Irrelevante não é normalmente um termo associado a José Mourinho e Pep Guardiola, em especial quando dois dos técnicos mais famosos do mundo se enfrentam. Mas, dez anos depois que essa rivalidade atingiu o ápice nos tempos de Real Madrid e Barcelona, teria chegado o momento em que o duelo entre eles não interessa mais?
Os dois se enfrentam pela 23ª vez neste domingo – Guardiola lidera retrospecto com dez vitórias a cinco e mais sete empates –, quando o Tottenham recebe o Manchester City, com Mourinho e Guardiola compartilhando uma trajetória descendente pela primeira vez na carreira. O partida em Londres terá transmissão ao vivo e exclusiva da ESPN Brasil e do WatchESPN, a partir das 13h.
Alguns podem argumentar que a primeira temporada como rivais em Manchester, em 2016-17, foi um ponto baixo. Mas, naquele ano, houve uma disputa particular pelo quarto lugar da Premier League, Mourinho guiou os Red Devils aos títulos da Copa da Liga Inglesa e da Liga Europa, enquanto Guardiola construía os alicerces de um City esmagador de recordes em seguida.
Eles ainda eram os maiores nomes do jogo, ainda que a hostilidade dos tempos de rivalidade direta na Espanha não existisse mais. Sempre que um time de Mourinho enfrentava o de Guardiola, era relevante porque o mundo sabia o significado dessa partida – uma briga por título, um mata-mata ou ainda um lugar na próxima Champions League.
Mas o duelo de domingo colocará frente a frente dois técnicos, e times, que não sabem para onde estão indo. O City entra no fim de semana com incríveis 19 pontos atrás do líder Liverpool e depende de um colapso sem precedentes da equipe de Jürgen Klopp para sonhar com o inédito tricampeonato inglês. E o Tottenham, que buscou Mourinho para o lugar do demitido Mauricio Pochettino em novembro, amarga a sexta posição, seis pontos abaixo do G-4 menos de um ano depois de disputar a final da Champions League.
Guardiola, que levou o City à terceira final de Copa da Liga Inglesa seguida e segue nas disputas da Copa da Inglaterra e da Champions, continua no caminho para ganhar mais troféus. Mas o surgimento do Liverpool de Klopp colocou Guardiola e o seu Manchester na sombra.
Hoje, o Liverpool de Klopp, prestes a ser campeão inglês e atual campeão europeu, é o ponto de referência do futebol mundial, enquanto Guardiola precisa encontrar uma maneira de voltar para o jogo.
Quanto a Mourinho, faz tempo que não aparece nas conversas sobre grandes títulos. Ele não conquista o título inglês desde 2015, com o Chelsea, e sua última Champions foi há uma década, quando a Inter de Milão derrotou o Bayern de Munique , em 2010.
Como Guardiola, Mourinho ainda está vivo na Champions League, já que o Tottenham se prepara para enfrentar o RB Leipzig no mês que vem, pelas oitavas de final. A chance de levantar o terceiro título europeu, claro, ainda existe, mas, diante dos últimos trabalhos, é melhor não perder tanto tempo imaginando o português na final de Istambul, em maio.
Seu desafio atual é provar que, aos 57 anos, ainda tem o que é preciso para recuperar os velhos tempos. O projeto do Tottenham é ambicioso, com um estádio de nível mundial e jogadores que causam inveja em grandes clubes, mas Mourinho não tem a riqueza que tinha no Chelsea ou Real Madrid, ou ainda o poder de quando dirigiu Manchester United ou Internazionale.
Guardiola tem muito mais a seu favor, porque o City sempre vai oferecer a seu técnico um substancial orçamento no mercado de transferências. Mas o ponto é se ele pode conduzir uma nova reformulação no Etihad Stadium. No Barcelona e no Bayern de Munique, sua intensidade levou à exaustão. Agora, ele precisa de toda a energia e inspiração para bater de frente com o Liverpool de Klopp.
Os predadores se tornaram as presas, anos depois de Mourinho bater de frente com Arsene Wenger e Sir Alex Ferguson quando chegou para dirigir o Chelsea em 2004, pouco antes de Guardiola fazer o mesmo com Ferguson na Champions League e com o próprio Mourinho na Espanha.
A subtrama da partida de domingo é feita por dois homens que procuram um caminho de volta ao topo do futebol mundial. Nunca antes houve tanta dúvida e insegurança sobre Mourinho e Guardiola.
