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Ingenuidade, malandragem, fama, sumiço, aldeia: histórias de um Índio que marcou época no Corinthians

19 de abril, Dia do Índio. No mês em que se festeja a data, também se comemora o aniversário de um famoso Índio da história do futebol nacional. José Sátiro Nascimento, lateral que ganhou tudo, completou 41 anos de vida no último dia 3.

E que vida inusitada, cheia de altos e baixos, teve o filho do Cacique Zezinho. Oriundo da aldeia Xucuru-Kariri, de Palmeira dos Índios, AL, Índio ficou muito conhecido no Brasil por causa do futebol.

Irakinã, como é chamado por amigos e familiares, começou a vida futebolística somente aos 17 anos. Foi destaque nas divisões de base do Vitória, da Bahia, até chamar a atenção dos dirigentes corintianos e se transferir para o time de Parque São Jorge.

No time principal do Corinthians, ficou entre 1998 a 2000, onde viveu uma das melhores fases da história do time alvinegro.

Índio afirma ter sido um jogador ingênuo, que tinha salário modesto no clube. A dificuldade de administrar a carreira profissional se deve, segundo ele, por falta de estudo, pois mal conseguiu frequentar a escola até a sexta série. Também não tinha empresário e assinava tudo que aparecia à sua frente, sem ler uma só linha dos contratos.

Ingênuo, mas nem tanto assim.

Índio foi pai aos 12 anos de idade e, quando chegou ao Corinthians, dirigia seu possante por três anos sem ter feito aulas em uma autoescola, muito menos ter uma carteira de habilitação.

Em entrevistas dadas no início dos anos de 2010 aos jornalistas do UOL e da Gazeta Esportiva, Índio contou orgulhoso as várias vezes em que foi parado e subornou os guardas de trânsito com camisas usadas nos treinos ou jogos do Timão. Disse que sempre se dava bem nessas situações, até o dia em que foi parado por um torcedor do São Paulo. Nessa situação, ele contou que teve sorte, pois tinha no carro uma camisa do Tricolor que havia trocado dias antes com o lateral Serginho, em um clássico paulista.


Um anjo chamado Vampeta

Sorte de Índio que teve alguns amigos, não tão cara-pálidas assim, que puderam dar um norte a carreira profissional. Vampeta foi o maior deles. Foi o ex-volante baiano, hoje presidente do Osasco Audax, que arrumou o primeiro dinheiro para que o “ingênuo” índio comprasse a casa dos sonhos para os pais.

O velho amigo Vamp também orientava o alagoano, sempre que tinha oportunidade, alertando-o para guardar suas economias e investir corretamente o dinheiro que ganhava, principalmente das premiações por vitórias e títulos com o Corinthians.

Índio sempre fez questão de dizer que foi enganado pelos dirigentes alvinegros todas as vezes que sentava com eles para assinar um contrato.

Afirmou que, há época, recebia cerca de R$ 1.500 de salário por mês, enquanto alguns jogadores como Dida, Marcelinho Carioca, Rincón, Vampeta e Edílson, por exemplo, ganhavam salários milionários.

Índio conta que a estratégia que ele usava para amenizar o déficit era “roubar” os companheiros de time durante os incansáveis jogos de carta que eram realizados nas concentrações, sempre valendo dinheiro. Diz ele que tinha métodos próprios para enganar os adversários de cartas e que sempre se dava bem.

Índio se saía melhor quando, em campo, conseguia ajudar o Corinthians com conquistas. Se deu muito bem com as premiações do Paulista de 1999, no bicampeonato brasileiro 1998-1999 e no primeiro título do Mundial de Clubes da Fifa, alcançado no Maracanã, em 2000.

Foi embora do Timão no mesmo ano, quando o clube fez uma verdadeira faxina no elenco. Certamente tinha muita lenha para queimar ainda no Parque São Jorge.

Índio passou por outros tantos clubes e virou ídolo na Ásia, onde defendeu duas equipes da Coreia do Sul. Jogou também na Grécia, no Peru e voltou ao Brasil para seguir uma verdadeira saga por muitos times do interior paulista e do país afora.

Chegou a ser campeão, em 2015 por dois campeonatos estaduais distintos. Um por Rondônia, pelo Genus, e outro pelo Cambé, na terceira divisão do paranaense. Há 5 anos, quando estava com 36, o lateral ainda sonhava com uma oportunidade que não veio para jogar o Campeonato Paulista.

Em 2015, em entrevista para o jornalista Luciano Borges, hoje nos canais ESPN, afirmou que ainda dava um caldo, mesmo se aproximando dos 37 anos. Afirmou que tinha futebol para levar não só qualidade, mas como marketing e muitos torcedores para o estádio.


Verdades e controvérsias

Índio sumiu do mapa, pelo menos da mídia, nos últimos cinco anos. No ano passado, esteve em Sergipe, trabalhando como técnico de um time infantil.

Sempre misterioso, em outra entrevista, em 2012, ao repórter Adriano Wilkson, do UOL, Índio afirmou estar muito bem financeiramente. Disse que tinha uma fazenda onde ganhava muito dinheiro negociando cabeças de boi. Contou que o filho mais velho dos sete que teve, Patrick, era o administrador de seus negócios e da fazenda. Na mesma matéria, o Cacique Zezinho desmentiu o filho, disse que ele estava passando por grave dificuldade financeira, que havia perdido todos os bens adquiridos com o futebol, e ainda implorou para que o repórter o ajudasse a retomar a carreira profissional e ganhar dinheiro novamente.

Nessa época, mais uma vez o amigo Vampeta o ajudou, levando o jogador-amigo para atuar no Osasco Audax, onde definitivamente não brilhou.


A nova vida de índio

Não foi tão fácil encontrar o Índio, campeão do mundo pelo Corinthians, ainda mais nessa época de quarentena. Com uma pista na mão, a reportagem da ESPN procurou um jornalista de Poços de Caldas, no Sul de Minas, com a intenção de que ele ajudasse a encontrar o personagem que andava sumido da mídia nacional pelo menos há 5 anos.

O repórter José Carlos Silva, apresentador da TV Poços, nos contou que a família de Índio vivia, desde 2001, na cidade vizinha, Caldas, a 30 quilômetros de Poços de Caldas. Gentilmente, ele se dispôs a ir até a cidade e encontrou o ex-jogador, hoje com 41 anos de idade, morando na aldeia que ele ajudou a construir com o finado pai.

Na aldeia Xucuru-Kariri vivem aproximadamente 50 famílias, em um total de 150 pessoas. José Sátiro, o Índio mais famoso da aldeia, não tem dinheiro, mas arrumou um emprego na secretaria de esportes de Caldas. Por lá plantam milho, feijão e contam com médicos e uma boa assistência social.

Por telefone, conversamos com o ex-lateral do Corinthians. “Rapaz, roubaram o meu celular e perdi o contato de todo mundo, do Vampeta, Fubá, Fábio Luciano... Você, por favor me arruma o contato deles”, disse Índio, na primeira resposta.

E como está a vida na aldeia? “Tá muito boa fera. Estou solteiro e, desde que o meu pai morreu, há 5 anos, moro com a minha mãe. Estou cuidando dela até que Deus me dê força.”

Índio também contou o que anda fazendo nos últimos tempos em Caldas, na cidade onde foi instalada o grupo indígena Xucuru-Kariri. “Tenho sete filhos e cinco netos, mas continuo solteiro. Só vou casar o dia que encontrar uma garota de respeito. Aqui em Caldas eu treino uma escolinha de crianças de 10 a 15 anos, desenvolvo talentos e caço jogadores para levar para o Corinthians, onde tenho uma parceria.”

Aposentado dos campos, Índio ainda falou de um plano que nunca foi realizado, um sonho de encerrar a carreira diante da fiel. “Um tempo atrás encontrei o Andrés Sanchez e disse a ele que gostaria de fazer o meu jogo de despedida na Fazendinha (Parque São Jorge), e ele de cara me ofereceu a Arena para a realização do jogo de despedida. Já até combinei com o Vampeta que, quando passar essa história do coronavírus, que a gente vai convidar os ‘Amigos do Índio’ para jogar contra os ‘Amigos do Vampeta’, como você sabe ele é o meu irmão.”

De volta às raízes, Índio vai tocar aquela vida que ele mesmo conheceu na infância. Sem dinheiro, sem glamour, sem holofotes, sem luxo, mas feliz, sempre imbuído e determinado a ajudar na alimentação de seus companheiros de aldeia. Para isso, Índio pediu para que colocássemos nessa reportagem o contato dele para que as pessoas possam ajudar com cestas básica.

“Eu não peço para mim, até porque eu tenho e ajudo muita gente da aldeia com cestas básicas, mas não dá para carregar esse piano sozinho. Com essa história do coronavírus, tem muita gente que não consegue trabalhar na cidade, nem no campo. Aqui estamos todos de quarentena e a comida está começando a faltar. Quem puder ajudar, por favor, pode me ligar no WhatssApp, (35) 99730-5832. Pode falar comigo mesmo e, se puder, por favor nos envie cestas básicas para a gente não passar necessidade nessa fase dura de pandemia.”

Ao lado de sua mãe Josefa e de seus amigos, José Sátiro Nascimento vai seguir honrando suas origens.