A torcida não parece muito empolgada com o Palmeiras versão 2020. Até a noite de segunda-feira, pouco mais de 20 mil ingressos para a estreia alviverde em casa na Copa Libertadores, contra o Guaraní (PAR), nesta terça, às 21h30, haviam sido comercializados.
A julgar pelo ritmo, o Palmeiras deverá ter seu menor público em um jogo da competição na era Allianz Parque (desde novembro de 2014). Até o momento, Palmeiras 3 x 1 Júnior Barranquilla, pela fase de grupos, em 10 de abril de 2019, foi o menor quórum para uma partida do time na competição: 25.787.
O futebol ainda irregular e os pouco reforços, aliados ao ótimo momento do principal rival nacional na atualidade, o Flamengo, parecem estar desmotivando o torcedor palmeirense nesta que é a quinta participação consecutiva do clube no Sul-Americano - feito inédito.
Diante de tudo isso, o cenário pode até parecer ruim. Mas quem se lembra da Libertadores de 2013, a última do clube antes dos altos investimentos da Crefisa, percebe que, em perspectiva, o Palmeiras vive hoje um ótimo momento para sua estreia em casa.
E quem não se esquece jamais daquela Libertadores é o técnico naquela época, Gilson Kleina.
Xícara na cabeça
O ano de 2012 foi o pior da história recente do Palmeiras. Em que pese a conquista da Copa do Brasil, o clube foi rebaixado pela segunda vez no Campeonato Brasileiro e estava à beira da falência. Assim, o Palmeiras estreou na Libertadores-2013, pela primeira vez desde a fundação, como um time de segunda divisão.
"O planejamento foi atípico. Começou comigo, o César Sampaio (gerente) e o Roberto Frizzo (vice-presidente). Depois, veio Paulo Nobre. Que foi muito transparente no sentido de que não haveria grandes investimentos", contou ao ESPN.com.br o técnico daquele time Gilson Kleina.
Mas a despeito de um elenco sem estrelas - exceto pelo recém-chegado Prass e o sempre lesionado Valdivia - o Palmeiras começou a mostrar bom desempenho no torneio.
"Quando o ano começou, tínhamos 17 jogadores no elenco. Fomos para a Libertadores com vários garotos da base, como Vinícius, Caio Mancha e Patrick Vieira", relembra-se Kleina.
A estreia no torneio foi em casa, em 14 de março, contra o Sporting Cristal, do Peru. A vitória por 2 a 1, com gols do zagueiro Henrique e de Patrick Vieira, foi um bom preságio - que não se confirmou.
Na sequência, vieram duas derrotas fora de casa: 2 a 0 para o Libertad e 1 a 0 para o Tigre. Foi depois da derrota para os argentinos que, em embate da delegação com torcedores uniformizados, no aeroporto de Ezeiza, Fernando Prass recebeu uma "xícara na cabeça", que era destinada a Valdivia.
A rixa de Valdivia com a principal organziada do clube era antiga. E, no calor de uma discussão, um torcedor arremessou uma xícara contra o time, acertando o goleiro, que nada tinha a ver com a história.
Sangue na veia
Os resultados deixaram o Palmeiras a perigo por uma vaga na próxima fase. Mas aí, veio o improvável: com vitórias consecutivas sobre o Tigre (2 a 0, Caio e Charles) e Libertad (1 a 0, Charles novamente), o time pulou para a ponta da chave e chegou à última rodada com chance de liderar o grupo.
Empolgado após a vitória sobre os paraguaios, em 11 de abril, o então presidente Paulo Nobre desceu aos vestiários do Pacaembu batendo no antebraço e dizendo que o time tinha "sangue na veia", criando uma frase que seria usada pelo marketing do clube nas partidas seguintes.
No Peru, na rodada seguinte, o Palmeiras perdeu para o já eliminado Sporting Cristal (0 a 1). Mas o empate entre Libertad e Tigre deixou o Verdão na ponta: saldo 0 contra saldo -1 dos argentinos. A proxima parada era o México.
Grama sintética
Como campeão de sua chave, o Palmeiras iria decidir a vaga em casa contra o Tijuana. Pela frente, além do adversário, duas novidades: o gramado sintético do estádio dos Xolos e o goleiro Bruno como titular da meta.
Em 22 de abril, Prass teve uma lesão séria no ombro, que o tiraria da fase decisiva do Campeonato Paulista e das oitavas da Libertadores.
Para se adequar à grama sintética, que hoje é arma do Palmeiras em sua casa, o elenco treinou no campo do Nacional Atlético Clube, que fica em frente à Academia de Futebol. Para o jogo de ida, deu certo: Bruno foi o principal responsável pelo resultado de 0 a 0.
"Além do gramado, a logística no México para chegar a Tijuana era muito complicada", diz Kleina. "Era para termos vencido lá. Tivemos um pênalti claro não assinalado sobre o Wesley", diz o treinador.
"Nenhum clube tinha conseguido sair de Tijuana sem perder naquela Libertadores. O resultado nos animou, é claro", conta Gilson.
"Porque a Libertadores é diferente, é um torneio que você precisa sentir, não basta jogar", explica o técnico. "E o nosso time estava melhorando e bem focado na competição".
Mas, na partida de volta, um erro de Bruno começou a colocar tudo por água abaixo.
Frango, discussão no vestiário e eliminação
Tão importante no México, o goleiro falhou grosseiramente na partida de volta, abrindo caminho para a vitória dos mexicanos, ao tomar um gol absurdo.
Aos 26 da primeira etapa, ele se abaixou para pegar uma bola chutada sem força por Riascos e levou o frango "clássico", pelo meio das pernas.
O gol desestruturou o time e os mais de 34 mil presentes ao Pacaembu naquela noite de 14 de maio.
"No intervalo, a conversa com o Bruno foi no sentido de transmitir confiança, porque ainda tínhamos o segundo tempo inteiro. Mas os ânimos ficaram, exaltados. O (volante) Charles discutiu com o Bruno, por exemplo, e eu tive que ir lá separar", revela Kleina.
Antes de descontar, aos 16 do segundo tempo, com Souza, o Palmeiras foi ainda novamente vazado, aos 6.
Acabava assim, a última participação palmeirense como mero coadjuvante na Copa Libertadores.
Em 2015, após um ano de centenário complicadíssimo em 14, o Palmeiras assinaria contrato de patrocínio com a Crefisa, ressuscitaria financeiramente, ganharia a Copa do Brasil e se classificaria para todas as edições da Libertadores desde então - sempre como favorito.
"A partir de 2015, o Palmeiras mudou de patamar", constata Gilson Kleina.
Nesse período, entretanto, o melhor resultado do time foi a semifinal de 2018, quando acabou eliminado pelo Boca Juniors. Em 2016, caiu na primeira fase. Em 2017, nas mesmas oitavas em que caíra em 2013 (para o Barcelona-EQU). E em 2019, foi eliminado nas quartas, perante o Grêmio.
