amizade com o centroavante Grafite.

“Pra mim, foi uma escola ser parceiro de ataque dele, e fizemos uma ótima amizade", revela.

Em 2017, Keno foi para o Palmeiras, no qual ficou até 2018. Depois de passar por Pyramids e Al-Jazira, ele foi comprado pelo Atlético-MG neste ano.


Reportagem publicada em 24/11/2016