Ronald Koeman chega ao Barcelona para fazer uma revolução e ganhar títulos. Tudo ao mesmo tempo. É o que quer a diretoria, cuja inspiração vem da própria história blaugrana. Foi assim no final dos anos 80, quando Johan Cruyff assumiu e transformou o Barça. O atual treinador, anunciado nesta quarta-feira (19), carrega consigo uma experiência igual, porém com final frustrante.
Koeman foi chamado para treinar o Valencia em novembro de 2007, substituindo Óscar Fernández. Estava com 44 anos e já tinha na bagagem passagens por Ajax, Benfica e PSV, além de ter sido assistente de Louis van Gaal no Barcelona e ter dirigido o Barça B.
O pedido que ouviu da diretoria foi similar ao de agora: renovar elenco, se preciso afastar jogadores que já não podiam mais acrescentar e dar resultados. No caso do Valencia, bastaria ficar entre os cinco primeiros de LaLiga, como em 2006/07.
O clube tinha obtido o quarto lugar na temporada anterior, assegurando vaga na Champions League. Mas quando Koeman assumiu tudo estava por ruir. A equipe tinha três pontos em três rodadas na fase de grupos do torneio europeu e acabou eliminada ao perder mais um jogo e empatar outros dois. No Campeonato Espanhol, despencou do quarto lugar para o décimo.
Eram claras as dificuldades do holandês em lidar com o elenco. Ele chegou a admitir em entrevista coletiva após poucos dias de trabalho que sentia que estava perdendo o controle do elenco e tomaria medidas. Tomou.
Afastou três veteranos: o goleiro Santiago Cañizares, 38, o volante David Albelda, 30, e o meia Miguel Ángel Angulo, 30.
A decisão gerou revolta imediata dos empresários dos jogadores, que acusaram o holandês de não tratar bem seus clientes e reclamaram de, apesar da decisão, o clube não rescindir contrato, pagando a multa e os deixando livre para decidir o futuro.
“Estou arrasado porque isso era a última coisa que eu podia esperar depois de tudo o que conquistei nesse clube. Não explicaram nada. Koeman apenas disse que não tinha confiança na minha liderança, dentro ou fora de campo, e eu respondo que após 20 dias no comando ele ainda não me conhecia muito bem”, disse Albelda, capitão do time, sobre o afastamento na época.
Apesar da pressão, o treinador mostrou se irredutível a voltar atrás, avisando que, enquanto fosse o comandante, o trio não atuaria mais. Mas a situação não mudou. O holandês acabou perdendo o apoio conforme os resultados em LaLiga não melhoravam.
Se ele pudesse se defender, certamente apontaria que conduziu o Valencia ao título da Copa do Rei, taça que a equipe não via desde 1999, tendo comandando todos os jogos, da estreia até a final.
A campanha foi marcante por ter deixado para trás Atlético de Madrid nas quartas e Barcelona na semifinal, embora nem tanto pela final contra o Getafe. Com o título, apesar da vibração, ele não virou herói dos torcedores.
A preocupação era com as posições cada vez mais baixas do time no Campeonato Espanhol. Uma derrota de goleada para o Athletic Bilbao por 5 a 1 escancarou o pior. O time ficou na 15ª colocação, a dois pontos da zona de rebaixamento.
Assim, Koeman foi demitido em 21 de abril de 2008.
Apesar de dar chance para jovens, como Éver Banega, Hedwiges Maduro e Juan Mata, ficou marcado pelo péssimo relacionamento com o elenco. Tanto que uma das primeiras medidas de seu sucessor, Salvador González Marco, o Voro, foi reintegrar os afastados.
“Em nenhum momento o clube me disse se eles tinham de jogar ou não, me deram liberdade total. Eles são jogadores como os outros e estarão na equipe se considerá-los em condições, embora estejam há quatro meses sem atuar”, justificou Voro, na época.
Para os que duvidam de que Koeman realmente teve problemas com o elenco, os jogadores daquele grupo não fizeram questão alguma de evitar expor o que pensavam do técnico, mesmo anos depois.
“Em cinco meses, destroçou a equipe e não teve coragem de se despedir no vestiário e permitir que as coisas fossem ditas na cara. Demonstrou ser mau treinador e tem pouco de boa pessoa”, disse Joaquín Sánchez, meia daquele time, nesta quarta ao “Marca”.
“Tudo o que importava para ele era ter cinco ou sete garrafas de vinho para o jantar”, acrescentou.
Quem também reprovou o trabalho de Koeman foi Vicente Rodríguez, que jogou 25 vezes e fez dois gols naquela temporada.
"Sempre jogamos melhor no 4-4-2 ou no 4-4-1-1, mas Koeman veio e mudou. Não funcionou, mas ele continuou insistindo. Fiquei feliz que ele saiu porque seu tratamento foi lamentável”, disse Rodríguez.
Mas, de todas as declarações, nenhuma poderia ser mais forte e irônica do que a dada pelo capitão David Albelda anos depois, em 2014. Ainda magoado com o holandês, ele postou o seguinte no Twitter:
“Hoje vejo gente falar de Koeman. Oxalá algum dia ele treine o Barcelona. Assim LaLiga ficaria mais equilibrada”, em ironia que não necessita de maiores explicações.
Bom, o dia de Koeman treinar o Barcelona chegou. Na equipe blaugrana, até onde se sabe, pegará um vestiário em ruínas, dado o péssimo relacionamento do antecessor, Quique Setién, especialmente com Lionel Messi, e muitos veteranos.
Os nomes são de craques como Luís Suárez, 33, Gerard Piqué, 33, Arturo Vidal, 33, Sergio Busquets, 32, Ivan Rakitic, 32, Jordi Alba, 31, entre outros. Todos esses integram uma possível lista de saída, embora é esperado que o técnico faça sua própria avaliação.
Mesmo Messi, aos 33, já não é mais um garoto, mas é impossível pensar no Barcelona sem ele, embora ele tenha mais um ano de contrato e não tem falado sobre renovar o vínculo. E a Inter de Milão está na espreita.
Caberá a Koeman, e somente a ele, mostrar que a diretoria acertou, contrariando a lista de críticos, que não é nada pequena. No entanto, se ele falhar, sabe que a culpa será colocada exclusivamente em si, como no Valencia.
