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Champions: Por que Lyon, rival do Manchester City, foi apontado como exemplo no livro 'Soccernomics'

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Depay, Bruno Guimarães e brasileiros do Lyon fazem festa no ônibus depois de eliminarem a Juventus na Champions (0:13)

Lyon perdeu para a Juve, mas eliminou a campeã italiana na Champions (0:13)

Neste sábado, o Lyon enfrenta o Manchester City, às 16h (de Brasília), em jogo único pelas quartas da Champions League. Após eliminar a Juventus nas oitavas, a equipe francesa quer seguir sendo a grande surpresa da competição. Mas se hoje o clube é considerado "zebra", em um passado recente já chegou a ser citado como exemplo em livro premiado de economia.

Em 2009, o jornalista Simon Kuper, do jornal Financial Times, e o professor de economia Stefan Szymanski, da Universidade de Michigan, lançaram "Soccernomics". A obra foi amplamente premiada, tornou-se um best seller internacional e é até hoje considerado uma "bíblia" para entender como o dinheiro e a matemática "explicam" tanto sucesso quanto fracasso no futebol.

De lá para cá, muita coisa mudou no mundo da "economia da bola", principalmente com a chegada do dinheiro do Oriente Médio a clubes como o City e o Paris Saint-Germain. Mas, na época da publicação do livro, o Lyon era a grande potência da França e um dos times mais fortes da Europa, fazendo ótimas campanhas na Champions e batendo até o Real Madrid com frequência.

E foi justamente o modo do presidente Jean-Michel Aulas de gerir a equipe que chamou atenção de Kuper e Szymanski e fez com que os autores dedicassem aos Gonnes boa parte de um capítulo inteiro da obra.

No texto, os autores contam como Aulas, um empresário do ramo do software que está à frente do Lyon até hoje, comprou uma equipe endividada e estagnada na 2ª divisão francesa e a transformou numa potência, que enfileirou sete títulos seguidos da Ligue 1 entre 2001 e 2008.

Para Kuper e Szymanski, o time soube explorar como poucos na história a "magia" do mercado da bola, revelando talentos ou comprando atletas promissores (de no máximo 22 anos) por preços baixos em mercados não tão inflacionados e depois vendendo "craques" por valores absurdos na primeira oportunidade possível, reforçando depois o elenco com mais jogadores jovens, e assim sucessivamente.

O modelo do Lyon foi parcialmente adaptado de alguns bons exemplos da história, como o Nottingham Forest bicampeão europeu de Brian Clough e o Arsenal "invencível" de Arsène Wenger. No entanto, o sistema foi melhor adaptado por Jean-Michel Aulas para atender o futebol moderno, o que trouxe muito sucesso esportivo e financeiro ao seu clube.

"Qualquer mercado ineficiente, como o do futebol, é uma oportunidade para alguém. Se a maioria dos clubes gosta de desperdiçar seu orçamento de transferências, então um clube que gaste bem esse dinheiro irá se destacar", escreveram Kuper e Szymanski, em trecho do livro.

"Ao longo da história, alguns bons compradores se destacaram no mercado da bola: Brian Clough e seu eterno assistente Peter Taylor, em seus anos no Nottingham Forest, Wenger durante sua primeira década no Arsenal, e o mais misterioso de todos: o Lyon, um time que saiu da obscuridade do futebol distrital para impôr uma verdadeira 'ditadura' no futebol francês", seguiram.

"Entre 2001 e 2008, o Lyon ganhou o Francês sete vezes seguidas. Essa era acabou, e o clube cometeu alguns erros desde então, já que tentou e não conseguiu competir no mesmo nível de equipes com orçamentos muito maiores, como Real Madrid e Manchester United. O Lyon acabou caindo na tentação de pagar valores altos por supostas 'estrelas', como o lento armador Yoann Gourcoff. No entanto, seus sete anos de domínio seguem sendo um feito extraordinário", dissertaram.

"No futebol, o caminho para as vitórias muitas vezes é pagar salários astronômicos. Mas alguns clubes, como o Lyon, encontraram uma rota diferente, explorando os 'segredos' do mercado de transferências", completaram.

Durante sua época de domínio, o Lyon se destacou pelas vendas do atacante Karim Benzema e do volante Mahamadou Diarra ao Real Madrid, do meia Florent Malouda e do volante Michael Essien ao Chelsea e do lateral Éric Abidal ao Barcelona, só para citar alguns exemplos mais conhecidos, todos por valores monstruosos.

Com o ótimo dinheiro dessas transferências, conseguiu manter Juninho Pernambucano ad eternum na equipe e contratar bons reforços para manter seu domínio por vários anos.

Após o PSG passar a ser comandado pelo dinheiro do Oriente Médio, os Gonnes viram sua força diminuir drasticamente. No entanto, Jean-Michel Aulas segue sabendo explorar o mercado da bola como poucos, principalmente na hora de vender os principais destaques do elenco.

Nas últimas temporadas, por exemplo, atletas como Alexandre Lacazette, Tanguy Ndombélé, Ferland Mendy, Corentin Tolisso, Samuel Umtiti, Nabil Fekir, Hugo Lloris e Miralem Pjanic foram vendidos por quantias altíssimas a gigantes da Premier League, de LaLiga, da Bundesliga e da Serie A italiana.

O dinheiro dessa vendas não fizeram com que o Lyon pudesse se manter competitivo na França e na Europa. No entanto, permitiu a Jean-Michel Aulas a realização de um sonho que ele tinha desde o meio dos anos 2000: deixar o antiquado estádio Gerland e construir uma das melhores arenas da Europa.

Isso ocorreu em 2016, quando foi inaugurado o Groupama Stadium, dos subúrbios de Lyon. O local, que tem capacidade para 59.186 torcedores, foi uma das sedes da Eurocopa-2016 e tem todas as notas máximas da Uefa.

Se o Lyon conseguirá voltar ao seus tempos áureos, é difícil dizer, principalmente tendo que competir contra o dinheiro "infinito" do Catar que abastece o Paris Saint-Germain. No entanto, Aulas e seus atletas querem mostrar agora contra o Manchester City, outra equipe dominada pelo dinheiro árabe, que o modelo "Soccernomics" ainda tem seu valor.