<
>

'Eu não esperava mais ir': Aldair conta como foi de fora da lista da Copa do Mundo a monstro do Tetra

Eu vinha de uma cirurgia no ligamento do joelho. Sete meses parado. Fiz de tudo para me recuperar a tempo de ir para a Copa do Mundo de 94. Treinei muito duro. Fui chamado apenas para um amistoso antes do Mundial, mas tinha muita esperança de estar na lista do Parreira.

Quando saiu a convocação, eu não estava na lista. Isso foi muito ruim e me bateu um baixo astral grande. Eu tinha trabalhado tanto por aquele momento.

Depois da notícia, eu já não esperava mais ir para a Copa e fui fazer uma excursão na Argentina com a Roma, time que eu jogava à época.

Depois, saí de férias. Estava num restaurante em Roma quando alguns jornalistas me ligaram falando que eu poderia ser convocado. Não sabia de nada, nem tinha falado com alguém da CBF. Logo em seguida, o Américo Faria me ligou: o Mozer tinha sido cortado por lesão e eu seria convocado para o lugar dele.

Fui para casa e só deu tempo de pegar as minhas roupas e algumas coisas. Fiz as malas e fui correndo me apresentar direto no aeroporto do Brasil. Embarcamos direto para os Estados Unidos, onde fiz todos os exames médicos.

Eu cheguei como quarta opção da zaga porque os titulares eram Ricardo Rocha e o Ricardo Gomes e o primeiro reserva, o Márcio Santos. Mas o Ricardo Gomes se lesionou na preparação e foi cortado. E o Ricardo Rocha também se machucou na estreia da Copa, contra a Rússia.

Eu entrei e todo o trabalho que fiz nos últimos meses em Roma valeu a pena. Estava muito bem preparado.

Eu e o Márcio só tínhamos jogado juntos uma vez pela seleção antes da Copa, mas treinamos uns 15 dias no time reserva nos EUA. Nosso entrosamento foi muito rápido e não tinha segredo. Um entendeu como o outro jogava e tudo ficou mais simples. É um cara muito inteligente e bom nas bolas aéreas. Nós nos entendemos muito bem.

Nós não tivemos tantas dificuldades com os atacantes na Copa do Mundo porque o Dunga e o Mauro Silva nos davam uma proteção incrível nos jogos.

Contra os EUA foi um jogo difícil, mas vencemos. Contra a Holanda, o jogo estava fácil, vencíamos por 2 a 0, mas complicamos o jogo. Tínhamos feito uma excelente partida, mas levamos dois gols. Ainda bem que o Branco acertou aquele chute.

Lembro que, antes da semifinal, passei a noite toda acordado. Não dormi quase nada. Sabia da pressão que a gente sofria porque o Brasil não ganhava uma Copa havia 24 anos.

Encontramos a Suécia outra vez e tínhamos que anular a bola aérea deles. Principalmente o Anderson, que era difícil de marcar. O Márcio jogou muito e soube anular essa jogada. Foi um jogo que senti bastante.

Na final, íamos pegar uma seleção forte como a Itália, tudo poderia acontecer. Mas eu estava muito mai tranquilo.

Curioso que, antes do jogo, o Ricardo Rocha pediu a palavra para falar com os jogadores. E disse que tínhamos que dar a vida como os kawasakis japoneses na segunda Guerra Mundial. Quando corrigiram o Ricardo e disseram que eram os kamikazes, todo mundo caiu na risada. Aquilo descontraiu.

A final não poderia ser melhor porque eu conhecia todo o time da Itália. Atuava contra todos eles. E não tinha nenhum colega meu da Roma no time deles.

Quanto mais você joga contra os atacantes, mais você conhece os atalhos para marcá-los. Isso facilitou meu trabalho.

Além disso, o técnico Arrigo Sacchi fazia a Itália jogar do mesmo jeito que o Milan que eu enfrentei na final da Champions League de 90.

O calor não deixou o time deles imprimir um ritmo de jogo, e a gente jogou melhor. Controlamos o jogo e criamos as melhores chances. A Itália só chegou duas vezes ao nosso gol.

Na hora que o juiz terminou o jogo e vieram os pênaltis, foi uma tensão absurda.

Todo mundo tinha treinado para as cobranças. Passa tudo pela cabeça de quem está na marca do pênalti. Eu não estava entre os cinco batedores, mas, se precisasse bater, eu ia lá.

Quando o Baggio errou o ultimo pênalti, eu corri. E fui abraçar o Taffarel, que defendeu aquele pênalti do Massaro. Eu só queria comemorar, a ficha só foi caindo aos poucos.

Lembro que fui pegar a medalha e estava muito emocionado. Fizemos uma grande festa no vestiário e depois no hotel onde estávamos.

Acho que foi o Ricardo Rocha que teve a ideia de fazer homenagem ao Senna, que apareceu na minha mão e na do Bebeto na comemoração.

A gente não dormiu nada. Só fui entender tudo o que tinha acontecido quando voltei ao Brasil e vi a festa.

Foi só nesta hora que entendi: ‘É verdade, nós somos campeões do mundo!’


Depoimento ao repórter Vladimir Bianchini | Edição: Fábio Chiorino