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Efeito José Mourinho: em três fases, como técnico transformou um Tottenham 'acabado' em um time com 'sua cara'

Quando se trata de avaliar treinadores e técnicos, nos apoiamos fortemente em clichês e estereótipos. É impossível evitar o famoso: só o técnico sabe o que acontece lá dentro. Portanto, nos apoiamos em coisas como "ele é um técnico ruim" e "ele perdeu o vestiário". Cunhamos frases como "síndrome do terceiro ano" para descrever como uma equipe para de ouvir seu técnico ao longo do tempo.

Esses clichês são muito usados, mas também há uma razão pela qual eles se tornam clichês: geralmente são verdadeiros. Alguns certamente aconteceram quando o Tottenham demitiu Mauricio Pochettino.

Os Spurs enfrentam o RB Leipzig nesta quarta-feira, pela Champions League, a partir das 17h00, no primeiro jogo das oitavas.

É verdade que Pochettino sofria mais com a síndrome do sexto ano - ele realmente encontrou seu melhor ritmo durante seu terceiro ano no norte de Londres - mas, com o tempo, sua equipe perdeu drasticamente o contato com sua identidade original e parecia que esforço e intensidade tinham algo a ver com isso. Ele perdeu o vestiário. O Tottenham virou um dos melhores times da Europa. Rápido e agressivo, mas isso desapareceu quase completamente quando ele foi demitido em novembro do ano passado.

Vamos comparar algumas estatísticas importantes dos últimos 23 jogos dos Spurs da temporada 2016-17 da Premier League com os últimos 23 jogos do clube nesta temporada. A amostra anterior representa o pico do Tottenham sob o comando de Pochettino - 59 pontos nos 23 jogos finais da temporada (2,57 pontos por partida, um ritmo de quase 100 pontos em toda a temporada) - enquanto a segunda amostra representa o ponto mais baixo. Eles tinham apenas 25 pontos quando ele foi demitido (média: 1,09 por partida).

É como se essas equipes fossem treinadas por dois técnicos completamente diferentes e, de certa forma, o Tottenham acabou preso entre eles. Eles implantaram uma linha defensiva razoavelmente alta, mas raramente pressionavam de maneira eficaz. Eles estavam jogando um jogo de posse de bola que não levou a nada. O time se tornou medíocre.

Pochettino teve que lutar contra problemas de lesão, e o elenco do Tottenham não era dos mais recheados. Ainda assim, considerando como jogaram nesta edição da Champions League - é claro, é uma amostra pequena, mas eles conseguiram 1,67 pontos por partida, 11,2 chances criadas e 9,8 chances permitidas por partida - você pode deduzir que esforço e intensidade eram pelo menos parte do problema com Poch.

Você também pode deduzir que esses problemas foram minimizados desde que José Mourinho assumiu o comando da equipe.

Mourinho é um homem rodado - o Tottenham é seu nono clube em 20 temporadas. Seus últimos trabalhos podem não ter sido excelentes, mas ele geralmente sabe como arrumar um vestiário. Durante três meses em Londres, ele aparentemente uniu uma identidade que é a junção das melhores partes de cada um dos times treinados por Pochettino - o que dava certo e o que dava errado. Neste momento de sua carreira, Mourinho abandonou qualquer tipo de identidade de posse, criando um time com uma forte defesa e contra-ataques rápidos.

Houve algum tipo de experimento para chegarmos a esse ponto. Você poderia dizer que estamos assistindo a terceira fase da primeira temporada de Mourinho no Tottenham, e que a quarta está chegando.

Fase 1, 20 de novembro até 1 de janeiro: Estrutura é tudo!

- 8 jogos na Premier League, 2,0 pontos por jogo (5 vitórias, 1 empate, 2 derrotas) - 2 jogos na Champions League, 1,5 pontos por jogo (1 vitória, 1 derrota)

Depois de confiar demais em Toby Alderweireld e Moussa Sissoko no controle da bola, o primeiro objetivo de Mourinho como técnico parecia criar uma distribuição mais orgânica.

Compare estes dois mapas da Opta. Eles mostram os 11 jogadores com mais minutos, juntamente com o posicionamento mais comum. Quanto maior o nome, mais toques na bola eles tiveram.

Veja como funcionava o time de Pochettino:

Agora, temos as 10 primeiras partidas de Mourinho:

Uma estrutura melhor, combinada com aquela gasolina extra no tanque por ter um novo técnico no comando - especialmente com Harry Kane e Christian Eriksen - permitiram ao Tottenham se tornar rapidamente um time sólido de no ataque, principalmente contra times menores. Eles venceram West Ham, Bournemouth, Burnley, Brighton, Wolverhampton e, na UCL, o Olympiakos. Mas também perderam para Manchester United, Chelsea e Bayern de Munique, e nesses 10 primeiros jogos, eles sofreram dois gols ou mais em seis oportunidades.

Então Kane e Sissoko se machucaram. Além disso, perto do final da janela de transferências de janeiro, eles finalmente venderam Eriksen para a Inter de Milão após meses de drama.

Fase 2, 1 de janeiro até 22 de janeiro: Lesões prejudicam os Spurs

- 3 jogos na Premier League, 0,3 pontos por partida (1 empate, 2 derrotas)

Harry Kane estava ajudando a equipe durante o período de transição, mas o atacante sofreu uma lesão séria no tendão. Sissoko também machucou o joelho, e o Tottenham perdeu para o Southampton e o Liverpool por idênticos 1 a 0, antes de chegar ao empate em 0 a 0 com o Watford.

Talvez tenha sido uma sorte que essas lesões tenham surgido após as várias partidas em dezembro: os Spurs jogaram apenas três partidas nos primeiros 21 dias de janeiro, isso não prejudicou o time tanto assim na tabela e deu Mourinho tempo para encontrar respostas. Ele conseguiu.

Fase 3, 22 de janeiro até 18 de fevereiro: O contra-ataque voltou

- 3 partidas da Premier League, 3,0 pontos por partida (3 vitórias) - 2 jogos da FA Cup (1 vitória, 1 empate)

O ataque voltou. Nos cinco jogos, que começaram com a vitória por 2 a 1 sobre o Norwich, em 22 de janeiro, eles marcaram 11 gols. Eles venceram o Southampton por 3 a 2 na quarta rodada da FA Cup, derrotaram o Manchester City por 2 a 0 e no domingo e sobreviveram ao agressivo Aston Villa por 3 a 2 com um gol no fim de Heung-Min Son.

Son jogou apenas 63% dos minutos durante o período da Fase 1, mas nesses últimos cinco jogos ele jogou cada segundo, marcando seis dos 11 gols da equipe e suprindo a ausência de Kane.

Aqui estão os toques do Tottenham nessas cinco partidas:

A velocidade de Son permitiu que Mourinho jogasse com seus instintos básicos, mantendo seus jogadores profundos e criando espaço para contra-ataques.

Bem, isso deve mudar. Na terça-feira, o clube anunciou que Son fraturou o braço contra o Aston Villa, uma lesão que pode fazer com que ele perca o resto da temporada.

Fase 4 começa nesta quarta-feira

E agora? Mourinho tenta a mesma identidade, apenas com o veterano Erik Lamela ou Steven Bergwijn, em vez de Son? Ele empurra o meia-atacante Dele Alli ou Lo Celso - sobre quem ele disse "Acho que agora ele pode jogar em qualquer lugar" na semana passada? Ele tenta algo completamente diferente? Ele não tem muito tempo para encontrar uma resposta criativa, já que o Tottenham vai jogar pela Champions League já nesta quarta.

Foi muito fácil ver que os dois principais objetivos para Mourinho em 2019-20 seriam: 1. Recuperar o Tottenham na tabela e se classificar para a Champions; 2. Seguir avançando na Champions.

No que diz respeito ao primeiro, eles estão em quinto lugar no campeonato, apenas um ponto atrás do Chelsea, e disputaram os quatro jogos contra as duas principais equipes (Liverpool e Manchester City). Graças à recente punição que o City recebeu, o Tottenham agora tem 49% de chance de se classificar para a Champions, de acordo com o FiveThirtyEight.

Essas mesmas classificações apenas dão a eles 34% de chance de eliminar o RB Leipzig nas oitavas da Champions.

A partida de quarta-feira em Londres dará o tom e é fácil ver uma partida de gato contra rato se desenrolando. Mesmo com Son, o Tottenham permitiu que o Aston Villa ficasse com 55% de posse de bola, e o Leipzig foi uma das equipes com mais posse de bola na UCL este ano.

O Bayern teve 70% de posse de bola em seu confronto com o Tottenham em meados de dezembro, enquanto Liverpool e City tiveram 67% de posse de bola contra Mourinho e companhia em janeiro. O Leipzig não é bem assim do ponto de vista da posse de bola, mas está próximo. Contra-atacar parece ser uma abordagem bastante previsível de Mourinho aqui.

Dito isto, estou curioso sobre a abordagem do Leipzig. Um grupo particularmente fácil ajudou a esculpir esses números de posse de bola alta e, na Bundesliga, a posse de bola tem sido na faixa de 50 a 55%. Enquanto isso, em um empate em 0 a 0 com o Bayern na semana passada - um enorme resultado que os manteve ali na corrida pelo título alemão - eles decidiram esperar o adversário e contra-atacar. O Bayern teve 70% de posse de bola no primeiro tempo e completou 341 passes contra apenas 103 do Leipzig.

Foi uma abordagem que teria deixado Mourinho orgulhoso. O Leipzig teve sorte de ir para o intervalo empatado, mas assumiu o controle total da partida nos primeiros 20 a 25 minutos do segundo tempo e teve azar de não sair na frente.

Com o rápido meia-atacante Christopher Nkunku e jogadores como Marcel Halstenberg e Marcel Sabitzer avançando, o Leipzig tem um forte contra-ataque. Precisando apenas de um empate fora de casa para resolver tudo na Alemanha, eles poderiam tentar atrair o Tottenham para o seu campo e jogar na defensiva.

Este poderia ser um dos confrontos mais interessantes taticamente falando das oitavas, mas mais do que isso, ajudará bastante a determinar como acabaremos julgando a primeira (dois terços) temporada de Mourinho no norte de Londres.