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Luxa 'apático', troca de socos e cartola 'bêbado': Alex lembra 'zona' na seleção antes da Olimpíada-2000

O futebol brasileiro já foi obcecado pelo ouro olímpico. Antes de conquistar o título, nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, a seleção bateu na trave algumas vezes e acumulou decepções em diversas campanhas. Uma delas aconteceu em 2000, como conta o ex-meia Alex.

Camisa 10 da equipe que foi a Sidney, na Austrália, o meia revelou bastidores daquela campanha no livro "Alex, a Biografia", escrito em parceria com o jornalista Marcos Eduardo Neves, em 2015. A frustrada busca pelo então inédito ouro foi atrapalhada pela "zona", como o próprio ex-jogador resume, que virou a preparação.

Campeã do pré-olímpico em janeiro, a seleção sub-23 viajou para Sidney em setembro com apenas dois amistosos, ambos contra o Chile, no mês anterior. A delegação foi dividida, já que Alex, Ronaldinho Gaúcho, Athirson e o técnico Vanderlei Luxemburgo só puderam embarcar após jogo contra a Bolívia, em 3 de setembro, pelas eliminatórias.

A preparação na Austrália, que já estava comprometida, ficou ainda pior, como conta Alex. Um dos problemas era Luxemburgo, em meio à investigação da CPI do futebol e sem o foco ideal para dar atenção aos treinos e preparar o time para os desafios.

"Surgiu na nossa frente um Vanderlei completamente diferente daquele que conhecíamos. Abatido, apático, vivia talvez o seu pior momento, tanto pessoal quanto profissional. Não dava nem treino direito. Eu e o Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, passamos a jogar tênis para treinarmos alguma coisa. Caso contrário, fatalmente engordaríamos", conta Alex, em sua biografia.

"Ainda havia problemas na comissão técnica, que viajou rachada. Antes do jogo com Camarões, o Vanderlei deu a preleção pondo um vídeo e disse várias coisas sobre o time deles. No que saiu da sala, o Candinho entrou pedindo para esquecermos tudo o que o Luxa tinha passado. Era uma zona", completou.

O racha da comissão técnica ficou evidente em outro momento, quando, segundo Alex, dois integrantes da comissão técnica trocaram socos no hotel da concentração e precisaram ser separados pelos jogadores.

"Certa vez, estávamos ouvindo música quando vieram em nossa direção o fisiologista e o preparador físico. Eles passaram conversando e entraram no quarto, onde começaram a discutir. A porta se abriu e um deles caiu no corredor depois de um soco. A gente saiu embolando no meio deles para separá-los. Esse era o clima", lembrou.

O time olímpico tinha Alex e Ronaldinho como principais nomes, e outros que mais tarde teriam uma carreira bem consolidada, casos do goleiro Helton, do zagueiro Lúcio, do lateral Athirson, do volante Fabiano e do meia Roger. Confinados, os jogadores acumularam stress e também tiveram momentos de descontrole.

O ápice foi no jogo da eliminação, quando Lúcio, irritado com uma resposta atravessada de Roger, deu uma cabeçada no companheiro. O Brasil perdeu para Camarões por 2 a 1, no gol de ouro da prorrogação, mesmo jogando uma parte do jogo com dois jogadores a mais.

No vestiário, a melancolia pela derrota nas quartas de final deu lugar a raiva quando os meninos foram cobrados rispidamente pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o chefe de delegação, Élmer Guilherme Ferreira, que era presidente da Federação Mineira de Futebol (FMF). Como capitão daquele time, o meia se revoltou.

"Quando fomos eliminados, o Ricardo Teixeira apareceu, não sei de onde, e o pseudochefe da delegação também, ambos para chamar nossa atenção. Falaram que a derrota foi uma vergonha. O chefe da delegação, então, disse que era um absurdo, onde já se viu, seleção brasileira, com jogadores desse porte, e com a CBF dando todo o respaldo por trás...", relatou Alex.

"Nessa hora não aguentei. O sangue ferveu. Falei: 'O senhor vai me desculpar, mas, primeiro, o senhor não estava aqui. Segundo, o senhor só ficava bêbado. Terceiro, a gente não sabe nem o seu nome, cara. A gente chamava você de chefe de delegação, mas nunca tivemos relação nenhuma. Nem quando ganhamos, muito menos agora que perdemos. Você veio passear na Olimpíada. A gente chegou a ter o absurdo de o ônibus sair atrasado só porque estávamos esperando você arrumar a gravata. O senhor ainda se acha no direito de nos cobrar?'", desabafou.

"A gente sabe a merda que vai acontecer, temos consciência de que isso aqui vai mudar a carreira de muita gente. É uma geração boa que, de repente, vai ficar no meio do caminho por causa desse resultado. Agora, o que não pode é o senhor vir falar esse monte de absurdo, se o senhor não viu nada. O senhor vivia bêbado! Aliás, deve estar bêbado até agora...", esbravejou Alex.

Na biografia, o meia ainda conta que foi alertado sobre os efeitos do desabafo e que isso poderia prejudicar sua carreira na seleção. Alex voltou a ser convocado e ficou na seleção, entre idas e vindas, até 2005, mas não conseguiu realizar o sonho de disputar uma Copa do Mundo. A ausência em 2002 é, até hoje, algo inexplicável.