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Olheiro alemão que 'descobriu' Zé Roberto, Emerson e Renato Augusto hoje trabalha no Brasil e vê 'talentos mal explorados'

Ao brincar com um amigo do Água Santa, dizendo “Se quiser um diretor de futebol alemão, eu estou à disposição”, Thomas Federspiel jamais poderia imaginar que abandonaria uma carreira de olheiro do Bayer Leverkusen por duas décadas, tendo “descoberto” Emerson, Zé Roberto, Renato Augusto, entre outros, e estaria próximo de completar cinco anos no clube de Diadema.

Natural de Colônia, o alemão estava no Japão quando o irmão do atual presidente do Água Santa, antes agente de jogadores, enviou um e-mail contando que estava assumindo uma nova etapa na carreira. Seria diretor da base.

Três dias depois de responder brincando, veio um convite formal para Federspiel visitar o clube quando estivesse no Brasil. Meses depois, ele aceitou. Viu a estrutura, conheceu as pessoas, ouviu sobre o projeto e, aí sim, foi oficialmente convidado para trabalhar.

“Comecei em setembro de 2015 e lembro que, nos primeiros dias, chamou à atenção: um alemão no clube, pouco depois do 7 a 1 [goleada da Alemanha sobre o Brasil na Copa do Mundo de 2014]. Acho que pensaram que ia ter uma mudança geral”, diz Federspiel, 53, à reportagem.

Àquela altura, o alemão já estava bem ambientado com o Brasil. Desde os anos 90 as visitas eram frequentes representando o Bayer. A partir de 2002 começou a morar e até se casou com uma brasileira.

Receita da farmácia

Federspiel começou a carreira como técnico da base do Bayer Leverkusen. Em seguida, passou a trabalhar com recrutamento de jogadores e, pouco depois ficou responsável por avaliar nomes da América do Sul.

“O Bayer abriu na Alemanha o mercado para o Brasil e eu me especializei em observar talentos. Inicialmente eu vinha e ficava por alguns meses. Depois voltava. A partir de 2002 passei a residir aqui. Inicialmente seriam dois anos, que acabaram virando minha vida”, diz.

Por conta das condições climáticas, do estilo de jogo e do perfil, Federspiel conta que o foco eram jogadores do Sul/Sudeste brasileiro. Em 1997, veio observar o Grêmio. O interesse estava em jovem volante chamado Emerson. E o curioso é como ele chegou a esse nome.

“Como a Bayer [farmacêutica alemão, cujos funcionários fundaram o Leverkusen, em 1904] é uma dos maiores franquias no Brasil, a gente sempre teve proximidade com pessoas que estavam ligadas de alguma forma com o futebol e chegavam informações mais cedo para nós”, conta.

“A gente ouvia um nome e buscava videotapes. A partir daí eu viajava para acompanhar de perto e observar”, acrescenta.

Foi assim que veio ao Brasil e ficou surpreso com o perfil de Emerson, então com 20 anos.

“Ele não era o típico jogador brasileiro. Era fino, tinha coordenação e personalidade forte. Me lembro de um jogo que vi no Olímpico contra o São Caetano, eu acho. O Grêmio tinha Paulo Nunes, Mauro Galvão, Jardel. A energia caiu no meio do jogo e o Felipão chamou o Emerson para dar instruções táticas ao time, quando o natural seria ele chamar o capitão, que era o Mauro Galvão”, diz.

Debandada brazuca

Antes de Emerson, o Bayer Leverkusen já tinha tentando sucesso com Tita (Flamengo), Jorginho (Flamengo) e Paulo Sérgio (Corinthians), os únicos brasileiros a vestirem a camisa do clube. Mas foi Emerson que mudou o rumo.

“O impacto foi grande. Ele se adaptou muito bem e rapidamente. Abriu as portas definitivas para que o clube levasse outros jogadores daqui. O investimento valia a pena, eram jovens e podiam ser negociados no futuro, trazendo retorno financeiro ao clube”, diz o alemão.

Ao levar Emerson ao Leverkusen, Federspiel também encaminhou as idas de Paulo Rink (Athletico-PR,1997), Zé Roberto (Portuguesa, 1998), Lúcio (Internacional, 2001), Juan (Flamengo, 2002), França (São Paulo, 2002), Athirson (Flamengo, 2005), Roque Júnior (já estava na Europa, em 2007) e Renato Augusto (Flamengo, 2008) e Wendell (Grêmio, 2014). Sempre assegurando “algo a mais” aos escolhidos.

“A conexão com a Bayer é forte, e a empresa já tinha a experiência de contratar profissionais brasileiros para a Alemanha. O raciocínio foi o mesmo. Temos de dar estrutura fora de campo para o jogador se adaptar. Colocávamos uma pessoa à disposição 24h, para ajudar no o idioma e na organização da vida, casa, escola para crianças. Isso ajudava na adaptação”, diz.

“Se você analisar, os jogadores que contratamos foram responsáveis pelo crescimento do Bayer”, diz Federspiel, sobre um período em que o Leverkusen foi cinco vezes vice-campeão da Bundesliga (algo nunca ocorrido até 1997) e finalista da Champions League em 2002.

Problemas do Brasil

A última grande contratação do Bayer feita a partir das observações de Federspiel foi Renato Augusto, em 2008. Depois dessa data ele explica que o mercado mudou. Ficou inflacionado pelo leste europeu, pelos clubes emergentes e pela força da Premier League.

A ideia do Leverkusen ainda era buscar talentos baratos, e Federspiel foi para o Japão, cuidar do mercado asiático, entre 2011 e 2015.

De volta ao Brasil e já em novo emprego, o alemão nem sempre teve a mesma função no Água Santa. Por discordar de alguns pontos no profissional, passou a trabalhar como diretor da base a partir de 2016. E conheceu uma outra realidade.

“O talento natural do futebol brasileiro não vai acabar, mas é cada vez mais mal explorado. Conheci o trabalho de muitos clubes na formação dos jogadores e você vê o trabalho tirando esses jogadores das raízes do futebol do país. Os clubes querem copiar coisas da Europa, implantando aspectos em jogadores que têm características diferentes, personalidades diferentes. Querem copiar coisas que dão certo na Europa porque dizem que o ideal de jogo é aquele que vemos lá, e assim o futebol brasileiro foge das próprias raízes”, diz.

“Quando fazemos peneiras, notamos que garotos que nunca estiveram em uma estrutura organizada de futebol têm talento, sabem jogar, sabem o que fazer, mas o talento deles é mal explorado. Quando alguém diz que o talento brasileiro acabou, ele não acabou. Só é mal trabalhado”.

Para Federspiel, a mudança passa pelo tratamento dado aos profissionais da base, que, segundo ele, são mal remunerados e são cobrados equivocadamente. O foco é resultado/títulos, quando, na verdade, a cobrança deveria ser pela formação de jogadores para o time principal.

E o calendário é um ponto crucial para ser “atacado” e melhorado.

“Ele é péssimo. Tanto na base como profissional. Ou é 8 ou 80. Times da primeira divisão jogam 70 jogos ano. Você não vê desenvolvimento algum nos jogadores porque eles não têm tempo de treinar. Já a base disputa torneios por alguns meses e passa o resto do ano sem jogos. Quando você precisa de competitividade na formação você não tem. Tem o Estadual, que começa metade de abril e acaba em setembro. Com 20 jogos e só. Sei da dificuldade de organizar um país continental, mas é preciso assegurar para todas as divisões, todas as idades, calendário o ano todo”, diz.

No entanto, com quase cinco anos de Brasil, esse alemão não desanima. E vê nas dificuldades um cenário para prosperar.

Ele sonha em conseguir mais autonomia dentro do próprio Água Santa ou até em um novo clube. Diz que gostaria de, conduzir um projeto como diretor técnico, focado no talento, na qualidade e no crescimento esportivo.

“Ainda existe no Brasil aquela mentalidade: ‘Fomos cinco vezes campeão do mundo, então tá tudo certo’. Isso atrapalha muito quando se fala em projeto. Não está tudo certo. Há muito para melhorar, resgatar e avançar”, conclui.