Promessa de título, empolgação e polêmicas: o ano esquecido de Maradona no Sevilla

Poucos tem uma carreira tão condecorada como Diego Armando Maradona. O ex-camisa 10 argentino dá nome ao estádio do Argentinos Juniors e é o maior ídolo da história do Boca Juniors em seu país natal. Na Europa, é Deus pelo Napoli e foi transferência recorde, à época, para o Barcelona. Pela seleção, venceu a Copa do Mundo de 1986. Existe uma temporada da carreira de Diego, porém, é que esquecida: 1992/1993.

Voltando de uma suspensão de 15 meses pelo uso de cocaína, Maradona chegou ao Sevilla cantando que seria campeão nacional com a equipe. Era pura fantasia, afinal, o clube havia vencido apenas uma vez, quase 50 anos antes, e não ficava sequer entre os quatro melhores de LaLiga há 20 anos.

Mas não seria inédito. Foi o que Diego fez no Napoli e, por isso, criou esperança no torcedor da Andaluzia, mesmo com Maradona voltando após 15 meses parado. O camisa 10 ainda tinha apenas 31 anos e estava se reunindo novamente com Carlos Bilardo, então técnico do Sevilla, o homem que lhe guiou ao título da Copa do Mundo pela Argentina.

A realidade, porém, foi outra.

A chegada

Até os anos 90, o Sevilla era apenas um coadjuvante no Campeonato Espanhol. Na temporada 1991/1992, a equipe havia terminado na metade inferior da tabela. Quando assumiu a equipe, Bilardo era consciente do desafio e chegou a declarar que "temos que aceitar que o campeonato vai ser disputado só por Barça e Real Madrid por um tempo".

O argentino, porém, tinha um plano ousado: se reunir com a estrela do Mundial de 86. Maradona estava suspenso pelo uso de cocaína e não tinha a menor intenção de retornar ao Napoli, que também não iria liberá-lo de graça. Quando a primeira oferta do Sevilla foi rejeitada, Bilardo ameaçou pedir demissão.

Depois de muita negociação e até uma intervenção do então presidente da Fifa, Sepp Blatter, que queria ver a superestrela recuperada a tempo do Mundial de 1994, Maradona chegou ao Sevilla em setembro de 1992.

O impacto

Logo no primeiro encontro da equipe já com o novo reforço, Bilardo deixou claro qual era a situação. "Eu e vocês estamos na sombra agora. Esse é o show de Maradona e vocês devem colocar suas esperanças no gênio que pode nos levar às glórias" foram as palavras do técnico. Nenhum jogador do elenco sequer ameaçou contrariar.

Manolo Jimenez imediatamente passou a faixa de capitão para o camisa 10. Juan Martagon, anos depois, disse que ninguém conseguir imaginar Maradona sem a faixa no braço. Os treinos saíram das manhãs para as tardes, na teoria, a pedido de Bilardo. Na prática, era para acomodar os hábitos noturnos de Maradona, que chegou a bater uma Mercedes às 2h da manhã na cidade.

O início

Dentro de campo, tudo começou na série de amistosos que fazia parte do acordo de compra junto ao Napoli. A estreia veio na vitória por 3 a 1 sobre o Bayern de Munique. E foi seguida por muitos mais: um empate em 1 a 1 com a Lazio em que Maradona quase fez um gol de bicicleta e acertou uma falta na trave nos minutos finais, um duelo com o São Paulo, com o Porto, e um diante do Galatasaray aonde a torcida turca foi à loucura só para ver Diego.

Mas o mais memorável dos amistosos foi um reencontro com o Boca Juniors em Buenos Aires. "Eu não sabia o que era fanatismo até aquele momento", afirmou o companheiro de Maradona, José Miguel Prieto, em entrevista à Sky Sports.

'Vintage Maradona'

Na sua primeira partida oficial em Sevilla, Maradona, de pênalti, fez o gol da vitória dos donos da casa sobre o Real Zaragoza. O jogo, porém, é lembrado por um momento batizado como "Vintage Maradona".

Quando Diego ia bater um escanteio, uma bolinha de alumínio foi arremessada em direção ao camisa 10. O argentino, então, não teve dúvidas: pegou o objeto e fez embaixadinhas com ele, para delírio dos torcedores. Era o entretenimento de Maradona em estado puro: não são poucos os momentos em que Diego fez embaixadinhas com bolinhas de papel, de tênis, chicletes e qualquer objeto que fosse capaz.

"Ele fazia isso direto nos treinos. Pegava um limão e ficava controlando com o pé até ficar entediado", disse o companheiro Rafa Paz. "Imagina o resto do time? Tinha quem tem tentasse quando ele não estava olhando, mas era impossível!".

Os problemas

Maradona estava jogando bem, o Sevilla estava na parte de cima da tabela e parecia encaminhado a, no mínimo, conquistar uma vaga nas competições europeias. Mas os problemas começaram a aparecer justamente com um dos principais motivos da negociação ter dado certo no início: o retorno de Diego à seleção argentina.

Após dois anos, Maradona voltou a ser convocado para uma série de amistosos e estava bastante empolgado. O Sevilla, não. O calendário não iria parar e Diego era necessitado em jogos de LaLiga. Sem autorização do clube, o camisa 10 foi defender seu país novamente.

A relação nunca mais foi a mesma. Ofendido com a reação do clube, Maradona passou a aparecer cada vez menos nos treinos. Ficou acima do peso e o clube começou a planejar sua saída. Informações da época dão conta de que o Sevilla contratou um detetive particular para seguir o craque e montar um dossiê que permitisse sua demissão sem custos ao clube. Era irrecuperável.

O fim

O ponto final veio na última partida de Maradona na Andaluzia, um empate em 1 a 1 com o Burgos. Substituído no começo da segunda etapa, Diego deixou o gramando xingando Bilardo e nunca mais vestiu a camisa do Sevilla.

Deixou a cidade em 23 de junho de 1993, o Sevilla terminou a temporada no 7º lugar e não conseguiu nenhuma vaga nas ligas europeias. O ato final de Maradona foi entrar com um processo em busca de dinheiro não recebido de seu contrato.

O que começou com muito otimismo e alegria, terminou em uma realidade bem diferente. Maradona fez 26 jogos, anotou cinco gols e não conseguiu trazer o título prometido em seu desembarque.