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Como a alta do dólar e a desvalorização do real afetam o futebol brasileiro

Antes da pandemia do novo coronavírus, o noticiário econômico havia sido tomado por um assunto: a desvalorização do real frente ao dólar e ao euro. A moeda norte-americano teve picos históricos, passando pela primeira vez dos R$ 5, enquanto a europeia chegou a bater R$ 5,70 no último dia 18. Diante deste contexto, fica a pergunta: essa variação interfere no futebol brasileiro?

Para responder a questão, consultamos dois especialistas em finanças esportivas, Fernando Ferreira da Pluri Consultoria e Cesar Grafietti da Itáu BBA.

“O clube de futebol em si só é impactado com variações cambiais no aspecto de compra e venda de jogadores. Como somos um mercado exportador líquido, a desvalorização do real acaba tornando o produto brasileiro mais barato no exterior”, explicou Fernando.

“Clubes que venderão atletas ou que venderam e tem valores a receber, terão benefício pois receberão mais reais pelos mesmos euros. Em contrapartida, quem tem valores a pagar em euros, normalmente pela contratação de atletas do exterior, serão negativamente afetados, pois os valores a pagar ou de investimento serão maiores.”, completou Cesar.

Um exemplo negativo é o Flamengo. Em 2020, o clube se movimentou forte no mercado, contratando Pedro Rocha, Michael, Pedro, Thiago Maia, Gustavo Henrique e ainda garantiu a permanência de Gabriel Barbosa.

Por ter fechado diversos empréstimos com o direito de compra, o clube não sentirá o peso imediato na sua balança, mas dificilmente conseguirá garantir a permanência dos jogadores em 2021.

No dia 30 de janeiro, quando foi anunciado a contratação de Thiago Maia por empréstimo, o Lille havia estipulado uma opção de compra em torno dos 14 milhões de euros.

Naquela época, com o euro sendo equivalente a R$ 4,75, o Flamengo teria que gastar em torno de R$ 66,5 milhões para manter Thiago Maia. Caso fosse comprar o meia neste domingo (29), o rubro-negro teria que desembolsar cerca de R$ 78,8 milhões.

O mesmo é válido para Pedro. Após concordar em um empréstimo com a Fiorentina, ficou fixado que o Flamengo teria a opção de compra do atacante, se pagasse mais de 10 milhões de euros em seu passe.

Se considerarmos o dia 31 de janeiro, o rubro-negro teria que gastar R$ 47,5 milhões para trazer Pedro, mas se o comprasse neste domingo, o valor subiria para R$ 56,7 milhões.

Por outro lado, São Paulo e o Corinthians serão benefiados com a desvalorização do real. No começo do ano, ambas as equipes venderam suas principais promessas ao exterior - Antony foi para o Ajax, enquanto Pedrinho chegou um acordo para jogar no Benfica.

Na venda de Antony, o São Paulo chegou a um acordo com o clube holandês, no qual receberia R$ 25 milhões à vista e outros R$ 75 milhões até o final do ano. Como já recebeu a primeira parcela, o Tricolor ainda pode lucrar na quantia que será paga no final de 2020.

Se calcularmos com o valor do euro deste domingo, o São Paulo poderia ganhar cerca de R$ 26 milhões até o final do ano. Além disso, ficou estipulado no acordo, que o clube paulista receberia cerca de 6 milhões de euros caso Antony cumprisse certas metas no Ajax. No dia de sua venda, o valor estimado era de R$ 27,9 milhões, mas agora, está próximo dos R$ 33,9 milhões.

A venda de Pedrinho pode semelhantemente dar lucros ao Cortinhians. No acordo com o Benfica, ficou definido que se o atacante cumprisse certas metas, os português teriam que pagar cerca de 2 milhões de euros aos paulistas.

No dia que a transferência foi confirmada, o valor estava próximo dos R$ 9,2 milhões, mas neste domingo, o Corinthians poderia receber até R$ 11,3 milhões.

Aumento nos salários

“Em alguns casos há remuneração de treinadores e atletas em dólar ou euro, e esses ficarão mais elevados quando convertidos pelas taxas mais altas que as vistas no início do ano”, seguiu o executivo da Itáu BBA.

O Flamengo também será um dos afetados pelo aumento nos gastos salariais. Jorge Jesus e Gabigol recebem em euro, sendo que o primeiro ganha 4 milhões por ano, enquanto o atacante recebe 3,5 milhões.

Se fizéssemos a estimativa no final de janeiro, Jesus ganharia cerca de R$19 milhões, enquanto o salário de Gabigol se aproxima dos R$ 16,6 milhões. Com o aumento do euro, o salário do português, se calculado neste domingo, subiu para R$ 22,5 milhões, enquanto o atacante recebeu um acréscimo de R$ 3,1 milhões por ano.

Apesar disso, Fernando afirmou que nenhum dos clubes brasileiros deve ter sua renda afetada por conta da desvalorização do real e ainda acredita que as equipes que venderam atletas devem ser beneficadas durante a crise econômica causada pela pandemia do coronavírus.

“Em todas as outras contas, nós não temos insumos dolarizados (relacionados ao dólar) nos clubes de futebol, então todas as linhas de receita – patrocínio, sócio-torcedor, bilheteria, licenciamento, transmissão – não tendem a ter impacto”, concluiu Fernando.

Relação com o coronavírus

Para o fundador da Pluri Consultoria, a desvalorização do real pode ajudar os clubes em meio à pandemia do coronavírus. Como as vendas serão mais lucrativas para os clubes nesta próxima janela, os negócios poderiam ajudar no equilíbrio das contas em momento de queda de receita.

“A gente espera uma queda de receita por conta da pandemia, que pode ser aliviada por essa mega desvalorização do real, que torna o jogador brasileiro mais barato”, disse Fernando.

“Mas o contexto também torna o jogador mexicano mais barato, o argentino, porque a desvalorização das moedas dos emergentes frente ao dólar e ao euro é generalizada; só no caso do real é mais aguda que as outras, mas todo mundo está tendo desvalorização do moeda”, alertou.