O Burnley perdeu de goleada na última segunda-feira, mas o clube ficou mais envergonhado com o que aconteceu fora de campo.
Enquanto o time (com 10 jogadores ingleses brancos escalados) ajoelhava no gramado em homenagem ao movimento "Black Lives Matter", um avião sobrevoou o estádio do Manchester City com uma faixa dizendo “Vidas brancas importam - Burnley”.
Ainda com a bola rolando pela Premier League, o clube do Norte publicou uma nota extensa condenando o ato. E ainda no gramado o capitão Ben Mee, antes de falar de futebol, fez questão de dizer: “Estamos envergonhados em ver isso. Essa mensagem perdeu todo o ponto do que estamos tentando registrar, e essas pessoas precisam entrar no século XXI, se educarem como muitos de nós. Foi feito por uma pequena minoria que não nos representa”.
Para algumas pessoas, ainda é preciso soletrar o que parece óbvio. Pep Guardiola resumiu bem: “É claro que vidas brancas importam, mas vidas negras também, e às vezes não parece. Temos que lutar contra as injustiças pelo mundo”.
O técnico do Burnley, Sean Dyche, disse que é inaceitável o que aconteceu e pediu para não julgarem o clube ou a cidade pelo ato.
Nesta terça, a polícia de Lancashire (região onde se localiza a cidade de Burnley) afirmou que vai investigar o caso da faixa. "Nós estamos fazendo pesquisas para estabelecer as circunstâncias completas ao redor deste incidente e então estaremos em posição de fazer uma avaliação se alguma ofensa criminal aconteceu", disse o oficial Russ Procter.
Infelizmente, a faixa no céu de Manchester não é uma grande surpresa.
No dia 13 de junho, grupos de hooligans ligados à extrema-direita foram para Londres “proteger as estátuas” em um protesto em oposição ao "Black Lives Matter". Para evitar confrontos, os organizadores do "Vidas Negras Importam" decidiram cancelar a manifestação do dia. Mesmo assim, 100 pessoas foram presas durante o dia, e os hooligans atacaram a policia.
Essa turma faz parte de um movimento criado em 2017 na Inglaterra - grupos de hooligans racistas que se uniram criando a Football Lads Alliance (depois DFLA) com ligações a vários clubes rivais como Tottenham e West Ham, entre muitos outros.
O movimento começou após atos terroristas em Londres e Manchester e tem um discurso anti-muçulmano, racista e anti-imigração. A Inglaterra luta há muito tempo contra o racismo no futebol, algo que era comum nas arquibancadas nos anos 1980.
Mesmo com punições severas, porém, de vez em quando ele ainda bota a cabeça para fora na Premier League, como nos casos de ofensas a Raheem Sterling em Stamford Bridge, casca de banana jogada em Pierre-Emerick Aubameyang no Tottenham, torcedores do Chelsea no metrô de Paris impedido um negro de entrar no vagão.
Em todos estes casos, os agressores foram identificados e banidos pelos clubes para sempre. Nunca mais poderão oficialmente comprar um ingresso para ver o time jogar.
A extrema-direita tenta se infiltrar ao futebol novamente, mas vale lembrar que também existem muitas torcidas organizadas no Reino Unido que lutam contra o racismo: os Ultras do Celtic - Green Brigade; Aston Villa - Brigada 1874 ultras; Crystal Palace - Holmesdale Fanatics - são algumas delas. Na famosa arquibancada The Kop, em Anfield, sempre vemos a faixa antifacista "NO PASARÁN".
Nas divisões inferiores, vale conferir o trabalho comunitário para ajudar refugiados do Clapton CFC e do Dulwich Hamlet FC.
A Premier League fez várias campanhas como a parceria com a “Kick it Out”, mas a organização antirracista divulgou um aumento de casos de preconceito e discriminação em vários níveis do futebol desde a campanha tóxica e divisória em favor da saída da União Europeia (o famoso Brexit), onde o foco foi imigração.
Infelizmente, o que vemos no futebol é um reflexo da sociedade, onde divisões continuam aumentando por todo o mundo, um problema exacerbado pelas bolhas nas redes sociais com discursos extremistas.
