Hoje é aniversário do Neymar e ele está machucado.
Você está tentado a dizer "nossa, que mudança". Ele também ficou fora por lesão no ano passado – na mesma época – e no anterior, mas no final do mês. Essa sequência tirou do Paris Saint-Germain o seu jogador mais decisivo (e o mais caro da história do esporte) no final da temporada, ou seja, da Champions League. E fez toda a diferença: o PSG caiu em meio à controvérsia na última temporada, contra o Manchester United e, dois anos atrás, contra o Real Madrid (quando Neymar perdeu a partida de volta, e o PSG também).
Só que agora é um pouco diferente. Esta lesão é nas costelas, e Neymar deve voltar em breve. Se houver uma maldição, ela ainda não foi lançada.
Veja Neymar através de algo diferente das lentes usuais fornecidas por tatuagens e cartolas, exageros e histeria, flashes, Barça e festas – você pode achar que ele vive a melhor temporada de sua carreira. Não é algo que se possa medir em gols (15 em 18 partidas, praticamente igual à produção em suas duas temporadas anteriores) ou ao fato do PSG ser necessariamente um time muito melhor graças a ele. Na Ligue 1, o time está ligeiramente atrás do ritmo estabelecido nas últimas temporadas e, apesar de liderar um grupo da Champions League que incluía o Real Madrid (assim como venceu o grupo nos últimos anos), Neymar não atuou as primeiras quatro partidas.
Mesmo uma análise dos números mostra que estes estão alinhados com a maior parte da carreira de Neymar. Seus gols esperados aumentaram um pouco, mas, por outro lado, ele está dando aproximadamente o mesmo número de chutes (4 por jogo), driblando com sucesso o mesmo número de oponentes (cerca de 5,5 por partida) e passando com o mesmo aproveitamento (cerca de 79%). O lado ruim é que está perdendo a bola com mais frequência que os outros jogadores (8 por partida).
Ele parece diferente. Como um cara que, aos 28 anos, é menos consumido em ser o próximo Lionel Messi e Cristiano Ronaldo e mais em paz por ser o melhor Neymar que ele pode ser. Talvez seja maturidade. Talvez seja a constatação de que esses dois caras, apesar de estarem na casa dos trinta, não vão embora tão cedo, juntamente com o fato de que todos os dias no treinamento ele vê um cara chamado Kylian Mbappé com as habilidades necessárias para saltar sobre ele a qualquer momento.
Ou talvez seja o fato de que, nesta temporada, ele agora esteja um pouco acima do papel de Messias. Em Santos, Neymar seguia os passos de Pelé, no Barcelona era o herdeiro aparente de Messi, no PSG era o cara que os transformaria em um super clube global. E, por toda parte, houve uma discussão paralela que o levou perder a Copa do Mundo do Brasil e, em seguida, não ir bem na Rússia e ficar de fora da Copa América do ano passado.
Não é que ele não consiga lidar com a pressão ou a atenção de ter nações – reais e virtuais, como no PSG Nation – projetando suas esperanças e sonhos nele. Caramba, ele não viveu apenas com a pressão a partir dos 17 anos, ele buscou ativamente o centro das atenções e o abraçou ou, para parafrasear Frank Sinatra, ele comeu e cuspiu.
É que, do lugar no qual ele se encontra no atual momento da carreira, talvez possa ver o fim do caminho e a rapidez com que o amanhã se aproxima. A obsessão pode ser uma motivação bastante útil – basta perguntar a Cristiano Ronaldo – mas se você não tem a personalidade certa, pode levá-lo a alguns lugares tenebrosos. Especialmente quando é a obsessão dos outros.
E, portanto, existe uma moderação relativa à maneira como ele se comporta agora. Este fim de semana passado ofereceu uma imagem disso. Ele fez de tudo na vitória de 5 x 0 sobre o Montpellier, não conseguindo marcar, mas entregando uma assistência brilhante e encantando o Parc des Princes. Ele foi censurado pelo árbitro Jerome Brisard e depois entrou em conflito com ele no túnel (supostamente Brisard o criticou por não falar com ele em francês), mas, igualmente, não houve queda.
Era Neymar sendo Neymar e, embora essa amostra não se encaixe bem com alguns, ele o leva ao limite em que se sente confortável e não no que os outros esperam. E ele até conseguiu se divertir com isso. O atacante do Montpellier, Andy Delort, chamou isso de "desrespeitoso" antes da partida e a resposta pós-jogo de Neymar foi – obviamente – via Instagram, posando com o companheiro de equipe Leandro Paredes e uma camisa autografada de Delort com a mensagem: "Um abraço ao nosso amigo".
Ele também machucou uma costela naquele jogo, talvez em função de ser derrubado pelo menos nove vezes. Isso o impediu de ir à festa de aniversário com tema branco que ele deu para si mesmo com um guarda-chuva sobre a cabeça? Claro que não.
Ele apareceu, festejou, mas fez questão de se certificar de que estava na cama em uma hora razoável. Seu treinador Thomas Tuchel disse que não é "a melhor maneira de se preparar para uma partida". Mas, ei, com Neymar, você leva o bem com o mal. E um Neymar feliz é um Neymar produtivo. Pelo menos é assim que parece do lado de fora. O hype e a expectativa que antes pareciam tão sufocantes e exaustivos ainda podem estar lá, mas não pairam sobre ele do jeito que faziam antes. Ele é um homem melhor – e melhor jogador de futebol – por isso.
Tendo sido o candidato a sucessor do melhor da história na última década, ele não tem problema em outras pessoas lidarem com o trono mais. Contanto que ele possa jogar, se divertir e ser a melhor versão possível de si mesmo. E ele decide como é isso, não as dezenas de milhões que estão determinadas a confiar grandeza nele desde que ele fez sua estreia no Santos, todos esses anos atrás.
