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Bebeto revela como ajudou a colocar Romário na Copa de 94: 'Parreira me ligou e eu disse: 'Pode chamar o Baixinho'

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Romário conta como tirou onda com elenco do Barça após ser cobrado por 'folga': 'Vocês perderam; vão tomar...' (2:10)

Resenha ESPN especial foi gravado na casa do atacante, no Rio de Janeiro (2:10)

Reportagem publicada originalmente em 29/01/2016


Romário nunca escondeu nem fez mistério sobre quem foi seu melhor parceiro no ataque: Bebeto. O ex-jogador, natural de Salvador, atuou ao lado do Baixinho na seleção brasileira por mais de uma década. Em clubes, no entanto, o destino não foi tão generoso com eles. Fizeram apenas um jogo juntos, em 2001, pelo Vasco.

"Parece que a gente nasceu jogando junto, rapaz", disse Bebeto com exclusividade ao ESPN.com.br, ao se lembrar do companheiro, que completa 50 anos nesta sexta-feira. "A gente tinha um entendimento muito fácil em campo. Fruto de uma amizade que começou quando a gente jogava por outras equipes. Ele no Vasco, e eu no Flamengo".

A parceria da dupla foi concretizada na Olimpíada de 1988, em Seul, na Coreia do Sul. Ambos foram convocados pelo técnico Carlos Alberto Silva. Romário era titular naquela seleção, mas Bebeto teve de conquistar a vaga durante o torneio. Conseguiu no duelo contra a Argentina (vitória por 1 a 0, gol de Geovane), pelas quartas de final.

Jogaram juntos a semifinal e a final, na qual o Brasil perdeu para a União Soviética por 2 a 1, na prorrogação, ficando com a medalha de prata - Romário fez o gol brasileiro.

"Aquela seleção era muito boa. Foi uma tristeza a gente perder o ouro. O árbitro deu um pênalti que não existiu, e eles conseguiram empatar o jogo e levar para a prorrogação. Perdemos. Naquele jogo, fez falta o Geovane. Não lembro se ele estava no banco ou se estava suspenso. Era ele quem metia as bolas para mim e para o Romário marcar. Mas ali foi também o começo definitivo da nossa parceria", relembrou Bebeto.

Aquela derrota foi a única sofrida pela dupla em campo. Detalhe é que, quando o gol da vitória da União Soviética foi marcado, Bebeto já havia sido substituído. Pela seleção principal, a história foi de alegrias: 23 jogos, com 17 vitórias e seis empates. Com eles em campo, o Brasil marcou 48 gols, sendo que 33 foram dos dois (Romário, 18, e Bebeto, 15).

FIM DE UM TABU

A dupla jogou pela primeira vez junta na seleção principal em 1º de julho de 1989. A partida foi pela Copa América, no estádio da Fonte Nova, em Salvador. Romário e Bebeto foram escalados pelo técnico Sebastião Lazaroni, mas o primeiro ato da equipe verde e amarela com os dois foi uma grande vaia do público. O motivo era o corte de Charles, atacante e ídolo do Bahia, dias antes do início do torneio. A vitória por 3 a 1 ficou na história. Romário passou em branco, mas Bebeto anotou um dos tentos.

O Brasil não vencia a Copa América havia 40 anos e, durante o torneio. teve de lidar com uma pressão adicional da torcida. Bebeto e Romário, no entanto, não sentiram dificuldade e mostraram entrosamento do começo ao fim.

Só não estiveram lado a lado no empate sem gols com a Colômbia, na Fonte Nova. Em todos os outros jogos, fizeram parceria. Romário marcou três gols, um deles contra o Uruguai, em 16 de julho, que valeu o título. Mas o artilheiro do torneio foi Bebeto: nove bolas na rede.

"Ali marcou muito a gente. Fizemos uma grande Copa América. Fui eleito o melhor jogador e fui o artilheiro. Era fácil jogar ao lado dele. Contra a Argentina, demos muita risada no vestiário porque fiz um gol inesquecível e o Romário deu um chapéu no Maradona. Aliás, o Maradona veio trocar camisa no final do jogo comigo, tenho guardada até hoje. Ele disse: ‘Nunca vi um gol tão bonito assim, ainda mais aqui no Maracanã'. Ele ficou meu amigo também", declarou Bebeto.

TRISTEZA NA ITÁLIA

"Naquele ano, cada um tinha uma dupla de preferência. Alguns queriam ver Muller e Careca, mas outros já apostavam na dupla Romário e Bebeto". Essas são as lembranças que o ex-jogador guarda da Copa do Mundo de 1990, na Itália.

"Infelizmente, o Romário teve de operar a perna antes da Copa [sofreu uma fratura em 1989]. E eu sofri uma pancada do goleiro Zé Carlos em um treino e machuquei o tornozelo. Também não pude jogar. Assistimos àquele Mundial do banco", contou Bebeto.

O Brasil foi eliminado pela Argentina nas oitavas de final com derrota por 1 a 0, no estádio Delle Alpi, em Turim. A queda na Copa entristeceu a todos, mas fez a dupla se fortalecer.

"Nós ficamos de fora e estávamos muito tristes, sem poder ajudar o Brasil, aí colocamos na nossa cabeça: ‘Meu irmão, agora é 1994 e a gente traz o caneco pra cá. Ela (a Copa) será nossa'. Ficamos pela Itália e viajamos de carro, nos divertimos por lá junto com as nossas esposas para diminuir um pouco a tristeza'', afirmou Bebeto.

LIGAÇÃO PARA O TETRA

O sonho de Bebeto, no entanto, chegou a ficar ameaçado porque Romário deixou de ser convocado após uma rusga com Carlos Alberto Parreira em 1992, durante um amistoso entre Brasil e Alemanha, em Porto Alegre.

Foram 278 dias afastado da seleção, o que correspondeu a 18 jogos, até Romário voltar na partida contra o Uruguai, em 19 de setembro de 1993, partida que decidiu a classificação brasileira para a Copa do Mundo dos Estados Unidos.

"Nas eliminatórias, eu joguei com Careca e Muller, dois caras fantásticos, mas o Parreira não chamava o Romário. Um dia, depois que o Muller se machucou, o Parreira me ligou e perguntou: 'E ai?' Eu disse: 'Pode levar o Baixinho'. Na época, estava para convocar contra o Uruguai e veio pedir minha opinião. Eu disse que quando a gente jogava juntos, o entendimento era perfeito. E ele arrebentou contra o Uruguai. O time estava preparado e, quando ele entrou, o time voou, porque ele estava bem demais", disse Bebeto.

Romário fez os dois gols da vitória contra o Uruguai. Foi Bebeto quem cruzou para o Baixinho marcar o primeiro gol daquele jogo. O segundo ele só observou o camisa 11 driblar o goleiro uruguaio e dar números finais ao placar.

DONOS DO MUNDO

"Romário tinha fama de não gostar de treinar, mas ele estava muito focado naquele Mundial. Foi um dos que mais treinou. Ele queria muito aquilo". Assim Bebeto define como começou a Copa dos Estados Unidos, em 1994.

Depois de uma primeira fase sem grandes sustos, veio o jogo mais marcante para o ex-camisa 7, pois os papéis se inverteram. Romário, acostumado a receber passes de Bebeto, terminou como garçom na vitória por 1 a 0 contra os EUA.

"Foi o jogo mais difícil, era a Independência deles, os caras estavam com sangue nos olhos. Nós tivemos o Leonardo expulso, eles tiveram a chance de ganhar. A gente com menos um, ele fez aquela jogada espetacular e me deu o passe na medida, eu chutei rasteiro, e o goleiro não chegou", recordou.

"Logo que a bola entrou eu olhei para ele na comemoração e disse: ‘Eu te amo, meu irmão!' Mostrei todo carinho e entrosamento. Aquele grupo era uma família. Depois desse jogo eu falei para ele: 'Ninguém tira mais esse título da gente'", disse.

Nas quartas de final, uma vitória suada contra a Holanda por 3 a 2 com dois gols da dupla. Bebeto deu cruzamento para Romário marcar o primeiro e fez o segundo depois de driblar o goleiro Ed De Goeij, que ficou na saudade. Na comemoração, ele fez o gesto do 'nana neném', que ficou eternizado na história dos Mundiais.

"Eu estava superfeliz, tinha nascido o Mattheus durante a Copa, o único filho que não vi de perto. Me veio a ideia na hora. Não tinha falado nada pra o Romário ou Mazinho. Mas daí os dois chegaram e fizeram o mesmo gesto. Ficou marcado e foi uma coisa espontânea."

Na final, a dupla não marcou gols contra a Itália, mas comemorou a conquista do tetracampeonato mundial com uma vitória nos pênaltis (Romário fez o primeiro). Bebeto relembrou até que ele queria bater a primeira penalidade, mas o técnico o escalou para bater a última - que não foi necessária porque o Brasil venceu por 3 a 2.

"Eu pedi para o Parreira deixar eu cobrar logo o primeiro pênalti porque, seu eu perdesse, ainda dava para se recuperar (risos). Mas ele falou que era para eu ser o que iria definir o campeonato. Eu treinava uns 70 pênaltis por dia e não bati no final, é brincadeira?", declarou, relembrando imediatamente o que conversou com Romário em seguida.

"'Conseguimos nosso objetivo, nosso sonho. Valeu a pena todo sacrifício da gente'. Só disse isso, e choramos demais no campo, no vestiário. Nós nos abraçamos muito emocionados. Na volta ao Brasil, a emoção foi tão grande quanto a da conquista. Eu sou tímido pra caramba. Não queria contato com a imprensa. O Romário mandou eu ficar de um lado do avião e ele do outro para aparecer na janela a dupla do tetra (risos). Eu não quis e falei para ele 'Vai você'. Então ele se pendurou na janela e colocou a bandeira para fora, foi legal demais", relembrou, aos risos, Bebeto.

DRAMA QUATRO ANOS DEPOIS

Não é com a mesma emoção que Bebeto relembra da Copa de 1998, realizada na França. Naquele ano, apesar de ter a concorrência de Ronaldo, ele tinha chance de reeditar a dupla com Romário e buscar o quinto título do Brasil no torneio.

O destino, no entanto, não permitiu que isso se concretizasse.

"Ele estava com problema na panturrilha. A gente via o esforço dele todo dia, incentivava. Ele mancava muito, não teve jeito. Zagallo teve que cortar. Foi uma tristeza. Eu estava com Leonardo no quarto, e no quarto eram colados os nomes que iriam disputar a Copa do Mundo. Fiquei muito triste e me emocionei pra caramba", recordou Bebeto.

RIVALIDADE? SÓ AMIZADE

A amizade nem sempre foi notada por quem estava perto. No início da carreira, muitos acreditavam que Romário e Bebeto nutriam uma grande rivalidade. Natural. Ambos jogavam por arquirrivais e disputavam a artilharia do Campeonato Carioca. Bebeto, no entanto, disse que nunca houve disputa, aposta ou qualquer diferença entre eles.

"A gente sempre se deu superbem. Ele sempre se preocupava com isso, e a gente saía abraçado do vestiário, porque a imprensa falava muito em rivalidade entre a gente."

Bebeto só lamenta uma coisa. Não ter tido a chance de jogar ao lado de Romário em um clube. A 'bola bateu na trave' muitas vezes. Somente uma vez se concretizou.

"Quando cheguei ao Flamengo, o Baixinho foi para o Valencia, é mole? Não fizemos jogos oficiais. Só no Vasco, em 2001. E foi uma única vez", afirmou.

A partida foi contra o Bahia, uma vitória vascaína por 1 a 0, em São Januário. Depois, as lesões evitaram novas partidas entre os dois.

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2:10

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"Lá fora, quase jogamos juntos logo depois de ter sido artilheiro do Espanhol pelo La Coruña. O Barcelona tentou me levar, mas o presidente do meu clube me disse: ‘Se eu te deixar sair daqui, a torcida me mata' (risos)", contou Bebeto.

"O entrosamento entre nós era perfeito, coisa de Deus. Vai demorar para existir outra (dupla) igual a nossa. Joguei com muitos craques, mas ele foi o meu melhor parceiro. Não tenho dúvida. Temos uma história linda, e ninguém vai apagar. A gente está entre as duplas mais importantes da história do Brasil", finalizou Bebeto.