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Onde a derrota de 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 ainda assombra o Brasil

8 de julho de 2014. Mineirão. Brasil 1, Alemanha 7.

Um dos resultados mais surpreendentes (e que mais deixou gente de queixo caído) na história da Copa do Mundo. Revisitá-lo dentro do Brasil é um ato de coragem - uma campanha totalmente sem fator de bem-estar para a seleção anfitriã.

É um resultado que só pode realmente ser compreendido no contexto da competição. O Brasil entrou no torneio cheio de confiança - o experiente coordenador técnico, Carlos Alberto Parreira, disse que a seleção tinha "uma mão na taça" quando a equipe se reuniu para começar a preparação.

A vitória apertada contra a Croácia pode ser justificada como tensão de estreia. O empate sem gols contra o México realmente complicou as coisas. Talvez a seleção não fosse tão boa quanto todos pensavam? Indo para a fase eliminatória, a vantagem de jogar em casa parecia mais uma desvantagem. O medo de decepcionar a torcida era muito grande. Com Neymar machucado e Thiago Silva suspenso, o colapso emocional foi evidente e doloroso. Até Fernandinho, homem de confiança dos times de Pep Guardiola no Man City, havia se tornado um passivo.

É justo supor que, se as equipes se encontrassem em circunstâncias diferentes, sem as pressões da Copa do Mundo, o placar teria sido diferente. Mas a Alemanha ainda seria a favorita - o time era melhor. Além disso - e esse é o aspecto especialmente preocupante - eles movimentavam a bola com competência, fluidez e até com aquele sentimento de alegria que é característico do futebol brasileiro. Mesmo considerando todas as circunstâncias emocionais em que o jogo foi disputado, havia muito para se digerir após o fim da partida no Mineirão.

É justo argumentar que perder a Copa do Mundo de 1950 em casa foi uma importante experiência de aprendizado. Jogando no antigo sistema 3-2-5, a equipe não teve cobertura defensiva quando mais importava, quando o ponta direita Alcides Ghiggia, do Uruguai, escapou duas vezes, marcando um gol e dando assistência para outro. A resposta foi a criação dos quatro defensores, retirando um jogador extra do ataque e colocando-o no coração da defesa. Isso começou em 1958, quando o Brasil venceu a Copa do Mundo com uma defesa tão forte que não sofreu um único gol até a semifinal.

O que a seleção aprendeu com o desastre de 2014, então?

A resposta inicial foi de negação. Dunga foi nomeado pela segunda vez como técnico da seleção. Ele não tinha nada a oferecer e foi demitido dois anos depois, depois de um início ruim nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018.

O que se viu depois foi um movimento progressivo com a contratação de Tite, que permanece no comando. Ele é o atual treinador brasileiro de destaque em parte devido à sua capacidade de aprender. Ele ficou um tempo afastado para estudar o futebol europeu de alto nível, e especialmente a maneira como equipes como a Alemanha conseguiram criar superioridade numérica na metade do campo adversário.

Muito disso tem a ver com a equipe permanecer compacta, o que exige uma linha defensiva alta. Tite foi um sucesso imediato com o Brasil, transformando uma difícil campanha de eliminatórias em um passeio pelo parque - e sua fluência redescoberta foi consequência de puxar a linha defensiva para marcar mais alto.

Os últimos dois anos, no entanto, não foram tão bons para o técnico do Brasil. Sua equipe não desempenhou aquilo que se esperava dela na Copa de 2018 - apesar de jogar muito melhor do que havia sido quatro anos antes e provavelmente merecer uma chance de ir mais além das quartas de final onde perdeu para a excelente Bélgica. No ano passado, veio o título da Copa América em casa, mas a seleção raramente foi testada e depois ficou cinco partidas sem vencer.

A pausa forçada por conta do coronavírus pode ajudar Tite a voltar aos trilhos. Seria imprudente excluir o Brasil da disputa pela próxima Copa do Mundo - e é impossível imaginá-los entrando em colapso, como fizeram contra os alemães.

Enquanto isso, o futebol de clubes demorou mais para reagir. Por um tempo, pareceu que, enquanto a seleção vencesse a Copa América, tudo estava bem. Foi apenas no segundo semestre do ano passado que algo diferente emergiu. O Flamengo contratou o veterano técnico português Jorge Jesus, que trouxe consigo os métodos do futebol europeu contemporâneo.

Seu time ganhou os títulos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores, jogando de igual para igual contra o Liverpool de Jurgen Klopp no Mundial. Com as linhas unidas, o Flamengo tem uma posse de bola fluida, com trocas de passes rápidas, criando espaço para o talento individual dos atacantes aparecer.

Mas Jorge Jesus teve que cavar fundo para encontrar zagueiros que se encaixassem no seu esquema, jogadores com velocidade e qualidade suficientes para jogar em uma linha alta. Um veio da Espanha, Pablo Marí, que foi para o Arsenal. E seu parceiro, Rodrigo Caio, era visto mais como volante do que zagueiro. O problema - como o técnico do Flamengo tem encontrado este ano na ausência de Mari - é a falta de zagueiros capazes de jogar dessa maneira.

Aqueles com potencial para operar em uma linha alta são rapidamente levados para a Europa. E a maioria dos zagueiros brasileiros é de grandes xerifes sem muita velocidade, que estão lá para cabecear e chutar a bola para longe. Eles são o produto de uma cultura baseada no medo - treinadores de clubes que procuram proteger seus empregos.

Até que isso mude - até o Brasil produzir mais zagueiros que possam fazer parte de uma equipe compacta e fluida -, o 7 a 1 é uma espécie de advertência, além de uma memória dolorosa.