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Hotel barato no Rio, comida terrível e bananas: jornal relembra 'caótica' 1ª Copa da Inglaterra, há 70 anos, no Brasil

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A Inglaterra estreou na Copa do Mundo apenas em 1950, quando Uruguai, duas vezes, e Itália já haviam levantado troféus. Foi no Brasil que os inventores do jogo encararam pela primeira vez a máxima competição de seu esporte. E deu tudo errado em campo - não tendo sido muito melhor fora dele também.

Uma reportagem do Guardian resgatou a aventura que foi a vinda e a passagem dos britânicos pela América do Sul. Da logística ao futebol, os chefes da delegação erraram tudo que puderam, culiminando no que até hoje é considerada a maior vergonha do futebol da Terra da Rainha: a derota por 1 a 0 para os EUA, no Estádio Independência, em Belo Horizonte.

Antes disso, porém, os ingleses viajaram por 31 horas, com paradas em Paris, Lisboa, Dakar, Recife e, enfim, Rio de Janeiro. Uma vez aqui, porque os jogadores chegaram em cima da hora, houve um enorme choque com o calor e a umidade encontrados. Os ingleses foram incluisive proibidos de ir à praia.

A Federação Inglesa, que veio para o Brasil sob críticas por ter se filiado novamente à Fifa, que tinha abandonado em 1928, não fez qualquer trabalho de reconhecimento e nunca tinha visitado o país para averiguar condições, a fim de economizar.

Pior: o hotel Luxor, onde o grupo ficou hospedado, em Copacabana, era péssimo. Não tinha ar condicionado, numa época em que a temperatura na cidade maravilhosa nunca esteve abaixo de 27º C. A comida, repleta de frituras, não era em nada aliada do paladar e dos estômago da delegação.

O time, basicamente, se alimentou de bananas nos primeiros dias, até que a cozinha do hotel atendesse às orientações inglesas.

Após treinarem na sede do Botafogo, os jogadores tiveram como primeiro contato com a Copa na estreia do Brasil contra o México, num Maracanã inaugurado, mas ainda inacabado. Para chegar ao estádio, os jogadores desistiram de seus ônibus e caminharam pelo barro, cimento fresco e arame farpado do canteiro de obras, depois de duas horas de trânsito.

O Brasil vence por 4 a 0, mas os ingleses saem convencidos de que não tem o que temer se o Brasil for o maior obstáculo para a conquista.

No dia seguinte, a vitória por 2 a 0 sobre o Chile, no mesmo estádio, parrece corroborar a tese. A classificação parece certa, ainda mais tendo pela frente, como segundo adversário, os fraquíssimos EUA.

A viagem para Belo Horizonte, onde seria a estreia contra os EUA, é feita de ônibus e descrita como um passeio de montanha-russa. Mas a vitória era dada como barbada contra um time que tinha um apanhado de jogadores de outros esportes, pouca técnica e nada menos que um catcher de beisebol como goleiro.

Nem mesmo os EUA tendo aberto o placar, ainda no primeiro tempo, com Joe Gaetjens, tirou a confiança inglesa. Mas o tempo passa, o nervosismo aumenta e a derrota vem, para festejo brasileiro, que também via nos ingleses os maiores obstáculos: 1 a 0.

Os serviços de telex ingleses, ao receberem a informação, primeiro acreditaram se tratar de erro de datilografia, imaginando que o placar correto seria 1 a 10. Diz a reportagem que, nos EUA, o New York Times julgou o texto recebido como uma bisavó de fake news e se recusou a publicá-lo.

Mas ainda havia um jogo. A vaga não estava perdida.

Na sequência, após o mesmo périplo de volta que foi a ida, vem o confronto com a Espanha, novamente no Maracanã. E mais uma inesperada derrota, por 1 a 0, manda o English Team para casa, literalmente.

Em vez de ficar por aqui e ver o desenrolar do torneio, os britânicos decidiram embarcar no dia seguinte - ainda tiveram de esperar mais 24 horas pelo voo cancelado em seu dia original.

A imprensa inglesa bateu sem dó na delegação e chegou a decretar a morte do futebol no País.

Já são 70 anos desse fiasco, e até hoje a Inglaterra se envergonha muito de sua estreia em Copas do Mundo. E reconhece que não ter ficado para ver como os demais países desenvolviam seus jogos foi um erro quase tão grande quanto não se preparar adequadamente para a disputa.