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Cruzeiro estreia na Série B contra Botafogo-SP, clube que é S/A e possível modelo do futuro celeste

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Gestor do Botafogo-SP diz que se Cruzeiro e Botafogo quiserem ter 'viabilidade', transformação em S/A é a solução (1:00)

Adalberto Baptista exaltou que a tendência é que brigas políticas acabem em empresas (1:00)

Neste sábado, o Cruzeiro inicia sua caminhada na Série B contra o Botafogo-SP, às 19h (de Brasília), no Mineirão.

Curiosamente, o rival da estreia na Segundona é um time que adotou o modelo que pode vir a ser usado pela Raposa no futuro: a S/A.

Neste tipo de gestão, o departamento de futebol é assumido por uma empresa, que fica responsável por tocar o dia a dia da equipe tecnica, operacional e financeiramente.

Enquanto isso, a "outra parte" da agremiação (no caso do Cruzeiro, o "Esporte Clube") fica responsável por tentar resolver as dívidas acumuladas ao longo dos anos.

E apesar do presidente Sérgio Santos Rodrigues não ver o modelo S/A como ideal para os celestes, ele pode ser a única solução viável para um futuro próximo.

Afinal, a Raposa tem mais de R$ 800 milhões em dívidas acumuladas, um passivo trabalhista enorme e dívidas tributárias quase na casa dos R$ 330 milhões.

As contas do clube são diariamente afetadas por bloqueios judiciais e dívidas de urgência, e os atrasos resultam em cobranças na Justiça e na Fifa.

Por conta de um não-pagamento ao Al-Wahda, dos Emirados Árabes, aliás, o Cruzeiro iniciará a Série B com -6 pontos por determinação da entidade máxima do futebol.

Além disso, o próprio presidente celeste admitiu publicamente que os problemas acumulados podem até resultar em rebaixamento para a Série C.

No Rio de Janeiro, o Botafogo caminha para se tornar uma S/A, o que também pode acabar sendo opção para a Raposa mais adiante.

Mas, afinal, como funciona exatamente esse modelo? Veja abaixo o caso do Botafogo de Ribeirão Preto.

COMO FUNCIONA A S/A DO BOTAFOGO-SP

Em 14 de maio de 2018, quando estava na Série C do Brasileiro, a diretoria do Botafogo-SP aprovou a transformação do futebol do clube em S/A.

A partir daí, a agremiação foi dividida em duas partes, cada uma com fontes de receita e responsabilidades diferentes.

O Botafogo Futebol S/A passou a ser comandado pela Trex Holding, empresa cujo dono é Adalberto Baptista, ex-diretor de futebol do São Paulo.

Baptista fez um aporte inicial de R$ 8 milhões e tornou-se "dono" dos registros da equipe tricolor na Federação Paulista de Futebol (FPF) e na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Desta forma, ele se tornou responsável por montar os times que disputam os campeonatos destas federações e arcar com os salários.

Além disso, ele passou a ter direito de exploração da maior parte do Estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto (veja mais abaixo o que foi feito).

As responsabilidades da S/A são, além do futebol, o investimento em estrutura, como campos de treinamento e salas de fisioterapia, e os cuidados com as categorias de base.

A outra parte do time é o Botafogo FC, que tem como responsabilidade principal o pagamento das dívidas trabalhistas acumuladas ao longo dos mais de 100 anos de história da equipe.

As fontes de receita do FC são: a loja oficial do clube (Pantera Shop), a escolinha de futebol e as cadeiras cativas e camarotes.

Já a S/A fica com todas as outras receitas, como direitos de TV, premiações, patrocínio, sócio-torcedor, bilheteria e exploração do estádio.

As decisões da agremiação são tomadas por um Conselho de Administração, que é formado por sete pessoas.

São dois diretores da Trex Holding, Adalberto Baptista e Luiz Fernando Baptista Ramos, e três do Botafogo FC: José Hermenegildo, Luiz Pereira e Virgílio Pires Martins (os dois últimos foram presidentes da equipe).

Cada uma das partes teve direito a indicar mais um para seu grupo: a S/A escolheu Gustavo Vieira de Oliveira, ex-dirigente do São Paulo, e o FC foi com o economista José Rita Moreira.

É no Conselho de Administração que são traçadas as diretrizes do clube e o planejamento do futebol para a temporada.

ESTÁ DANDO CERTO?

Em pouco mais de dois anos de gestão da S/A, houve muitos altos e baixos em Ribeirão Preto.

De início, os novos gestores do clube se moveram rápido e anunciaram uma série de acordos que deixaram os torcedores empolgados.

De pelotão, chegaram patrocinador máster, acordo de material esportivo com a Kappa e reforma de um dos setores do estádio Santa Cruz, que virou uma arena multiuso para 15 mil pessoas, com cadeiras para os dias de jogos e palco para shows (havia inclusive dois eventos marcados para março e maio, que acabaram cancelados pela pandemia de coronavírus).

Esse novo local, inclusive, teve até naming rights vendido, e passou se chamar Arena Eurobike. Ela tem espaço para dois bares, lounge VIP e camarotes.

A área externa também ganhou área para food trucks e estacionamento para 700 carros.

De todas as receitas da Arena Eurobike, 60% vão para a S/A, com o Botafogo FC ficando com 40%.

No futebol, os resultados até agora ficaram muito aquém do desejado.

Desde a "revolução", o único momento de comemoração em campo foi o acesso da Série C para a B, no final de 2018.

Após isso, o Botafogo disputou dois péssimos Campeonatos Paulistas, lutando contra rebaixamento em 2019 e 2020, e fez uma Série B mediana em 2019 (apesar de ter chegado a liderar).

O departamento de futebol do clube, comandado por Léo Franco (irmão do técnico Ney Franco) vem sendo muito criticado pelas diversas contratações de baixo nível.

Desde que assumiu a equipe, a S/A assinou com quase 80 jogadores em dois anos, um número absurdo.

Alguns desses reforços tiveram passagens relâmpago, como o meia Marcus Vinícius, que atuou por 18 minutos em Ribeirão Preto antes de ser devolvido ao Botafogo carioca.

Por outro lado, os salários e obrigações trabalhistas foram mantidos em dia pela Trex Holding, mesmo durante a paralisação do futebol pela pandemia de COVID-19.

Em nota, a S/A fez mea culpa pelos erros no futebol e justificou que a gestão do Botafogo de Ribeirão Preto ainda é "embrionária" e que está "passando por ajustes".

A empresa promete, no entanto, que, a longo prazo, o projeto trará equilíbrio financeiro, estabilidade e "resultados técnicos expressivos".

"O corpo diretivo do Botafogo S/A considera que o projeto - ainda embrionário de uma forma geral no Brasil - está passando por ajustes, que são refletidos dentro e fora de campo. Mas também entendem que ele é de longo prazo e mira justamente um equilíbrio total das dívidas, passando a ser autossustentável e encontrando uma estabilidade jamais vista em clubes do mesmo porte. O objetivo, claro, é que isso seja revertido em resultados técnicos expressivos, justamente o que fez o Botafogo-SP se tornar uma instituição centenária e respeitada em todo o país", afirmou.

Fato é que, financeiramente, o projeto até agora é deficitário.

Em maio, uma auditoria terceirizada realizada na Botafogo S/A e publicada no site da Federação Paulista apontou que a empresa teve prejuízo de R$ 15,5 milhões em 18 meses de funcionamento.

Com isso, a dívida do Pantera, que era de R$ 15 milhões à época da criação da S/A, saltou para R$ 45 milhões, já que foram somados também R$ 15 milhões de não pagamentos das parcelas do refinanciamento fiscal com o Governo Federal (Reffis) e do Ato Trabalhista, que diz respeito às ações contra o Botafogo na Justiça do Trabalho, além de um processo judicial antigo com o Coritiba.

Não à toa, há oposição à Trex Holding nos bastidores da equipe tricolor, e um grupo de conselheiros do Botafogo FC já tentou até romper o contrato com a empresa através da Justiça.

Os insatisfeitos reclamam que os contratos firmados com a S/A são lesivos ao clube, e estão "sufocando" financeiramente a equipe, colocando em risco seu futuro.

"A criação da socieda anônima decorreu de uma série de contratos, e alguns destes não respeitaram o Estatuto Social do clube, além de serem lesivos a instituição, provocando um sufocamento financeiro a instituição centenária", afirma Vinicius Fonseca, advogado especialista em direito esportivo e conselheiro do Botafogo FC.

"Não bastasse isso, a S/A vem apresentando uma péssima gestão, prova disso é que as dívidas após a criação da mesma aumentaram consideravelmente. Além de não respeitarem os poderes do clube. As péssimas campanhas em dos Estaduais seguidos são o reflexo de uma S/A maculada e mal gerida", completa.

Adalberto Baptista, por sua vez, discorda.

"Acho que essas pessoas que ficam falando (mal da S/A) aos poucos vão falando para o vazio e vão perdendo ouvidos para essas querelas que não levam a nada. A longo prazo, (a S/A) é o que garante a sustentabilidade do clube", assegura.