Kalil: 'Que futebol é esse que não vai poder reunir jogador, fazer oração no vestiário?'

O ex-presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, voltou a defender que o futebol acompanhe as decisões das autoridades sanitárias do país e continue em quarentena, até que a situação do novo coronavírus tenha um caminho menos trágico.

Em entrevista ao jornal “O Globo” nesta sexta-feira, 8 de maio, Kalil reforçou declarações que deu para a ESPN Brasil há alguns dias, quando também se posicionou contrário ao retorno dos jogos. Vale lembrar que o Campeonato Brasileiro estava previsto para iniciar no último fim de semana, e alguns clubes pressionam federações e órgãos públicos para retomarem suas atividades.

“Eu conheço os dois lados. Eu sei o que é uma estrutura para um jogo de futebol. Se não tiver público e transmissão, o futebol não tem necessidade de existir. Se for para ter só transmissão, tem jornalistas, cabos, rádios, massagistas amontoados em pequenos lugares, como vestiário. É aglomeração. Não é hora de pensar nisso, em política, em reeleição, em nada. Tem que pensar em libertar a cidade o mais rápido possível. Que futebol é esse que não vai poder reunir jogador, fazer oração no vestiário?”, disse Kalil ao jornal.

Neste ano, como prefeito da capital mineira, Kalil lidou com problemas causados por enchentes e fortes chuvas e agora lida com a crise instaurada pelo novo coronavírus. Diante disso, admitiu que pode tomar medidas mais rigorosas para impedir riscos com a volta do futebol.

“Estamos indo para o pico da pandemia. O futebol que está voltando é de mentira. E outra coisa: o futebol depende da cidade, do que o prefeito pensa. O Cruzeiro não vai voltar a treinar aqui em Belo Horizonte, mas o Atlético está em Vespasiano; o América, em Contagem [ambas cidades da região metropolitana de Belo Horizonte). Você pode até barrar o ônibus, o Supremo Tribunal Federal autorizou as prefeituras. Não estou falando que vou fazer isso, mas se eu quiser barrar o ônibus do Atlético, ele não vai para o jogo, porque ele sai de Vespasiano”, disse.

“Belo Horizonte não vai arredar pé da ciência e da medicina. Não sou eu que estou mantendo a cidade fechada. É um grupo que foi criado com infectologistas, médicos do mais alto nível, com secretário de saúde. O dia que eles falarem que é para flexibilizar, que a curva está na descendência, coisa parecida, eu faço. O que estou fazendo agora é obedecendo a ciência e a medicina”, acrescentou.

No trecho final da entrevista, Kalil disse que o que mais o tem assustado é a frieza de alguns com o tema, assim como a falta de solidariedade com o próximo.

“Mais um dia foi embora, ganhamos mais um dia. É questão de tempo. Todos nós mudamos, pena que eu acho que o mundo não ficou melhor. Enquanto estão enterrando, comprando material – como vi em São Paulo –, saco plástico para botar corpo no frigorífico, estão falando em política, falando em futebol. Com 61 anos, não tenho idade para acostumar com mais nada. Eu não posso acostumar com isso, nenhum de nós. Temos sete mil problemas a menos de emprego, porque morreram. Se abrir tudo, nós não teremos nem desemprego. Vai morrer todo mundo.”