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Premier League: Para Anistia Internacional, Newcastle pode ser usado para 'limpar' imagem saudita

A chegada de um novo grupo de investidores que está prestes a comprar o Newcastle vem sendo o assunto mais acalorado das últimas semanas no esporte inglês. O consórcio da Arábia Saudita levantou uma discussão sobre riqueza do futebol e direitos humanos, e para esclarecer a complexidade da situação a ESPN Brasil conversou com o porta-voz da Anistia Internacional no Reino Unido, Felix Jakens.

“A Anistia Internacional não é contra a compra. O que fizemos foi mostrar preocupação quanto ao histórico de direitos humanos da Arábia Saudita sob o comando do príncipe herdeiro, Mohammed Bin Salman. Vemos a compra do Newcastle como parte da tentativa do regime saudita de lavar a imagem deles por meio do esporte”, diz o assessor.

Antes, o contexto: o fundo PCP Capital Partners ofereceu 300 milhões de libras (R$ 2 bilhões na cotação atual) por 80% do Newcastle, e o negócio está prestes a ser concretizado. O grupo é capitaneado por Mohammed Bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, relacionado com violação de direitos humanos e incentivo a uma sangrenta intervenção militar no Iêmen.

Bin Salman também é acusado de ordenar o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em outubro de 2018, dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul - Kashoggi era crítico do governo saudita. O príncipe herdeiro nega a acusação.

E o Newcastle? Uma das maiores instituições de defesa dos direitos humanos no mundo, a Anistia Internacional teme que o clube esteja sendo usado como instrumento para “amaciar” a imagem do país.

“A Premier League é a liga mais assistida do mundo. E isso cria uma oportunidade para países como a Arábia Saudita começarem uma narrativa diferente sobre si mesmo. Ao invés de ser sobre violações de direitos humanos, detenção de mulheres e pessoas que defendem os direitos humanos, ou 180 execuções em um ano, muitas cortando a cabeça, a narrativa começa a ser sobre a Arábia Saudita, um país com foco internacional, interessado em promover o esporte no mundo todo”, aponta Jakens.

A preocupação é tamanha que nesta semana a Anistia Internacional enviou uma carta para a Premier League, alertando sobre os riscos do negócio.

“Os sauditas têm uma reputação internacional muito ruim, especialmente pela perspectiva de direitos humanos. Sabemos que é um dos piores lugares do mundo para ser mulher ou LGBT. Eles tentaram apagar o assassinato brutal de Jamal Khashoggi, o jornalista que era crítico ao regime. E eles têm tentado usar o esporte para limpar esta imagem, e talvez o Newcastle seja a mais recente destas tentativas. O que temos feito é ser bem claros quanto a situação de direitos humanos na Arábia Saudita, e pedindo a Premier League para que considere os direitos humanos quando tomar esta decisão.”

O problema é que muitos torcedores do Newcastle apoiam a compra. Não tanto pelos compradores, e sim pela saída do atual proprietário. Mike Ashley, dono de uma rede de artigos esportivos, é detestado pela torcida, e não foram raras as vezes em que vimos protestos nas arquibancadas do St James’ Park contra a gestão atual. Ashley adquiriu o clube em 2007 e viu um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra passar duas temporadas na segunda divisão inglesa e lutar contra pouco investimento e decisões organizacionais equivocadas.

O contra-argumento de quem quer se livrar do atual dono, não importa quem chegue, é que o príncipe herdeiro saudita Mohammed Al Salman não participaria do dia-a-dia do clube - apesar do dinheiro investido vir da sua fortuna. Yasir Al-Rumanyan, ex-banqueiro e um dos homens mais influentes da Arábia Saudita fora da família real, seria o novo presidente do Newcastle.

“Claro que teremos centenas, senão milhares de pessoas envolvidas para gerenciar o Newcastle. Não estamos falando que estas pessoas estarão envolvidas em violação de direitos humanos. O que estamos dizendo é que todas as pessoas envolvidas neste negócio, torcedores e a comunidade do futebol, devem estar totalmente cientes de com quem estão fazendo negócios, do histórico de direitos humanos da Arábia Saudita e o que esta compra representa. Não é sobre negócios ou futebol, é sobre lavar a imagem por meio do esporte”, diz Jakens.

Esta não é uma discussão nova no mundo do futebol. As compras do Manchester City por uma das principais famílias de Abu Dhabi, e do PSG pelo Qatar Sports Investments, também geraram questionamentos - Catar e Emirados Árabes, os dois países por trás dos clubes, também têm históricos bem negativos. A Premier League impõe uma série de regras para compradores de clubes, o que não parece impedir este tipo de negócio.

“A Premier League tem o teste de donos e diretores (Owners and Directors Test), mas isto parece se concentrar na viabilidade econômica do indivíduo ou da organização. E estamos preocupados que isso potencialmente prejudique a Premier League. A Arábia Saudita é um país onde ser LGBT pode resultar em pena de morte. A Premier League também tem uma campanha LGBT, 'Rainbow Laces', em que celebra igualdade e diversidade, e todas as suas facetas. Precisamos responder perguntas de como, por exemplo, essas duas coisas se encaixam”, lembra o porta-voz da AI.

“Os Emirados Árabes e o Catar, com os dois exemplos que você citou, têm tido sucesso em usar o esporte para lavar a imagem, e a Anistia Internacional tem falado bastante sobre isso.”

A Arábia Saudita apresentou em 2016 um plano de reforma para o país chamado “Saudi Vision 2030”, que estabelecia uma série de mudanças econômicas e sociais para o país, entre elas uma menor dependência do petróleo (que representa 70% da renda nacional) e a maior participação de mulheres no mercado de trabalho.

“A Visão 2030, que é o plano de reforma de Mohammad Bin Salman, não é substancial. Estamos vendo muitos problemas com direitos humanos no país. Então não existe melhora. Não existe oposição, ou sociedade civil.”

“Jornalistas são rotineiramente detidos e torturados na prisão, mulheres e defensores dos direitos humanos já foram presos, torturados, e enfrentam penas de longos períodos presos simplesmente por pedirem igualdade. Sabemos que é ilegal ser uma pessoa LGBT, e é um dos piores lugares do mundo para ser uma mulher. Então a reforma não está acontecendo na Arábia Saudita. Se estivesse, falaríamos algo bem diferente. Então o que estamos fazendo é falar para todos os envolvidos com o Newcastle e com a Premier League para estarem totalmente cientes do que está acontecendo no país.”

A compra do Newcastle e todos os desdobramentos será um dos temas do "Premier League de Casa" que vai ao ar neste sábado na ESPN Brasil.