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Neymar: Primeiro técnico no profissional revela arrependimento em relação ao craque e crava: 'Ganso era tão fora de série quanto ele'

Ainda bem que a final da Champions League, entre PSG e Bayern de Munique, na cidade de Lisboa, vai acontecer às 16h de domingo (23).

Porque às 11h, Real Brasília e Brasiliense, do técnico Márcio Fernandes, fazem o jogo de volta da semifinal do Candangão, no Mané Garrincha.

“Tiveram que mudar o horário da Champions para a gente não roubar a audiência deles”, brinca, às gargalhadas, o técnico que levou Neymar do Sub-15 do Santos direto para uma Copa São Paulo e, posteriormente, o promoveu aos profissionais.

A despeito da participação tão decisiva na vida do camisa 10 do Paris Saint-Germain e da seleção brasileira, Fernandes tem um arrependimento: não ter sido o primeiro a colocar Neymar em campo como profissional.

Teve a faca e o queijo na mão em 12 de fevereiro. Mas o Peixe perdia para o Marília por 1 a 0, no Bento de Abreu. Vinha de goleada para o Palmeiras e estava caindo para 8º no Campeonato Paulista.

"Eu ia colocar o Neymar, estava com isso na cabeça", conta. "Mas o clima não estava bom", relembra-se. "Então, eu coloquei o Bolaños", conta, num tom conformado.

"Hoje, me arrependo. Deveria ter colocado", assume. Foi o último jogo de Márcio no comando do Santos. Ele se demitiu após o apito final.

Vágner Mancini, que assumiu o time e o levou até um surpreendente vice-campeonato, foi o responsável pela estreia do jogador mais caro da história do futebol, pouco menos de um mês depois, em 7 de março.

Com minutos em campo, o garoto acertou a trave do goleiro do Oeste - ninguém menos que Weverton, do Palmeiras, colega de Neymar no Ouro Olímpico no Rio, em 2016.

A ESPN fará uma cobertura especial da final da Champions League. O ESPN.com.br acompanhará a decisão em tempo real já às 14h, com muito conteúdo, estatísticas, vídeos e lance a lance e, pós-jogo, as repercussões pelo mundo e as entrevistas; na ESPN Brasil, o Futebol no Mundo começa às 15h, com informações, probabilidades, escalações e como os times devem jogar; após o apito final, é hora do SportsCenter, com análises, polêmicas e opiniões.

Convencer Marcelo Teixeira

O menino Ney estreou na Copa São Paulo de 2008, contra o Barra do Garças, pelo Santos, em substituição a um também jovem Paulo Henrique Ganso.

Por mais que o tempo passe, Márcio Fernandes não se esquece dos primeiros passes e passos do camisa 10 do PSG. E do que disse a ele antes de mandá-lo a campo pela primeira vez.

“Tenha calma, vai ganhando confiança durante o jogo, vai tocando. E quando sentir que está bem, faça o que você vem treinando”, contou ele ao ESPN.com.br.

“Mas a primeira bola que ele pegou, ele já meteu um lançamento no meio da zaga, de chaleira. Aí, falar o quê? Melhor deixar ele à vontade”, relembra-se Márcio, com um sorriso no rosto.

Fernandes insistiu com o então presidente do clube, Marcelo Teixeira, para que Neymar integrasse o time santista na Copinha, apesar de ele ter apenas 15 anos.

“Houve divergências, mas a gente convenceu o presidente de que era necessário queimar etapas, e de que Neymar tinha treinar não só com uma, mas com duas categorias acima”, conta o treinador. “E ele entendeu”.

O único pedido de Teixeira para o técnico era garantir a integridade física do jogador, para que ele não tivesse uma lesão. Com 15 anos, ele era até cinco anos mais novo que os adversários. E seu biotipo muito franzino não ajudava em nada.

Até por isso, Fernandes não o colocou nem no banco na sexta partida do time na competição, nas quartas de final, contra o Internacional. Chovia demais, o campo do Nacional, na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo, estava completamente alagado.

“E, àquela altura, a torcida já o conhecia, gritava seu nome, pedia sua entrada. E, naquele jogo, não tinha como ele entrar. O campo era muito pesado e o jogo estava muito brusco. Mas a torcida ia pedir”, relembra-se.

“A gente fez 3 a 1 e permitiu o empate. Acabamos perdendo nos pênaltis por 6 a 5. E aí, todo mundo caiu em cima de mim, o presidente veio reclamar que eu não tinha levado o Neymar”, relembra-se o treinador, que hoje ri da situação.

Menino Ney e Neymar Pai

Foi fácil perceber que Neymar era fora de série, conta Márcio. Não apenas para a comissão técnica, mas também para os próprios colegas do Sub-20.

“Os jogadores respeitavam muito o Neymar, e ele tinha um carinho muito grande de todos os jogadores, mesmo eles sabendo que, àquela altura, ele já tinha um salário muito maior que todos os nosso titulares. Porque ele tinha um contrato, tinha multa”, conta Márcio.

“Todos o abraçavam, porque realmente viam que o Neymar era diferente e tinha muito carisma”, afirma.

Segundo o técnico, Neymar gostava muito de treinar e se aperfeiçoar. Ficava depois do horário corrigindo deficiências e aprimorando qualidades.

Fernandes também exalta Neymar Pai. Garante que, mesmo sabendo ser pai de uma joia, ele nunca foi exigir nada para o filho.

“Ele ia conversar com a gente sim, mas para perguntar quais eram as deficiências do Neymar, o que ele poderia fazer para ajudar a melhorar”, conta.

“É muito comum pai de jogador nessa idade ir reclamar, porque acha que o filho tem que ser titular, tem que jogar e tal. Ele não”, diz.

Ter um menino tão jovem no time dos juniores mudou um pouco a rotina de trabalho da categoria.

“Ele não podia sair do hotel sozinho, por exemplo”, lembra Mauro.

“Nessa Copinha, ficamos hospedados em um hotel na Santa Ifigênia (Centro de São Paulo), perto da Cracolândia, lugar perigoso. Então, se o pai ou alguém da família vinha falar com ele, entregar alguma coisa, alguém da comissão técnica tinha de acompanhá-lo e levá-lo até o familiar, esperar o tempo que fosse, e levá-lo de volta ao hotel”, conta.

Subida ao profissional

Após a Copinha, Neymar seguiu nos juniores sob o comando de Márcio Fernandes, mas não por muito tempo.

No mesmo ano, o técnico foi apontado para dirigir os profissionais do clube, em substituição justamente a Cuca, que é o atual comandante do time.

Lá, Fernandes se encontrou com Ganso, que já havia subido. No Brasileiro, evitou o rebaixamento do clube.

E, para o Paulista, trouxe Neymar dos juniores, logo depois da Copa São Paulo de 2009, também disputada pelo atacante.

Melhor do mundo

Fernandes acredita que chegou a hora de Neymar ser apontado melhor do mundo no “Fifa The Best”.

“Se eu disser que imaginava que Neymar seria desse tamanho, estarei mentindo”, diz o técnico.

“Mas sim, dava para ver desde que ele era garoto que ele era um fora da série”, diz ele.

Perguntado se Neymar é o melhor jogador que passou pelas suas mãos, ele diz que sim, principalmente com base no que ele se tornou hoje, até onde chegou. Mas faz algumas ressalvas.

“O Ganso era tão fora de série quanto ele, mas foi atrapalhado por duas lesões de ligamento cruzado. Só aí, perdeu oito meses em cada”, diz.

“Outro também que era fenomenal era o Robinho. Não à toa, ele é o ídolo do Neymar, ele mesmo sempre diz isso”, diz Márcio.

Distância

Márcio se encontrou com Neymar poucas vezes depois de deixar o Santos

Em 2010, o viu quando Ney esteve no CT do então Red Bull Brasil, em Jarinu, para gravar um comercial. Márcio era o técnico do clube da multinacional austríaca.

O último encontro foi como rival, trabalhando como técnico do Comercial. No Paulista de 2011, tanto Neymar quanto Ganso foram até o banco de reservas abraçar o técnico.

“Foi uma homenagem deles para mim. Os repórteres todos vieram falar comigo depois. Houve até um que disse que era a ‘criatura encontrando seu criador’”, conta o técnico,

Márcio não se ressente de não falar mais com o jogador. Ao contrário, sente orgulho de ter trabaçhado com ele e guarda com carinho um presente que ganhou: um relógio exclusivo, de poucas unidades, feito pela Nike para presentear o jogador.

“É um relógio vermelho, bonito. Eu uso muito pouco”, diz o técnico.

“Ter participado dessa formação do Neymar é muito gratificante. E vê-lo assim lutando para ser o melhor do mundo e consequentemente, conquistar o título da Champions é um prazer redobrado”, afirma.

“Vejo que Neymar mudou bastante neste ano. Parou de reclamar quando sofre falta. Porque ele ficou com fama de cai-cai, mesmo as pessoas vendo que fazem muitas faltas duras nele”, afirma.

“Neymar está mais focado, centrado. Tirou do comportamento dele aquilo que as pessoas não gostam e assim, a percepção das pessoas sobre ele também mudou”, diz.

“Se o PSG for campeão, acho difícil que ele não seja escolhido o melhor do mundo”, diz.

Com a autoridades de ser alguém que o conhece desde o tempo em que a expressão “Menino Ney”, longe de ser pejorativa ou meme, era simplesmente a realidade.