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'A gente jogava por milhares de meninas': como o ouro no Pan de 2007 mudou a história do futebol feminino no Brasil

Quando subiu o túnel do Maracanã e se deparou com quase 80 mil pessoas, entre pagantes e convidados, em 26 de julho de 2007, a seleção brasileira feminina partia para disputar muito mais do que o ouro dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro.

"A gente jogava para mudar a história", disse o técnico daquele time, Jorge Barcellos, atualmente no Avaí/Kindermann em entrevista ao ESPN.com.br.

A vitória por 4 a 0 sobre os EUA é vista por várias personagens daquela conquista, ouvidos pela reportagem, como um marco decisivo para a incorporação do futebol feminino pelo imaginário do torcedor brasileiro.

"Representa toda a luta de uma geração de jogadoras, ao mesmo tempo em que colocou o futebol feminino no caminho correto", acredita Aline Pellegrino, zagueira daquele time e atual coordenadora da modalidade na Federação Paulista de Futebol.

"Foi a partir daquele dia que as mulheres, mas também o brasileiro de um modo geral, puderam se identificar também numa equipe feminina de futebol", diz.

"Você pode discutir a velocidade com que isso ocorreu, mas de 2007 para cá, a gente vem numa crescente", completa.

"Em termos de conquista, foi a maior do nosso futebol", acredita Daniela Alves, camisa 7 daquele grupo, hoje treinadora do Sub-17 feminino do Corinthians.

"Eu torço para que tenha algo maior, mas até hoje, não teve", diz Barcellos.

"A gente jogava por milhares de meninas, para que talvez se quebrasse ali um pouco do preconceito e do machismo", resume a ala Rosana, ainda na ativa, pelo Palmeiras.

Favoritaça

Mais do que favorita, a seleção chegou ao Pan com uma obrigação de conquista, por diversos fatores.

Havia o fato de o time jogar em casa e de nem todos os times terem vindo com força máxima, caso dos EUA.

Mas pesava também a necessidade de apagar a má impressão deixada no Sul-Americano do ano anterior, quando a equipe foi ineditamente derrotada na final pela Argentina.

"Um ano antes, houve uma tentativa de renovação forçada, além do fato de algumas atletas, como a Marta não terem sido liberadas", diz Aline.

Vencer o Pan era reconduzir o Brasil a um caminho tomado com a medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Assim, Barcellos trouxe de volta para o grupo algumas veteranas e colocou em campo o que tinha de melhor.

"A gente tinha de assumir a responsabilidade de sermos favoritas", diz Aline. E assim foi.

A campanha que culminou na conquista foi irretocável, com seis vitórias, 33 gols marcados, nenhum sofrido e Marta artilheiro com 12 gols.

No caminho houve um 10 a 0 sobre o Equador e até um 7 a 0 sobre o forte Canadá, que veio completo para a disputa e terminaria com o Bronze.

Muita gente

Aline conta que a seleção esperava um público razoável para aquele jogo, disputado numa quinta-feira ao meio-dia. "Uns 30, 40 mil. Não imaginávamos que passaria disso", conta.

"A gente se aquecia no vestiário, e o Maracanã tinha um isolamento acústico total. Então, a gente não tinha ideia de como estaria o estádio", conta Rosana.

O primeiro a se deparar com os 72 mil pagantes, e um monte de convidados, foi o técnico Jorge Barcellos.

"Antes, a gente tinha ido reconhecer o gramado, que estava uma m..., aliás, e não tinha tanta gente. Mas eu voltei mais tarde e entendi o que estava acontecendo", conta ele.

“Aí, voltei para o vestiário e avisei a elas: 'Hoje, não podemos deixar escapar. É o nosso moral que está em jogo’".

"Nem deu muito tempo de comentar o tanto de gente que tinha, porque a gente entra, vê e logo o jogo começa. A gente foi sentindo aquilo aos poucos", conta Aline.

"Foi muito emocionante e surpreendente ver muitas familias e crianças, sabendo os nossos nomes, querendo ser a gente", conta Daniela Alves.

"E a gente não era preliminar de nada, não tinha nenhum evento depois no Maracanã. Aquele público ali era só nosso", diz ela.

Brasil 9 x 0 EUA

O jogo mais difícil da trajetória acontecera na semifinal, quando o Brasil vence o México por 2 a 0, com certa dificuldade.

"Acabou sendo providencial, porque entramos na final ainda mais atentas", relembra-se Aline Pellegrino.

"O que eu mais me lembro da final foi ter sofrido o pênalti que resultou no primeiro gol", conta Rosana. Aos 18 do 1º tempo, Marta bateria e faria 1 a 0.

Um minutos depois, Daniela bate escanteio aberto no segundo pau, Elaine escora e Cristiane faz 2 a 0. Já no segundo tempo, logo aos 2 minutos, Cristiane recebe de Marta e bate na saída da goleira Naeher, para fazer o terceiro, tranquilizando o time.

Novamente de pênalti, Marta faria o quarto, aos 11. E Daniela Alves, com um petardo de esquerda, após passe de Marta e corta-luz de Cristiane, faz o quinto, aos 30.

"Foi só aí que a gente começou a curtir. Quando uma jogadora era atendida, a gente parava e conseguia olhar para o público, ver como estava o estádio", conta Aline.

Mas houve desconfiança.

"A gente ouviu muito, depois do jogo, que só goleamos porque era um time sub-23 dos EUA", conta Daniela. "Eles diziam: quero ver quando for a seleção principal", conta Rosana.

Pois quis o destino que quase exatamente dois meses depois, no Mundial da modalidade, os EUA, dessa vez com todas as suas estrelas, cruzasse o caminho do Brasil.

O resultado de 4 a 0, na semifinal da Copa do Mundo feminina da China, em 27 de setembro, acabou dando ainda mais peso ao Ouro do Pan.

"Ficou um 9 a 0 gostoso na soma", diverte-se Daniela Alves.

"E vale dizer que aquele time sub-23 dos EUA era muito forte. Todas aquelas jogadoras estão ou estiveram na seleção depois", pondera Jorge Barcellos, que trabalhou na Liga Norte-Americana depois.

"O Pan acabou sendo uma preparação de luxo para a Copa do Mundo', afirma Rosana.

Um lento legado

Da Prata em Atenas-2004 ao Ouro no Rio-2007, o futebol brasileiro feminino não teve grande desenvolvimento ou espaço na mídia.

"Nós logo voltamos a ser invisíveis", diz Rosana.

Mas o Pan, seguido do vice na Copa do Mundo e do sucesso daquele grupo que chegou às finais de todos os torneios disputados por quatro anos seguidos, alterou o curso da modalidae.

"2007 serviu de estímulo pra muitas dessas meninas que hoje estão na seleção. Ajudou a impulsionar a modalidade no país pelo fato de termos colocado aquela quantidade de gente no Maracanã e termos vencido em rede nacional. Abriu também caminhos para os bons resultados que vieram depois e fizeram o torcedor entender que a gente valia a a pena", diz Daniela Alves.

"Naquela seleção, havia meninas que ganhavam R$ 600 de salário. Mesmo que devagar, uma mudança começou ali", diz Barcellos.

No ano seguinte, a CBF organiza a primeira edição de um campeonato nacional, a Copa do Brasil. Hoje, há uma calendário de campeonatos nacionais e estaduais com mais de uma divisão que permite um desonvolvimento sólido do esporte.

"O futebol é um só, mas as mulheres por muitos anos não foram vistas nesse cenário. Hoje as entidades no Brasile no mundo tem planos claros de desenvolvimento, diretrizes delineadas e margem para trabalhos como o que desenvolvo na Federação Paulista", diz Aline Pellegrino.

"A gente brigava muito para jogar. Eu briguei com meu pai, a gente brigava na rua, e isso fez da gente atletas muita aguerridas. Isso serviu no Pan e também depois, porque era o único jeito que a gente sabia fazer", diz Aline.

"O Pan foi uma sementinha. Uma chance de muitas meninas que sofriam preconceito começarem. Porque o futebol feminino era muito malvisto antes. Quando se falava da modalidade, se imaginava ou té se colocava um monte de modelos jogando, e isso não era a realidade", diz Rosana.

"Todo esporte precisa de resultado para convencer. E, ali, no Rio, começamos com isso", completa.

Um bom exemplo de como o futebol mudou vem da técnica Daniela Alves. Antes do Sub-17 do Corinthians, Dani fez parte da comissão técnica da seleção entre 2016 e 2018 - primeiro do Sub-20, depois do time principal.

Ao longo de sua carreira, encerrada em 2010, ela jamais teve uma treinadora mulher. Hoje, na seleção brasileira, está a sueca Pia Sundhage - e Emilly Lima, atualmente na seleção do Equador, já ocupou o cargo.

"Posso fazer com as minhas atletas algo que não tive, que é mostrar um caminho que eu também já percorri", diz ela.

"Quando você diz para uma atleta 'vai por aqui' e essa instrução dá certo, elas olham para você com confiança", diz.

"Porque tem coisas no futebol feminino que só uma mulher é capaz de entender".

FICHA TÉCNICA

Brasil 5 x 0 EUA
Data:
26 de julho de 2007
Gols: Marta (2), Cristiane (2) e Daniela Alves
Local: Maracanã - Rio de Janeiro

Brasil: Andréia; Aline, Renata Costa e Tânia; Elaine, Daniela Alves, Formiga, Marta e Rosana (Kátia Cilene); Cristiane (Pretinha) e Maycon. Técnico: Jorge Barcellos.

EUA: Naeher; Taylor, Fountain, Marshall e Wilmoth (Enyeart); Heath, Wright, Edwards e Nogueira; Cheney e O'Hara. Técnica: Jillian Jones.