<
>

Cruzeiro: como um suco de graviola fez Daniel Guedes ficar quase um ano sem jogar

O Cruzeiro visita o CSA neste sábado, às 21h (de Brasília), pela Série B do Campeonato Brasileiro, em um jogo que será especial para Daniel Guedes. O lateral foi relacionado para uma partida pela primeira vez depois de quase um ano, somando exatos 362 dias sem atuar.

Alagoas poderá, portanto, ser palco de um grande recomeço depois de o capítulo mais dramático da carreira do jogador de 22 anos, ex-Santos e Goiás, acontecer também justamente ali. Tudo por conta de um suco de graviola.

Parece bobagem, mas foi uma substância presente na fruta, a higenamine, que fez o hoje atleta do Cruzeiro ser flagrado em um exame antidoping e acabar suspenso preventivamente. Desde então, Guedes iniciou uma longa jornada para provar a inocência e voltar aos campos.

“Foi um período difícil, conturbado, complicado, doloroso... O que eu e minha família passamos, nunca imaginávamos. A gente imagina as piores coisas, lesões, de joelho, que é comum como atleta... Agora, ser acusado de uma coisa tão grave, da forma como eu fui, não passava pela cabeça de ninguém”, contou ele, em entrevista exclusiva aos canais ESPN.

O lateral estava no Goiás, emprestado, e viajou para encarar o CSA pela Série A do Brasileirão de 2019. Foram 90 minutos em campo e um cartão amarelo na derrota por 1 a 0. Exatamente um mês depois daquela partida, ele receberia a notícia do teste positivo para higenamine.

A primeira reação ao tomar conhecimento da notificação da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem foi de susto. Em seguida, pediu contraprova, contratou um advogado particular – Bichara Neto – e procurou o nutrólogo que o acompanhava – Eduardo Rauen.

Rauen atende uma centena de atletas e já trabalhou no Corinthians, entre 2015 e 2016, com o elenco à época comandado por Tite. Ele sempre teve certeza da inocência de Guedes e iniciou uma grande pesquisa para entender como a substância proibida foi parar no corpo do lateral.

Após descartar a presença da higenamine em qualquer suplemento nutricional, o nutrólogo questionou Guedes sobre um creme cosmético e a fruta-do-conde. Ambos continham a substância. O jogador descartou tanto o uso do produto, quando o consumo do fruto. Mas lembrou do suco de graviola na concentração em Alagoas... O que acendeu o alerta de Rauen.

“Fui estudar. Não havia publicação sobre higenamine na graviola. Mas ela é da mesma família da fruta-do-conde, pode ser que tenha”, contou ele, também aos canais ESPN.

Enquanto isso, em julho de 2019, a contraprova de Guedes também retornou positiva. Em setembro, ele foi suspenso preventivamente, depois de atuar pela última vez em uma vitória do Goiás sobre o Corinthians. Foi o início da jornada até ser inocentado em agosto de 2020.

Tudo, porém, sem muito apoio do Goiás. “Não me deram muito respaldo, não contribuíram em nada. Todos os gastos que eu tive saíram do meu bolso, e não foram baixos. Tive um prejuízo considerável. Nem o suplemento que eles me deram tiveram a capacidade de pagar.”

Depois da descoberta sobre a presença da higenamine na graviola, Guedes e sua defesa precisaram aprofundar os estudos para concluir se, de fato, era possível que o suco fosse responsável pelo doping. Foi assim que a tese foi aceita no processo.

“Cada conclusão que a gente chegava, era um gasto que aumentava. Ao mesmo tempo que para mim era bom, era ruim, porque estava sozinho, ninguém me ajudava. Tive que contratar um bioquímico, 11 voluntários, com mesmo peso e idade, para fazer teste. Fizemos, deu positivo e foi constatado higenamine em quem comeu a fruta”, lembra ele.

No último dia 12 de agosto, Guedes, enfim, foi inocentado, liberado para voltar a trabalhar. “O que mais me deixa triste é que fiquei 11 meses afastado, prejudicado em todos sentidos, psicologicamente, fisicamente, financeiramente, emocionalmente... E depois fui absolvido. Um atleta é inocente, mas fica 11 meses sem jogar. Fica por isso mesmo”, lamenta.

Ver essa foto no Instagram

Completo hoje 325 dias sem fazer o que mais gosto, sendo proibido de trabalhar e, até então, sem saber quando poderia voltar. Até hoje. Desde o dia 24 de setembro de 2019 convivo com uma notícia que abalou a mim e minha família profundamente. Um exame antidoping que fiz quando defendia o Goiás teve resultado positivo, em miligramas, para a substância higenamine. Proibida na prática do esporte e presente em suplementos ilícitos, dos quais nunca fiz uso. Após longa investigação, por conta própria e de iniciativa do meu advogado (Dr. Bichara), descobrimos que a substância veio de um suco de graviola, descendente da Fruta do Conde, o qual tomei em Alagoas, quando lá estive para jogar pelo Goiás. Mesmo sabendo que fui injustiçado, tive que esperar prazos, julgamentos, defesa, pacientemente, e tinha a missão de nunca abaixar a cabeça e tranquilizar minha família. Com a graça de Deus, tive minha inocência comprovada no dia de hoje e a liberação para voltar a trabalhar e fazer o que mais gosto. Foi difícil, só Deus e meus familiares sabem o que passei, mas não tenho mais tempo para me lamentar ou chorar. Esse período já passou. É hora de voltar e recuperar o tempo perdido. Nunca desistam! Deus sabe o que faz e sua hora sempre chega. Acreditem.

Uma publicação compartilhada por Daniel Guedes (@daniel_guedes) em

No período afastado, Guedes chegou a temer pela carreira. “Eu fiquei, claro, com medo, e várias coisas passam pela cabeça. Na audiência de primeira instância, abriram falando em quatro anos de suspensão. Minha alma saiu do corpo. Tudo passa pela cabeça.”

“Seria o suficiente para me jogarem lá embaixo, extremamente esquecido. Tive medo, sim, do pior acontecer. Não encerrar a carreira, ainda ia conseguir voltar a jogar, mas fiquei com medo de não ter a oportunidade de experimentar outros clubes gigantes como é o Cruzeiro, Santos e o Goiás que também passei”, conta ele, agora ansioso para voltar aos gramados.

“É um recomeço, uma nova oportunidade. Um clube extremamente vitorioso, que a todos anos está conquistando títulos, que revela muitos jogadores. Estrutura extraordinária.”

À disposição do técnico Ney Franco, Guedes ainda não sabe se fará, de fato, sua reestreia contra o CSA. Mas tem uma certeza: suco de graviola nunca mais. “Isso não passa nem perto mais da minha família, da minha casa, nem de ninguém.”