<
>

A angústia de Falcão, time 'custo zero' e Leão xerifão: 15 anos do último Paulistão do São Paulo

Há 15 anos, o São Paulo sagrou-se campeão paulista pela última vez, em um campeonato que ficou marcado pela presença de Falcão do futsal, por um time formado praticamente sem custo e por ser o início do "Soberano", uma fase recheada de títulos.

Poucos meses depois da taça “caseira”, o São Paulo ganhou também a Copa Libertadores e o Mundial de Clubes. De 2006 até 2008, foi tricampeão do Campeonato Brasileiro.

Um dos responsáveis pelo sucesso foi Milton Cruz, 62, então coordenador técnico do São Paulo. Foi ele quem iniciou a montagem do elenco dois anos antes. E, ao lado de Rojas,preparador de goleiros e treinador interino ao seu lado em 2003, encontrou a "fórmula mágica".

“Depois da saída do Oswaldo de Oliveira em 2003, nos assumimos o comando. Planejamos um jeito de jogar, conseguimos classificar o time para a Copa Libertadores depois de dez anos e fomos buscar jogadores de qualidade sem custo para o São Paulo. Foi aí que chegaram nomes como Danilo, Fabão, Rodrigo, Cicinho, Josué, Mineiro...”, disse Milton Cruz para a ESPN Brasil.

A diretoria do São Paulo, sob orientação de Cruz, se notabilizou naquele período por monitorar jogadores em fim de contrato. Assim, seis meses antes do vínculo encerrar, utilizando a lei, o clube tricolor procurava o atleta para assinar um pré-contrato.

Conseguiu bons jogadores, livres do custo de transferência.

No final de 2003, trouxe o zagueiro Fabão, o meia Danilo e o atacante Grafite, todos do Goiás, então sensação do Campeonato Brasileiro. Até mesmo Cuca foi contratado. Ele era o treinador do time esmeraldino naquele momento. No final de 2004, veio também o volante Josué.

Na mesma época, o lateral direito Cicinho assinou com o clube do Morumbi, após rescindir com o Atlético-MG na Justiça. E, em meados de 2004, o lateral esquerdo Junior, que acabava de encerrar o contrato com o Parma, da Itália, também acordou com a diretoria são-paulina.

Uma das poucas exceções foi o zagueiro Diego Lugano. O São Paulo pagou 200 mil dólares ao Nacional-URU pelo jogador de 22 anos, em abril de 2003. Ninguém no clube o conhecia. A vinda ocorreu porque o presidente Marcelo Portugal Gouvêa ouviu o empresário Juan Figger e bancou.

“Lembro que, em 2003, quando conseguimos a vaga na Copa Libertadores, eu procurei o Marcelo [Portugal Gouvêa] e o Juvenal [Juvêncio, vice-presidente de futebol] e expliquei que o elenco que tínhamos estava muito inchado e não tinha o perfil para jogar o torneio. Citei que tinha usado o tempo em que fiquei trabalhando na Arábia Saudita para viajar a Inglaterra. Além de ver os jogos, observei a organização. Os melhores times tinham elencos enxutos. Passei isso para a diretoria. E foi o que fizemos. Enxugamos, com a saída daqueles que entendíamos que não se encaixavam no projeto, contratamos bons nomes sem custo e completamos com a base”, disse Milton Cruz.

O ex-coordenador citou jovens como Edcarlos, Renan, Marco Antônio, Diego Tardelli e Fábio Santos.

“Com uma espinha dorsal, uma base montada, encontramos uma forma de jogar, com três zagueiros. A semente foi plantada ali e o projeto só deu certo porque vieram treinadores na sequência que souberam dar continuidade e melhorar o que já estava bom”, lembrou Milton Cruz.

Cuca foi o primeiro a chegar perto do pódio. Levou o São Paulo até a semifinal da Copa Libertadores de 2004, mas foi eliminado pelo Once Caldas, da Colômbia, com derrota fora de casa por 2 a 1.

Em setembro, o treinador paranaense pediu para sair, desanimado com os resultados. Então, a diretoria contratou Emerson Leão, que conseguiu um terceiro lugar no Brasileiro, com uma arrancada no final, ficando a sete pontos do Santos, o campeão daquele ano.

Antes da temporada acabar por completo, além de Josué, o São Paulo acertou a contratação do volante Mineiro, em fim de contrato com o São Caetano. Uma indicação de Emerson Leão, que já o havia treinado.

Foi a união praticamente perfeita para que o desejo de conquistas se realizasse em 2005. O São Paulo conquistou o título Estadual na 17ª rodada, em 3 de abril, ao empatar sem gols com o Santos, em Mogi Mirim.

Aquele time perdeu apenas dois jogos (Portuguesa e Ponte Preta). Somou 45 pontos, com 14 vitórias e três empates. Marcou 49 gols em 19 partidas (média de 2,57 tentos por jogo) e sofreu 21.

“Era um time coletivamente muito bom. Todos os reforços encaixaram, se entrosaram e o São Paulo ganhou uma cara. Depois do título do Paulistão, colhemos muitos outros frutos”, disse Milton Cruz.

Xerifão Leão e a angústia de Falcão

Antes de o Paulistão de 2005 iniciar, o São Paulo fez mais uma contratação, mas essa totalmente inusitada e com participação do departamento de marketing. A diretoria trouxe Falcão, do futsal, então com 27 anos e eleito pela Fifa como o melhor jogador da modalidade em 2004.

“Eu já conhecia o Falcão e sabia o quanto ele era talentoso. Eu o treinei no Paulistano, de São Roque, numa Copa São Paulo de futebol júnior. Ele precisava de adaptação ao campo, pois não estava acostumado a correr tanto para jogar. Ele era incrível”, disse Milton Cruz.

Falcão ganhou a camisa 12 no São Paulo, a mesma que utilizava no futsal, e um salário de R$ 60 mil mensais. Muitos torcedores --até os que não eram são-paulinos-- ficaram curiosos para vê-lo jogar futebol de campo.

O problema é que Emerson Leão deu poucas oportunidades para Falcão. E o talentoso jogador chegou a reclamar publicamente.

“Às vezes, o técnico é paizão e defende o jogador na imprensa, mas cobra no vestiário. Mas comigo não. Cobra-se na imprensa e no vestiário não se fala nada”, disse na época. “Tenho uma imagem por tudo que fiz. Estou sendo denegrido. Certas coisas precisariam ser internas”.

Dos 21 jogos do São Paulo na temporada 2005, considerando o Paulistão e a Libertadores, Falcão participou de seis, sendo titular uma vez (diante do Mogi Mirim, na última rodada do Estadual). Nas outras cinco oportunidades, o treinador sempre o colocava nos minutos finais.

“Ele ficou angustiado porque queria jogar, queria realizar aquele sonho. E a torcida pedia pra vê-lo em campo. A imprensa também. Ele ficava no banco, e a torcida gritando o nome dele. No futsal, não preciso nem falar o que ele fazia, era um show com a bola no pé”, disse Milton Cruz.

“Ele foi contratado pelo presidente. Talvez não estivesse nos planos do Leão, mas não teve problema entre eles. É que o Leão sempre teve essa fama de rígido, durão. Ele era bem exigente mesmo, disciplinador, mas não tiveram problemas”, acrescentou.

No entanto, internamente, a saída de Falcão foi um ponto de atrito entre a diretoria e o treinador. Na mesma época, Leão queria fazer mudanças no CT da Barra Funda. Antes, ele já havia proibido Rogério Ceni de cobrar faltas --o goleiro já ostentava a fama de bom cobrador.

Na mesma data da saída de Falcão, Leão também saiu. Pediu a rescisão contratual. O Estadual já tinha terminado e o time estava no início da fase de grupos da Copa Libertadores.

O treinador alegou ter uma dívida de gratidão com um amigo do Vissel Kobe, do Japão, e mudou-se para lá, para treinar o clube. Despediu-se com 45 jogos, 27 vitórias, 12 empates e seis derrotas.

Foi substituído por Paulo Autuori, o campeão da Copa Libertadores e do Mundial. Em 2006, assumiu Muricy Ramalho. Foi ele o comandante dos três títulos nacionais, de 2006 até 2008.

Um época em que o torcedor são-paulino era feliz e sabia...