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Serginho, ídolo do Milan, revela que quase assinou com a Juventus

Reportagem originalmente publicada dia 09/11/2018


Milan e Juventus travaram grandes duelos nos anos 2000, quando tanto rubro-negros quanto alvinegros possuíam esquadrões fortíssimos.

Um dos atletas que mais viveu emoções nesta era foi Sérgio Cláudio dos Santos, ex-lateral esquerdo milanista.

Ele foi comprado em 1999 do São Paulo, após realizar quatro grandes temporadas pela equipe tricolor, e jogou por quase uma década pelo gigante de Milão, conquistando uma série de títulos, como duas Champions, um Mundial de Clubes e um Italiano, entre outros.

O que poucos sabem é que, antes de assinar com o time que ficaria conhecido como "Super-Milan", Serginho por muito pouco não tomou um avião com um rumo diferente...

"Em 99, eu estava no São Paulo e tive uma primeira reunião com o Milan, no escritório do (empresário) Cláudio Guadagno, que era meu representante e ainda é agente até hoje. Só que, uma hora antes, eu havia me reunido com a Juventus", revelou o ex-atleta, hoje com 47 anos, à ESPN.

Na hora de escolher sua futura equipe, porém, o coração de Serginho acabou decidindo.

"Desde criança em sempre simpatizei com o Milan. Via os jogos do Italiano e da Liga dos Campeões pela televisão e gostava demais. Era um torcedor à distância. Quando teve essa chance de ir para Milão, foi um sentimento muito profundo", contou, antes de explicar como foi "descoberto" pelos rubro-negros em tempos em que a tecnologia ainda "engatinhava".

"Eles vieram ao Brasil em busca de destaques e havia alguns olheiros vendo jogos do São Paulo. Aí ficamos sabendo e mandamos algumas fitas VHS com meus lances, porque era uma época que não havia nem DVD e nem os YouTubes da vida (risos). Foi aí que eles se interessaram em mim", relembrou.

Logo que chegou a à Itália, Serginho teve impacto imediato.

Formando uma linha defensiva espetacular ao lado de Cafu, Nesta e Maldini (e que teve ainda nomes como Costacurta, Kaladze e Roque Jr, só para citar alguns), ele empilhou uma taça atrás da outra, fazendo ao todo 279 jogos e marcando 25 gols pelos rossoneri - grandes números para um lateral esquerdo.

Um dos seus troféus mais especiais foi o da Champions 2002/03, conquistado nos pênaltis justamente em cima da Juventus, o time que quase teve o brasileiro a seu serviço.

Serginho, inclusive, converteu a primeira cobrança milanista no triunfo por 3 a 2 em Old Trafford, após empate por 0 a 0 no tempo regulamentar.

"Esse título foi uma coisa muito forte, porque tanto Juve quanto Milan estavam há muitos anos sem ganhar a Liga dos Campeões. A rivalidade entre os times era absurda nesse tempo, então chegar à final e ganhar em cima deles foi uma alegria dobrada. Com certeza teve um sabor mais gostoso", exaltou.

Essa taça, aliás, é uma das que os torcedores do Milan se lembram com mais carinho, já que, na semifinal, a equipe comandada por Carlo Ancelotti eliminou outro rival: a Inter de Milão, que também possuía uma equipe para lá de rica e poderosa.

"Foi um título muito especial, porque eliminamos nosso arquirrival de forma impressionante. As duas partidas foram muito parelhas, um 0 a 0 e um 1 a 1, e o nosso gol foi do Shevchenko. Passamos pelo gol fora de casa, mesmo com os dois jogos sendo disputados no San Siro (risos). Foi uma das partidas que mais me marcou. E esse troféu ficou na história por isso: batemos os dois maiores rivais do Milan na Itália", bradou.

"Durante uns 15 dias só se falou nisso na Itália, não tinha outro assunto na TV e nos jornais (risos). Parecia um capítulo de novela, que foi concluído naquela grande final em Manchester", completou.

'MALDINI PARECIA QUE IA TOMAR CAFÉ, NÃO JOGAR FINAL'

Confira o depoimento de Serginho sobre a final Milan x Juventus:

Essa foi a primeira final de duas equipes do mesmo país na Champions. O italiano é muito apaixonado por futebol, imagina como foram as semanas antes do jogo! Uma tensão total, com os jornais e as TVs comentando todos os dias. A cobertura naquela semana foi atípica para todo o grupo. Foi muito impactante essa partida. O mundo todo ficou em cima da gente por causa desse jogo.

Cada jogador tem uma forma diferente de reagir a um jogo desses. O Maldini parecia eu iria tomar um café, não jogar uma final. Já o Gattuso ficava andando a madrugada toda anterior ao jogo no corredor do hotel, porque era a forma dele botar a ansiedade para fora. Ele é feito moldado nessa adrenalina.

Os mais experientes não demonstravam em palavras, mas o nível de concentração na noite antes do jogo mostrava que existia uma tensão muito forte dentro do grupo. Os brasileiros estavam mais relaxados, muito mais tranquilos. Já os mais jovens, como o (zagueiro dinamarquês) Laursen sentiram mais a adrenalina.

Até cinco minutos antes da escalação final sair, eu ia jogar como titular, mas acabei ficando no banco. Só que eu sabia que iria entrar no jogo, porque naquele período do Milan eu era o amuleto do Ancelotti. Qualquer dificuldade que tinha dentro de campo eu estava em campo ou entrava pra resolver. Eu sabia que iria jogar. Mas vou te falar que a adrenalina e a tensão fora de campo são muito maiores (risos).

Essa final por ser Juventus teve um gosto especial e foi mais tensa.

O jogo foi muito aberto, e as duas equipes tinham chances de vencer. Foi uma partida extremamente equilibrada, entre dois grandes times, mas nós tivemos um gol legitimo que foi anulado.

Aí vieram os pênaltis...

Sempre depois dos treinos eu ficava treinando penalidades. Pelo aproveitamento do ano e, principalmente nos últimos 15 dias, ficava determinado que os dois melhores abririam e fechariam a série. No caso, éramos eu e o Shevchenko. O Kaladze entrou para bater pênalti porque o Inzaghi não se sentia bem. Foi tudo planejado.

Eu abri a série de penalidades para o Milan e foi um responsabilidade muito grande. Quando você sai do meio de campo, pega a bola e coloca na marca do pênalti, passa um filme da sua vida na cabeça, da sua trajetória, quando começou a jogar futebol, quanto você sonhou, trabalhou e esperou até chegar naquele momento. Esses minutos parecem uma eternidade e causam uma tensão muito grande.

Eu pensei: ‘Peraí, hora de tirar tudo isso da sua cabeça e pensar só em fazer o gol. Como vou bater esse pênalti’.

Tive a sorte de bater uns quatro pênaltis no Buffon na carreira e sempre tive a felicidade de fazer. É um dos maiores goleiros da história do futebol mundial, um grande pegador de pênalti, mas tinha meu objetivo. No fim deu tudo certo. Eu sai determinado a bater naquele canto mesmo e não mudei.

Algumas coisas podem mudar no meio do caminho que podem mudar sua forma de pensar. Por exemplo, contra o Liverpool [na final de 2004/05] eu errei porque vi o (goleiro Jerzy) Dudek se mexendo de forma estranha debaixo as traves e isso tirou a minha atenção. Quando percebi ele estava indo para o canto que ia bater, perdi minha frieza e quando vi e coloquei mais força na bola que deveria e chutei para fora. É muito pouco tempo para tomar a decisão correta com uma certa frieza.

Aí quando chegou a vez da Juventus bater, eles pararam no Dida, que pegou três cobranças.

O Dida é um dos poucos goleiros que vi na minha longa carreira que tinha a frieza de esperar o cobrador chegar na bola e vê-la partir para defender. Poucos goleiros vi ter essa frieza e esse timing. Sempre foi um grande pegador de pênaltis porque sempre espertou o último momento pra ele acompanhar a trajetória. Ele teve essa felicidade contra a Juventus de ter essa sabedoria.

Ele é muito frio. Ele sequer comemorou depois de pegar três pênaltis em uma final de Champions League. Parecia que estava em bar tomando um café com a família (risos).

O forte do Dida sempre foi esse. É só você ver a relação dele na final do Mundial de 2000 pelo Corinthians ou quando ele pegou os dois pênaltis do Raí na semifinal do Brasileiro de 99.

Depois que ganhamos o título, nós ficamos em Manchester, porque não tínhamos o hábito de viajar logo depois dos jogos. Fizemos uma festa com um jantar para os familiares.

No dia seguinte, quando chegamos à Itália, foi uma farra enorme. Desfilamos em carro aberto de bombeiros pela cidade, que parou. Tinha um mundo de gente, porque foi um título que estava sendo perseguido fazia muito tempo.

Foi uma felicidade imensa, e até hoje ninguém esquece esse título!