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Palmeiras: Patrick de Paula leva história que a várzea uniu, e futebol profissional separou, à final do Paulista

Nesta quarta-feira, enquanto Patrick de Paula estiver entrando em campo para enfrentar o Corinthians na final do Campeonato Paulista, Daniel Gonçalves deverá estar voltando para casa, vindo do condomínio onde trabalha na equipe de limpeza.

Os dois são ex-colegas no Cara Virada Futebol Arte, time do bairro de Santa Margarida, Zona Oeste do Rio. E foram selecionados por Juarez Fischer, profissional do departamento de captação de talentos do Palmeiras, o popular “olheiro”, para fazerem testes no clube paulista, em 2016.

Mas um mal-entendido, até hoje não muito bem explicado, fez com que os destinos de ambos tomassem rumos completamente distintos.

Escolhidos

Foi em 17 de setembro de 2016, ainda na comemoração do título do Amador da Capital sub-17, que a notícia veio: Pelé e Bolt, camisas 5 e 7 do Cara Virada, haviam sido selecionados pelo Palmeiras para um período de testes.

(O nome do time faz alusão ao famoso “passe do Ronaldinho”: olha pra um lado, toca para o outro. )

Os dois campeões, em cujas certidões de nascimento constam, respectivamente, Patrick Carreiro de Paula e Daniel dos Santos Gonçalves, haviam brilhado, uma semana antes, na semifinal, contra o Rogi-Mirim.

Patrick anotou dois gols, chegando a 18, e se tornou artilheiro máximo da competição promovida pela Ferj, a Federação Carioca. Daniel, por sua vez, sofreu três pênaltis naquele jogo.

“Só pararam eles na porrada”, recorda-se Carlos Felipe, o Zanata, um dos fundadores do time.

Porrada também foi o que teve na arquibancada. A súmula relata uma briga das torcidas durante a parada técnica do segundo tempo. E uma outra confusão, aos 41, também da segunda etapa, depois da expulsão de Alan, do Rogi-Mirim.

“Um homem com uma camisa da diretoria do Cara Virada F.A., que estava na arquibancada, gritou ‘Traficante, marginal”, revoltando a comissão técnica do Rogi-Mirim. O homem se recusou a se identificar e o jogo prosseguiu”, relatou o árbitro Allan de Oliveira Pinheiro, da Ferj, no documento.

A final, uma semana depois, foi disputada no lendário estádio da Rua Bariri, campo do Olaria. O título do Cara Virada, contra o Cometa, veio na disputa por pênaltis (6 a 5). A dupla passou em branco no tempo normal (2 a 2).

“Na final, eles nem se destacaram tanto. Mas não era a primeira vez que eu via um jogo deles, eu já tinha decidido”, disse Fischer.

Zanata jura que Patrick sempre foi volante. Fischer diz que ele jogou como meia naqueles jogos.

Quem esclarece a confusão é Arlen Pereira, também da diretoria do Cara Virada, que se revelará uma das peças mais importantes da história do atual camisa 5 palmeirense, ainda nesse texto.

“O meio-campo era Dudu, Piu e Patrick. O Dudu mais fixo, mas o Piu e o Patrick se revezavam e trocavam de posição o tempo todo”, diz ele. “

Eu já dizia que ele ia ser o Pogba brasileiro naquela época”, afirma.

“Muitos o viam como um meia porque ele fazia muito gol. Mas ele protegia a zaga, buscava a bola no pé dos zagueiros”, diz Zanata.

“Deixa ele começar a chutar com mais confiança no Palmeiras, bater todas as faltas, para você ver”, diz Arlen.

“Um jogador chegar a um clube, sem categoria de base, e com essa qualidade, não é comum”, diz Juarez. "O desempenho dele hoje não me surpreende nem um pouco. E ele ainda tem mais potencial para mostrar", diz

Mas o trabalho de descoberta do olheiro quase acabou indo todo por água abaixo.

De Madrugada

Zanata e Arlen Pereira estavam entre os que avisaram aos garotos e suas famílias sobre a boa notícia.

“Eles queriam que os meninos já fossem para São Paulo no sábado mesmo. Daí, a gente falou para esperar para eles pelo menos comemorarem um dia”, contou ele.

“Conseguimos organizar para que o Sidney - também do Cara Virada - os acompanhasse a São Paulo”, conta Arlen.

“A gente estava em uma festa, era mais ou menos 14h. Meus pais aceitaram na hora, já começamos a arrumar as minhas coisas para a viagem”, recorda-se Daniel. “Viajamos de madrugada, de ônibus”.

“O Sidney ainda ficou uns dias a mais em São Paulo, para que os meninos o procurassem, se algo não desse certo”, diz Zanata.

Mas deu. Ambos fizeram testes na categoria sub-17 e foram aprovados. Com a idade estourando, contudo, iriam para o sub-20.

Nos treinos, na Academia de Futebol, ambos agradaram a comissão técnica.

“Eles tinham alguns déficits de treinamento e na parte tática, que foram trabalhados”, diz Juarez, do Palmeiras.

“Passamos um mês, mais ou menos, em São Paulo”, conta Daniel. E, nesse momento da história, as versões variam.

“Eles testaram no sub-17, mas iam ficar no sub-20. Só que, depois de um tempo, o sub-20 foi para a Holanda, para um campeonato que os meninos não iam jogar. E eles ficaram sozinhos no CT", diz Arlen.

"O técnico pediu para eles esperarem. Mas, sozinhos, eles ficaram com saudade da família, das namoradinhas. E decidiram, voltar”, diz ele.

Daniel diz que não.

“Fomos dispensados por um auxiliar do sub-17, um gringo”, diz o garoto.

O fato é que, quando os dois bateram de novo em Santa Margarida, ninguém no Cara Virada entendeu. E decidiram ligar para o Palmeiras.

“Era um mal-entendido”, conta Zanata. “O Sidney ligou e esclareceu tudo.”

“Mas daí, disseram que só o Patrick poderia voltar”, relembra-se ele.

Arlen fez questão de voltar à casa de Daniel - agora, para dar a má notícia.

“Eu que fui dizer que ele ia para o Palmeiras. Então, era eu quem também tinha que dizer que ele não ia mais”, relembra-se.

“Na hora, eu comecei a chorar. Até hoje, eu fico muito triste", diz Daniel.

"Foi uma decisão deles. Na época, eles precisavam mais de um volante do que de um atacante”, crê Daniel.

Arlen tem outra teoria.

“Eu acho que foi uma espécie de punição, pelos meninos terem voltado. Futebol é assim. Mas eles não iam abrir mão do Patrick. Porque aí, eles iriam estar punindo o Palmeiras”, diz Arlen.

Não sobrava dinheiro no bairro de Santa Margarida. E uma coleta entre os amigos ia ser necessária para embarcar o garoto e um acompanhante de novo.

“Aqui é periferia. Não voa bala ou tem tiroteio, como o Luxemburgo falou (em entrevista depois de Palmeiras x Ponte Preta, decidida por Patrick com um chute de fora da área). Só que é uma área pobre”, diz Arlen.

Para sorte de Patrick, Arlen Pereira era torcedor do Flamengo.

Rubro-negro ajudou

O Fla ia ser mandante no Pacaembu, na capital paulista, contra o Santa Cruz. O jogo, pelo Campeonato Brasileiro, era no fim de semana seguinte, em 16 de outubro.

“Eu decidi levar. Daí, podia aproveitar e ver o jogo com meu filho”, conta Arlen. Naquele ano, aliás, o Flamengo foi um dos principais adversários justamente do Palmeiras no campeonato.

“Eu me lembro de quando a gente chegou ao hotel. Era um Íbis, ali na região da Avenida Pacaembu mesmo, a uns cinco, dez minutos do estádio”, relembra-se Arlen.

“O Patrick se jogou na cama, ficou maravilhado com o hotel. E era um quarto simples, daqueles de hotel para viagem curta. Mas ele achou muito luxuoso, ficou impressionado”, diz.

“Na hora, eu falei: bota tua cabeça no lugar, que isso aqui vai ser bobeira pra tu, quando tu jogar no Palmeiras. Qualquer hotel que você for com o time vai ser melhor que esse”, lembra-se.

Na segunda-feira, antes de voltar a Santa Margarida, Arlen deixou Patrick na Academia de Futebol.

“Vou te dizer, do fundo do coração, que eu preferia ter deixado ele no Flamengo”, ri Arlen.

O Caso de Patrick de Paula é raro.

“Ele chegou no limite da idade do que dava para trabalhar”, diz Juarez Fischer.

“Ficou dois anos no banco, até se firmar como titular. Só foi deslanchar no fim do segundo ano dele”, diz.

Com o tempo, Patrick realmente explodiu no Palmeiras. A torcida começou a ver os lances na internet, e assistir aos jogos dele na televisão.

O moleque era bom, a torcida sacou, e começou a pedir que ele jogasse. Dentro do clube, também surgia o burburinho e o famoso chavão: "O menino está pedindo passagem..."

Até que, em janeiro deste ano, ele foi promovido.

E o Daniel?

Conformado com a dispensa, Daniel voltou a jogar bola.

Disputou a Taça das Favelas pelo Mamaô, clube que representa o bairro no torneio, onde Patrick também havia jogado no passado.

Muitos acreditam, aliás, que foi a partir desse torneio que Patrick foi para o Alviverde.

“Não, eu o vi no Amador da Capital”, confirma Juarez Fischer.

(Vale aqui a nota: Mamaô, além de ser o nome do time, é o apelido de Carlos Roberto Silva, pai de ninguém menos que o atacante Deyverson, também do bairro e, ainda, do Palmeiras.)

“O Mamaô é o responsável pelo time de Santa Margarida na Taça das Favelas”, explica Arlen.

“O Patrick jogou no Mamaô porque é o time reúne os melhores do bairro para esse campeonato. Mas foi no Cara Virada, dos 13 aos 17, que ele realmente jogou e treinou. Foi lá que ele entrou e de lá que ele saiu”, garante Zanata.

A negativa no Palmeiras frustrou Daniel, que foi desanimando. Ainda jogava aqui e ali, e continuava mostrando qualidade. Mas algo havia se perdido na capital paulista.

Ele foi chamado para treinar no sub-20 do Resende, em 2018. Foram até a semifinal do Estadual, caindo para o Fluminense.

Mas Daniel não seguiu no time. E foi percebendo que o sonho estava ficando complicado.

O rápido atacante jogou ainda por um outro clube de nome semelhante, o Esporte Resende, mas também não se firmou.

“Por escolha minha, parei de tentar”, diz ele, que já há um ano e meio não atua por um clube.

A vontade, porém, ainda resiste.

“Tô tentando botar lá na frente, esse sonho. Eu até acredito que pode dar tempo ainda. O Zanata me chamou para jogar no Cara Virada de novo, tô pensando em ir”, disse o atacante, que completa 21 anos em dezembro e procura manter a forma para um eventual chamado.

"Não é mais um objetivo. Mas é claro que eu gostaria".

Distância

A amizade de Daniel com Patrick de Paula não acabou. Mas tem sido difícil falar com o amigo. Eles já não são tão próximos como na época em que ambos ainda sonhavam com o estrelato.

“Ele ficou de me trazer uma camisa, e até agora, nada”, conta Daniel.

“Quando o Pelé vem para cá, fica pouco tempo, só com a família. Às vezes, a gente se fala. Tenho ele no Instagram e no Facebook”, conta.

O contato de Zanata e Arlen, do Cara Virada, com o camisa 5 do Palmeiras, também é pouco.

“Falei com ele antes do Campeonato Paulista. Até perguntei: Tu tá de mal comigo? Nem me liga mais...”, conta Zanata.

“Faz tempo que não falo, só vejo pela TV”, diz Arlen.

Nem Zanata, nem Arlen e nem o Cara Virada ganharam um real com a ida de Patrick de Paula para o Palmeiras.

“Aqui, a gente só perde dinheiro. A gente faz porque é apaixonado por futebol", diz Arlen, entre risos.

“Nosso objetivo nunca foi revelar e vender jogador”, diz Zanata. “Todo mundo fala: ‘Mas vocês não podem deixar os meninos saírem de graça’. Mas não é por dinheiro que cuidamos do time”, diz.

Há, atualmente, três jogadores do Cara Virada treinando no Fluminense. "Fenômenos", jura Zanata.

“A gente quer é fazer do futebol um caminho para a molecada do bairro”, completa.

“É claro que se o Patrick, ou qualquer outro, quiser nos ajudar, será mais do que bem-vindo”, diz.

Patrick de Paula tem contrato com o Palmeiras até 2024.

“Pode acreditar: vai longe”, diz o olheiro Juarez Fischer.

Pra bem longe do subúrbio carioca, onde o olheiro foi buscá-lo, há quase quatro anos.

E onde Daniel Bolt toca sua vida.