Quando jogava pelo Barcelona, Ronaldo Fenômeno marcou contra o Compostela o gol mais espetacular de sua carreira. No estádio Multiusos de San Lázaro, o brasileiro deu 14 toques na bola em 12 segundos, deixou cinco adversários para trás e sofreu várias faltas antes de finalizar no canto direito do goleiro Fernando Peralta. O próprio Ronaldo elege o gol como o mais bonito de sua carreira.
A jogada repercutiu pelo mundo todo. Fabiano Soares foi um espectador privilegiado. O brasileiro era meia do Compostela e se lembra com detalhes do lance ocorrido em 12 de outubro de 1996.
"Ele ainda estava magro e não tinha os problemas no joelho. Era o melhor jogador do mundo disparado. Fiquei com raiva na hora porque perdemos de goleada. Ficamos muito conhecidos por esse gol, mas foi um lance espetacular", admite, ao ESPN.com.br.
O brasileiro conta que o técnico do Compostela, Fernando Vázquez [atualmente no La Coruña] não queria que a bola chegasse em Ronaldo.
"O treinador era audacioso e disse: 'Eu quero a defesa adiantada e nós vamos pressionar o Barcelona no campo deles. E vamos roubar a bola lá e ganhar deles'. O problema é que quando a bola chegava no Guardiola e no Stoichkov eram só toques de primeira. Não conseguíamos desarmá-los", contou.
Isolado na frente, Ronaldo resolveu ir até o campo de defesa para buscar o jogo e utilizar sua incrível velocidade, arranque e habilidade. Fabiano estava perto da área adversária quando o lance começou.
"Ele driblou uns nove jogadores do nosso time. Aí, nem no PlayStation a gente tinha como pará-lo (risos)", admitiu.
"O Saïd Chiba, que era um marroquino do nosso time, tentou segurar o Ronaldo pela camisa. Ele pensou que ia levar um amarelo e alguém ia conseguir parar a jogada. Depois, ele me disse: ‘Ah, como tem oito jogadores lá atrás eu soltei. Esse foi meu erro’. Mas não foi assim que aconteceu (risos)", explicou.
A reação do técnico inglês Bobby Robson, que saltou incrédulo com as mãos na cabeça, ficou famosa. O então auxiliar, José Mourinho, assim como Pep Guardiola, capitão do Barça, também foram comemorar com o Fenômeno.
Depois do jogo válido pela 7ª rodada de LaLiga, Fabiano ficou muito bravo pela goleada por 5 a 1, mas conseguiu pegar a camisa do Ronaldo antes de ir embora do estádio. Ao chegar no prédio onde morava, ele estacionou o carro na garagem e pegou o elevador, que simplesmente parou de funcionar no meio do caminho.
"Eu fiquei preso entre a garagem e o primeiro andar. Como o estacionamento ficava um shopping, ninguém me escutava gritar. A minha sorte é que eu já tinha um celular naquela época, que estava com a bateria fraquíssima. Eu liguei para um amigo chamado Juan, que chamou o segurança que conseguiu abaixar o elevador e me tirar de lá", recordou.
O meia ficou tão sem graça com a situação que ao ser solto não pensou duas vezes. Olhou para o objeto que segurava nas mãos e o entregou para o amigo, que tinha um filho torcedor fanático pelo Barcelona, como forma de agradecimento.
"Eu disse: ‘Toma a camisa que o Ronaldo me deu para você’. O garoto ficou todo feliz, mas a mãe dele ficou brava porque o Ronaldo limpou a sujeira do nariz nela. Ela queria lavá-la, mas o garoto ficou tão emocionado que só deixou para secar do suor e não quis lavar", contou o brasileiro. "Ou seja, tomei de cinco, fiquei preso no elevador e não fiquei com a camisa (risos)", explicou.
Apesar da bronca na hora do jogo, a história passou a ser tratada com bom humor no Compostela.
"Depois que passou um tempo, a gente brincava: 'Chiba, maldita hora que você foi largar o homem!' Olha o drible que o Ronaldo te deu, comigo ele não dava'. O Ronaldo era imparável naquela época! Era um espetáculo vê-lo jogar", admitiu.
Em apenas uma temporada no Barça, Ronaldo marcou 47 gols em 49 jogos.
Carreira de Fabiano
Natural do Rio de Janeiro, Fabiano Soares tentou a sorte em alguns clubes antes de começar na base do Botafogo. O clube alvinegro vivia um incômodo jejum de títulos, e o meia não teve muitas chances no time profissional, que preferia apostar em jogadores mais experiente. Por uma indicação do volante Alemão, ídolo do time alvinegro, ele foi para o Fabril, de Lavras-MG, em 1987.
Ele se destacou no Estadual e foi contratado pelo Cruzeiro, pelo qual teve uma rápida passagem. Em 1989, foi vice-campeão paulista pelo São José-SP e recebeu uma oferta do Celta de Vigo-ESP.
“No começo eu não queria ir, mas fui e nunca mais saí daqui (risos). Cheguei junto com o Nílson [artilheiro do Brasileiro de 1988 pelo Internacional] e o Maurício [ex-Botafogo], mas eles saíram e eu permaneci”, recordou.
Em 1992, Fabiano foi para o Compostela, da segunda divisão espanhola, e conseguiu o acesso para LaLiga. O meia permaneceu por oito temporadas na equipe - pela qual virou ídolo e chegou a ser capitão - antes de voltar ao Botafogo.
“Eu queria encerrar minha carreira onde comecei. Consegui que o Paulo Autuori me aceitasse e ainda joguei o ano de 2001 por lá”.
Apesar de ter planos de pendurar as chuteiras, Fabiano ainda jogou uma temporada no Compostela-ESP e outra pelo Racing de Ferrol-ESP, pelo qual conseguiu o acesso na Segunda Liga B (3ª divisão).
“Vi que meu corpo não aguentava mais e resolvi tomar outro caminho”, explicou.
Fabiano foi estudar para ser treinador e fez os cursos da Uefa, tirando a licença pro da entidade. O brasileiro começou a vida de treinador no Compostela-ESP. Depois, passou por Estradense-ESP, Estoril Praia-POR (como auxiliar e treinador), Athletico-PR e Jeonnam Dragons-COR.
* Reportagem original publicada em 20 de janeiro de 2020
