O ano mágico do Cruzeiro em 2003 tem nome e sobrenome: Alexandro de Souza, ou simplesmente Alex, o camisa 10 e maestro de um time que ficou na história ao conquistar a Tríplice Coroa (Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Brasileirão).
Autor de 39 gols e mais 39 assistências em toda a temporada, Alex liderou a equipe dirigida por Vanderlei Luxemburgo e fez também o melhor ano individual da carreira. Mas conseguir tais números e um desempenho tão acima da média só foi possível com muito sacrifício.
Acredite: em janeiro de 2003, Alex não era nem um pouco querido pela torcida cruzeirense. O meia já tinha passado sem sucesso pelo clube em 2001 e vinha de um semestre comum na temporada anterior. Mas Luxemburgo, que o conhecia tão bem, entrou em ação e ajudou a mudar essa história.
"O único time em que joguei montado exclusivamente para girar em torno de mim foi o Cruzeiro de 2003. Nem o do ano seguinte seria assim", lembra o ex-jogador, no livro "Alex, a Biografia", escrita pelo jornalista Marcos Eduardo Neves.
Luxa fez sua parte no aspecto tático, ao criar um time que potencializasse tudo que seu camisa 10 tinha de melhor. A engrenagem, porém, só seria perfeita se Alex também se dedicasse fora dos campo. E foi exatamente o que ele fez.
Alex firmou um pacto com Luxemburgo baseado em dois pilares: treinar muito e emagrecer. Para isso, o meia montou praticamente toda sua alimentação em melancia, o suficiente para reduzir o percentual de gordura e aumentar a massa muscular, além de melhorar explosão, força e velocidade. Também prometeu se livrar dos doces, o que nem sempre conseguiu cumprir.
"Nessa reeducação alimentar, aconteceram cenas ridículas. No dia seguinte a uma partida, estava comendo um doce num restaurante, o Vanderlei entrou no local e quem estava comigo na mesa escondeu a sobremesa para que ele não visse. Não havia descanso. Diariamente eu era obrigado a me pesar e a cada duas semanas analisavam o meu percentual de gordura", recorda Alex.
"Antes de um jogo no Mineirão, eu vomitei o dia inteiro, de fraqueza. Não reunia forças para ficar de pé. O Vanderlei me dava apoio, dizia que eu conseguiria, me estimulava. Fizemos um 2003 espetacular, mas foi um sacrifício desumano", recorda.
Em meio a tudo isso, Alex tinha outra situação a resolver, de cunho pessoal. A esposa e ele faziam tratamento para engravidar, o que exigiria dele algumas "regalias". Pela orientação médica, o casal tinha dias específicos para fazer sexo. Um deles coincidiu com uma partida contra o Internacional, no Mineirão, pelo Brasileiro.
"Passamos a ter três dias determinados para transar para que ela engravidasse. O primeiro foi no dia de uma partida contra o Internacional. Quando ela me lembrou, eu estava na Toca. Como o time estava bem, na hora do almoço eu cheguei no Luxa e avisei que precisava urgentemente 'fazer neném' com a Dai. Ele tirou sarro da minha cara, mas me liberou, desde que estivesse de volta na hora da preleção", conta Alex.
"Ele me liberou de meio-dia às duas, não ia dar. Fui para casa, encontrei o meu cunhado com a esposa, avisei que tinha de ir para o quarto resolver uma coisa com a Dai, batemos a porta, transamos, tomei banho correndo e voltei para o jogo. Ganhamos por 3 a 1 e fiz até gol, de falta".
Histórias de um ano mágico para Alex. Alvo de desconfiança da torcida em janeiro, o meia correspondeu à confiança de Luxemburgo e faturou três títulos, além de participar diretamente de 78 dos 172 gols do Cruzeiro na temporada. Quis o destino que ele não estivesse em campo no jogo do título, contra o Paysandu.
Mas isso não impediu a comemoração com a torcida e o fechamento de 2003 com chave de ouro, ao anotar cinco gols nos 7 a 0 sobre o Bahia, na última rodada. Um jogo que ficou marcado por dois fatos, um antes e outro no intervalo.
"Torcedores do Bahia começaram a ligar para os nossos quartos. Falavam que, se ganhássemos, estaríamos fritos. No domingo, um carinha me telefonou: 'Alex, quero te falar um negócio. Se o Cruzeiro ganhar, ninguém vai sair de Salvador'. Perguntei a ele se podíamos conversar no bar do hotel. Desci, ele foi logo dizendo que o Bahia não podia cair, que o Cruzeiro podia facilitar as coisas. Eu disse que o Bahia tinha teve o ano inteiro para se encontrar e agora precisava ganhar do melhor time do país e torcer por um monte de resultado. E completei: 'Me desculpe, mas o Bahia já caiu'".
No primeiro tempo, o Cruzeiro fez logo 4 a 0, quatro gols de pênalti de Alex. Faltava um para o centésimo no campeonato, um para Alex ser o maior artilheiro celeste em uma edição de Brasileiro. Luxemburgo sabia disso e ordenou.
"Você não vai mais voltar para ajudar no meio, vai ficar parado na frente. E vocês, tratem de roubar a bola e tocar no Alex", ordenou o professor. No fim, Alex marcaria mais um, o Cruzeiro fecharia a temporada com 102 gols no Brasileirão e o meia encerraria um capítulo mágico na sua carreira.
Alex ainda ficou no Cruzeiro em 2004, graças a um aumento de cinco vezes do salário que recebia no ano anterior. Foi campeão mineiro e, em junho, transferiu para o Fenerbahce, da Turquia, para iniciar uma nova história de idolatria. O meia encerrou a carreira em 2013, pelo Coritiba, clube que o revelou.
